ANO IV

04/06/2026

HojePR

sergio

Miss Cyclone (Parte Final)

04/06/2026
cyclone

Como já tinha dito na primeira matéria que escrevi sobre Miss Cyclone, no dia 7 de maio de 2026, foi graças a Lira Neto, escritor de “Mau Selvagem”, uma biografia de Oswald de Andrade, que ficamos conhecendo em detalhes o relacionamento de Miss Cyclone com os pré-modernistas de São Paulo. Com base nas informações do livro, poderemos saber como foi o último ano de vida de nossa heroína trágica.

Daisy remeteu um bilhete a Oswald, desta vez escrito com letra nervosa, apressada. Devido ao número excessivo de faltas à Escola Normal, os professores já a tinham dado como reprovada. Ao saber do fato, a tia a expulsara de casa. “Foi um horror. Fui chicanada e maltratada como nunca”. Em vez de deixar Daisy tomar destino incerto, a tia decidiu enviá-la a bordo do primeiro trem para Cravinhos, no interior de São Paulo, sob companhia e a vigilância cerrada da avó. Caberia à mãe, Guilhermina, definir as providências a serem tomadas a respeito do caso. Na mensagem a Oswald, Daisy pedia que ele mandasse o caricaturista Ferrignac até a estação para, de forma discreta, levar-lhe um embrulho com as roupas que deixara na última gaveta da cômoda da garçonnière. O próprio Oswald não deveria ir junto. Caso o reconhecesse, a avó faria grande escândalo. Alguém delatara o flerte à família. Com o histórico amoroso dele, não convinha dar margem a maiores represálias.

Daisy solicitava um favor adicional aos “gravatas”: dissessem ao dr. Leonardo Pinto, professor do Ginásio Lusitano, que, caso o interpelassem a respeito, por obséquio confirmasse o álibi que inventara para explicar as repetidas ausências de casa: ela teria trabalhado no Lusitano, em contraturnos da Escola Normal.

No mais, Daisy esperava encontrar um jeito de recuperar a saúde, escapar da prisão doméstica e regressar a São Paulo dali a um mês. Enquanto isso, Oswald deveria lhe dirigir cartas para uma caixa postal em Cravinhos. Em troca, ela enviaria a correspondência para a redação da Gazeta, pois o endereço da Líbero Badaró também já não deveria ser mais segredo para a família.

O que Miss Cyclone poderia fazer em um lugarejo daquele, distante trezentos quilômetros da capital? A sede da cidadezinha, surgida em torno da estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, contava com menos de 5 mil habitantes. Naquele ano de 1918, o município dispunha de uma única escola primária, um só arremedo de livraria e apenas um modesto cineteatro de tela encardida, o Eden. A vida era uma pasmaceira em Cravinhos. Inaugurando um diário pessoal em pequeno caderno escolar, Daisy escreveu com tinta vermelha:

“Será aqui, neste interior tão calmo, tão singularmente quieto, que eu, a Miss Cyclone dos grandes meios, a donna fatale de olhos escuros sombreados de pó; eu, a cabeça mais bizarra de São Paulo, irei sepultar toda a impetuosidade dos sonhos, todo o esplendor de um amor mal contido. Ser-me-á este livreto toda a urna de alegrias ou dores, pedaços de tédio, arrepios de amor, confissões…”.

Como se quisesse replicar o espírito irrequieto e fragmentário d’O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, ela preenchia as páginas com desenhos à mão, citações de autores prediletos, onde recortes de artigos de Oswald e caricaturas de Ferrignac publicadas na imprensa faziam companhia a uma fotografia de Baudelaire, arrancada de um exemplar d’As flores do mal. Daisy passava a maior parte do tempo ali, deitada na cama de solteiro, protegida por um mosquiteiro de tule branco. Desde que chegara, em 18 de agosto, sentia-se indisposta, com fortes dores nas costas e abdômen. Não se sabia qual moléstia andava a lhe minar as forças e a lhe retirar o ânimo. O médico, chamado pela família, recomendou descanso e receitou injeções de anestésico à base de ópio, além de inalações de éter e cocaína.

