O atacante norte-americano Folarin Balogun foi expulso no jogo entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina. Cartão vermelho. Lance revisado pelo VAR. Pisão no adversário. Suspensão automática para o jogo seguinte. Dessa forma, pelas regras mais elementares do futebol, ele não poderia jogar contra a Bélgica, nesta segunda-feira (6), pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Simples assim.
Ou melhor, era simples assim, até Donald Trump descobrir que, além de presidir os Estados Unidos, também poderia apitar a Copa do Mundo por telefone. A FIFA manteve o cartão vermelho, mas suspendeu por um ano a punição automática que tiraria Balogun da partida contra os belgas.
Bem-vindos à Copa do Imperador.
Trump, como se sabe, não se contenta com pouco. Para ele, fronteira é detalhe, tratado é sugestão, economia alheia é brinquedo tarifário, guerra é tabuleiro de War e soberania internacional é uma dessas frescuras inventadas por gente que ainda acredita em regra.
Agora, o esporte também entrou no pacote. A doutrina é simples, elegante e brutal. Meu país, minhas regras. Em qualquer lugar. Em qualquer assunto. Em qualquer campo.
Foi assim que o presidente dos Estados Unidos ligou para Gianni Infantino. Naturalmente, não foi pressão. Imaginem. Foi apenas um pedido de revisão. Uma conversa amistosa. “Dá uma olhadinha lá se é possível.” “Quebra esse galho.” “Veja com carinho.” “É pelo bem do espetáculo.” Claro.
Trump pediu, Infantino ouviu, a FIFA se iluminou, o Comitê Disciplinar descobriu subitamente uma passagem escondida no regulamento e Balogun, por milagre administrativo, voltou ao jogo.
Pra cima de mim não! Foi uma ordem. Ponto final. Trump admitiu ter pedido a revisão; Infantino confirmou a ligação e disse, com aquela solenidade de quem carrega um piano nas costas, que os órgãos judiciais da FIFA são independentes. Independentes, sim. Tão independentes que se mexem exatamente quando o telefone certo toca.
Para justificar a palhaçada, a FIFA invocou o artigo 27 do Código Disciplinar. O dispositivo permite suspender total ou parcialmente a implementação de uma medida disciplinar e colocar o punido em período probatório.
Traduzindo para o idioma da arquibancada, Balogun continua expulso, mas não precisa cumprir agora a consequência da expulsão. O vermelho segue vermelho, mas seus efeitos ficam em banho-maria. É o cartão vermelho homeopático. O castigo existe, mas foi descansar.
E o mais assombroso é que a entidade não se deu sequer ao trabalho de explicar com decência o mérito do lance. Não disse, com clareza, que o pisão não teria sido tão duro. Não apresentou uma tese técnica robusta para dizer que Raphael Claus errou. Não reconstruiu o lance com transparência.
Preferiu a velha arrogância cartorial. Achamos um artigo, usamos o artigo, obedeçam o artigo. O presidente do Comitê Disciplinar, Mohammad Al Kamali, ainda saiu-se com a joia de que suspender os efeitos do cartão seria uma medida “mais equilibrada”. Equilibrada para quem? Para o regulamento, não. Para a Bélgica, muito menos. Para o futebol, nem em sonho. Talvez tenha sido equilibrada para evitar que o Imperador do Mundo acordasse de mau humor.
A UEFA chamou a decisão de “sem precedentes, incompreensível e injustificável” e disse que a FIFA cruzou uma linha vermelha. Curioso. A única linha vermelha que a FIFA resolveu respeitar foi a linha telefônica entre Washington e Gianni Infantino. A outra, aquela do cartão aplicado em campo, virou peça decorativa.
Infantino, o cordeiro, fez o que cordeiros fazem quando o dono do pasto assobia. Baixou a cabeça, balançou o rabinho institucional e deixou que a engrenagem encontrasse uma saída “jurídica”.