Outra escrita no diário: “Ouvi dizer uma vez na Bohemia sentimental que, a cada vez que se inicia uma espécie de vida nova, o coração se substitui e a alma se transforma. Pelo que sinto, o mesmo se deu comigo. Mudo hoje minha doce vida de doidivanas. Serei doravante a mulher inicial, a promissora virgem, a filha pródiga que voltou sem ter partido”.

Em carta a Ferrignac, sentenciou: “A Miss morreu! Aquela Miss branca, um pouco cipreste, um pouco flor, aquela que no bom retiro de Piratininga firmou uma época”. No lugar de Cyclone, imaginou encarnar outra personagem, Gracia Lohe, “uma burguesita de boas cores e higiênica”. Mais do que um codinome, Gracia seria uma espécie de heterônimo, para quem Daisy, em seus devaneios literários, chegou a esboçar uma árvore genealógica imaginária, de linhagem metade britânica, metade ibérica. Miss Gracia só teria uma ambição na vida: “Engordar, embrutecendo”.

Enquanto isso, em São Paulo, Oswald abarrotava o diário da garçonnière de confissões de amor, chegando a se assinar como “Babão de Andrade”. Se costumava ser parcimonioso no envio de cartas a Cravinhos — fato que provocava constantes queixas de Daisy revelava-se cada vez mais apaixonado nas declarações rabiscadas n’O perfeito cozinheiro das almas deste mundo.

“Cyclone… não sei mais nada, amo-te, amo-te!”, fez constar, com letra tortuosa, quase ilegível, talvez sob efeito de alguma carraspana. Por vezes, na ressaca de anotações do gênero, arrependia-se. Autocensurava-se, cobrindo com lápis de cor vermelha ou azul-escura o que acabara de escrever.

Um belo dia, mandou um telegrama pra Daisy: boa notícia a dar. Encontrara a oportunidade e o pretexto ideal para visitá-la. A Liga da Defesa Nacional, fundada por Olavo Bilac, estava arregimentando estudantes e jovens bacharéis em São Paulo para correr o interior do estado em conferências cívicas alusivas ao Dia da Pátria. O palanque em Cravinhos já estava reservado para o advogado Alceu de Assis, diretor do Diário da Manhã e fundador da revista A Pátria, ambos de Ribeirão Preto. Como alternativa, Oswald se ofereceu para discursar em Jardinópolis, a apenas quarenta quilômetros de Cravinhos — menos de duas horas de viagem.

“Virá, o meu amor, para me ver. Que bondade! Que loucura de alma!”, festejou Daisy no diário. “Assim, aos poucos, irá curando-se o coração doente da Miss Cyclone.”

Na véspera da conferência em Jardinópolis, Oswald desembarcou na estação de Cravinhos e, ao balcão do pequeno hotel, foi informado de que não havia nenhum quarto disponível no modesto estabelecimento, um dos poucos do local. O que à primeira vista lhe pareceu um estorvo na verdade veio a calhar. Na condição de jornalista e voluntário da Liga da Defesa Nacional, foi convidado a se hospedar na casa do sr. Ignácio da Costa Ferreira, o padrasto de Daisy. A mãe, Guilhermina, não fez objeção. Talvez por não terem ligado o nome à pessoa — já que nas cartas e bilhetes interceptados pela família ele sempre se identificara como Miramar ou Paulo Vitor (pseudônimo que adotara em textos do extinto Pirralho).

O casal recepcionou com cortesia o bacharelando que Daisy apresentou como sendo um amigo distinto da capital. Cordato e educado, o hóspede conquistou de imediato a confiança dos anfitriões, a ponto de lhe ser permitido ocupar o quarto de Daisy. Ela dormiria, naquela noite, junto aos irmãos mais novos. Feito o arranjo doméstico, os enamorados combinaram um estratagema. Durante a madrugada, quando a casa estivesse em silêncio e todos os demais já dormissem, ela levantaria e, sorrateira, rumaria ao quarto, para que os dois pudessem desfrutar, enfim, de um momento a sós.

Exausto da viagem, Oswald caiu no sono antes da hora acertada. No meio da noite, sob a luz vermelha, foi despertado pela presença perfumada e suave de Daisy, aconchegada na cama estreita, vestida com o roupão roxo de Miss Cyclone.

“Eu em ti, tu em mim: nós dois em Cravinhos”, ela segredou ao diário, na manhã seguinte. Em carta escrita depois da partida de Oswald, rememoraria o instante de intimidade: “A Miss balbucia devagar, com olhos mortos, toda a cena de amor que tu lhe deste. Arfa-lhe mais o seio miúdo e o corpo de nevrose têm cintilações de gata. I…] Traz a Miss, nas carícias das mãos reais, sutilezas elegantes de volúpia. A fúria de amar lhe lateja no sexo”

De volta a São Paulo, Oswald recebe uma carta de Daisy: “Desfaz esta garçonnière”. Pedia inclusive para que Oswald Ihe enviasse a mesinha de chá, a espreguiçadeira, os tapetes, a escrivaninha branca e os discos, além dos quadros de Di Cavalcanti e de Anita Malfatti. “A fanola é minha”, também avisou. “Deixo-te as andorinhas.”

Oswald cuidou de reconstruir a própria vida. Mandou buscar Daisy em Cravinhos e lhe alugou uma casa à rua Santa Madalena, no bairro do Paraíso, onde ela passaria a residir com a avó — “uma horrenda portuguesa gorda que me põe para fora da casa, l…] pontualmente, às dez e meia da noite”. Estavam oficialmente noivos.

Oswald está cada vez mais apaixonado e chega a pensar em casamento. Contudo, quando o romance parecia caminhar para o entendimento mútuo, as visitas de Daisy ao apartamento começaram a rarear. Em um sábado, ela fez chegar às mãos de Oswald mais um bilhete, por meio da amiga Graziela. Escrita a lápis, em uma folha pequena de caderno, a mensagem justificava: “Miramar; imagino o quanto esperaste ontem pela minha ida. Porém, uma pleuro congestão me retém ao leito desde quinta à noite. […] Escrevo-te da cama, tendo Graziela e outra amiguinha como enfermeira”. O bilhete de Daisy, como sempre, foi anexado ao diário coletivo. Três páginas adiante, Ferrignac desenhou um grande pássaro de olhar esbugalhado. Era a representação gráfica da “uruca”, ou seja, do azar. Bem ao lado, Oswald esconjurou: “A Uruca! Em agosto! Céus! Figas, figas!”.

Daquele ponto em diante, as anotações da convalescente Daisy nas páginas da segunda metade d’O perfeito cozinheiro das almas deste mundo alternaram os chistes habituais com anotações impregnadas de melancolia. “Que será que eu tenho em mim? Uma ansiedade má que me tortura um pouco… Sinto a premeditação que a alma tem para a desgraça!”.

Oswald era homem ciumento. Ao mesmo tempo que a independência e o talento literário de Daisy o fascinavam, pela primeira vez ele se via confrontado pela subversão dos papéis então reservados ao homem e à mulher em um relacionamento afetivo. Depois de encontrar a noiva no centro da cidade, decidiu segui-la para se certificar de que ela partiria direto para casa, sem desvios de caminho. Manteve cautelosa distância, a fim de não ser percebido. Foi fácil não a perder de vista. Bastou seguir o moderno cloche, que se destacava na multidão. “Vejo seu chapéu flutuar descendo a rua Quinze.” Daisy seguiu até as imediações do Cassino Antarctica. Parou à fachada de uma das muitas residências da área, cruzou com um moço que ia saindo e, cedendo-lhe passagem, aproveitou a porta aberta para entrar, sem cerimônias, revelando familiaridade com o lugar. Intrigado, Oswald abordou o jovem na calçada e o indagou a respeito de quem morava ali. “É uma pensão de rapazes” ouviu.

Ao ser cobrada depois a respeito do episódio, Daisy se recolheu ao silêncio. “Não tenho a coragem de romper. Ela também não explica nada, não conta, não se defende”, exasperava-se Oswald. Em junho, Daisy lhe deu inesperada notícia: estava grávida. Quando inquirida sobre quem, além dele, poderia ser o pai da criança, de novo ofereceu a Oswald apenas o silêncio, deixando-o atordoado. Ele propôs que providenciassem um aborto.