Dá até para imaginar a conversa. “Camarada Al Kamali, agora não é hora de deixar um craque fora de um jogo tão importante. O Trump pediu gentilmente. Vamos atender. Como podemos fazer isso?” E então aparece o estapafúrdio artigo 27, reluzente como uma chave mestra fabricada às pressas.
Tenho pra mim que a FIFA evitou uma guerra. Mais uma. Talvez Trump ainda pretendesse decretar sanções contra o impedimento, tarifas contra o VAR e embargo econômico ao cartão vermelho. Talvez a Bélgica fosse incluída em alguma lista de países ingratos por insistir na bobagem antiquada de que jogador expulso cumpre suspensão. Francamente, uma desfaçatez sem tamanho. Onde vamos parar?
O grotesco, no entanto, não termina aí. Segundo reportagem repercutida pela CNN Brasil, com base no The Athletic e no New York Times, a Casa Branca coordenou uma operação jurídica e política para tentar anular os efeitos do cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. Houve dossiê, advogados, articulação com a federação americana e até uso de acusações públicas contra Claus, embora autoridades brasileiras e a própria FIFA não tenham encontrado evidências de irregularidade por parte do árbitro.
É a diplomacia do constrangimento. Primeiro se questiona o árbitro. Depois se embala a suspeita. Em seguida se transforma o desconforto em documento. Por fim, se liga para a FIFA. Dá para imaginar o FBI, a CIA e outras agências americanas produzindo o tal dossiê? “Operação Pisão Livre.” “Missão Balogun.” “Força-tarefa contra o cartão vermelho.” Parece piada. Mas, no mundo de Trump, a piada sempre chega vestida de memorando oficial.
E ainda há o toque brasileiro, porque nenhum absurdo planetário está completo sem uma jabuticaba nacional pendurada no galho.
O Comitê Disciplinar da FIFA é composto por 18 membros. Entre eles tem um brasileiro. Sabe quem? Francisco Schertel Mendes. E sabem de quem ele é filho? Do ministro Gilmar Mendes, do STF. Sim, aquele. O mestre supremo dos habeas corpus e das decisões criativas no Judiciário brasileiro. É irônico, não acham?
Não é preciso dizer que isso não prova participação dele na decisão. Não prova, não afirma, não acusa. Mas, como paisagem simbólica, convenhamos, é quase literatura. Trump telefonando. Infantino obedecendo. A FIFA invocando um artigo providencial. Um comitê disciplinar internacional. Um brasileiro filho de ministro do Supremo no elenco do colegiado. O árbitro brasileiro sob suspeita lançada de fora. A Bélgica protestando. A UEFA espumando. E o jogador liberado para entrar em campo como se o regulamento fosse apenas um guardanapo usado no jantar de gala.
Precisa dizer mais alguma coisa?
A FIFA conseguiu transformar uma expulsão em escândalo institucional. Conseguiu fazer o cartão vermelho perder autoridade sem anulá-lo. Conseguiu dizer que a punição existe, mas não agora. Conseguiu agradar Trump, irritar a Europa, expor Claus, humilhar o bom senso e ainda posar de guardiã da legalidade. É uma obra-prima do cinismo administrativo.
No fim, Balogun joga. A Bélgica reclama. A UEFA protesta. A FIFA finge independência. Infantino sorri. Trump comemora. E o futebol, esse sujeito antigo, ingênuo e cada vez mais abandonado, descobre que suas regras valem muito, até esbarrarem no telefone do presidente dos Estados Unidos.
A Bélgica que se cuide hoje, porque se Balogun fizer falta de expulsão, quem corre o risco de sair algemado de campo é o juiz.
A partir de agora, talvez seja melhor atualizar o regulamento da Copa. Artigo primeiro: o jogo tem 90 minutos. Artigo segundo: vence quem fizer mais gols. Artigo terceiro: em caso de interesse americano, consultar previamente a Casa Branca.
Seria mais honesto.
Leia outras colunas do Agenor aqui.