Daisy não se opôs e se valeu inicialmente de drogas abortivas, que não produziram o efeito esperado. Determinado a seguir adiante com o plano, Oswald a levou a uma parteira alemã que atendia à rua da Glória, na Liberdade. Terminado o procedimento, Oswald levou Daisy para casa. Na tarde do mesmo dia, ela sentiu os primeiros incômodos, que logo evoluíram para um quadro de dores intensas. Ao longo da noite e da manhã seguinte, desencadeou-se violenta hemorragia. Procurado por Oswald, o médico Raul Briquet, especialista em “moléstia de senhoras” que tinha consultório no mesmo prédio da garçonnière, recomendou que ele levasse a noiva, em caráter de urgência, para o hospital. Depois de dar entrada no serviço de emergência da Casa de Saúde Matarazzo, no bairro da Bela Vista, Daisy foi anestesiada e submetida a uma curetagem. Horas depois, Briquet informou a Oswald que o procedimento não fora suficiente. Devido ao aparecimento de grave infecção, seria preciso recorrer à histerectomia: a extirpação do útero. Mesmo após a cirurgia, Daisy continuou a não dar mostras de recuperação. Oswald mandou buscar, às pressas, o padrasto e a mãe dela em Cravinhos e preparou-os para o pior. Aos familiares e amigos, afirmou se tratar de um quadro de tuberculose. A confissão de um aborto poderia resultar em complicações legais. A pena prevista na lei chegava a cinco anos de prisão, tanto para o incitador quanto para a gestante — com redução da terça parte do tempo de detenção caso o delito fosse cometido “para ocultar a desonra própria”.

Certa noite, os espectadores do Theatro Municipal ficaram espantados ao ver Oswald de Andrade zanzar pela plateia de pijama, durante o intervalo de uma peça, à procura do dr. Briquet. O quadro se agravava a cada momento.

Em 14 de agosto, quando ficou claro que a noiva não mais conseguiria recuperar a saúde e voltar para casa, Oswald convocou alguns poucos camaradas, chamou um padre e um juiz de paz e casou-se com Daisy, in extremis. Vicente Rao e Guilherme de Almeida foram os padrinhos, respectivamente da noiva e do noivo, no ritual religioso. No civil, Monteiro Lobato e a esposa, Maria da Pureza, a Purezinha, foram os padrinhos de Oswald; o ministro Azevedo Marques e a mulher, Ana Azevedo Marques, os de Daisy, por procuração. “A cerimônia teve caráter muito íntimo, devido ao precário estado de saúde da noiva”, informou a nota discreta publicada no Correio Paulistano.

Dez dias depois, na madrugada fria de 24 de agosto de 1919, Daisy morreu, aos dezenove anos. Foi sepultada no jazigo da família Andrade, no cemitério da Consolação, vestida de branco. Sobre o túmulo, entre as muitas coroas de flores, lia-se em uma delas: “A Daisy, do teu pobre Oswald”.

“Esfacela-se meu sonho”, ele registrou. “Sinto-me só, perdido numa imensa noite de orfandade. A amada que me deu a vida partiu sem me dizer adeus. […] A que encontrei, enfim, para ser toda minha, meu ciúme matou… Estou só e a vida vai custar a reflorir.”

Em resposta a uma mensagem de condolências de Mário de Andrade, escreveu: “Recebi a tua excelente carta. Não me sinto com forças para respondê-la. Estou arrasado, meu ótimo amigo, e isso numa idade de poucos entusiasmos. Sinto-me incapaz de reconstruir. Fica-me, com a saudade imortal de minha esposa, a simpatia caridosa de alguns amigos. E isso me basta”.

Oswald retirou da gaveta O perfeito cozinheiro das almas deste mundo e, na página final, colou o recorte da notícia sobre o sepultamento de Daisy. A última anotação tinha sido deixada por ela, a lápis, como uma espécie de postscriptum provavelmente redigido já no hospital, em seus derradeiros dias: “E tanta vida, bem vivida, se acabou”.

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