No cenário efervescente da cultura brasileira do início do século XX, Miss Cyclone emerge como uma figura envolta em mistério e charme. Conhecida por sua relação amorosa com Oswald de Andrade, um dos principais arquitetos da Semana de Arte Moderna de 1922, ela se tornou parte do imaginário modernista, mesmo que sua história tenha sido marcada pela ausência de registros oficiais e pela aura de lenda. Como tantas mulheres artistas, sua obra foi apagada no decorrer da história e pouco se sabia sobre a relação trágica que manteve com Oswald e que causou a sua morte precoce.
Felizmente, graças a Lira Neto, escritor de “Mau Selvagem”, uma alentada biografia de Oswald de Andrade, ficamos sabendo em detalhes da influência que Maria de Lourdes Castro Pontes (1900–1919), também conhecida como Daisy ou pelo pseudônimo Miss Cyclone, exerceu sobre a intelectualidade paulista do pré-Modernismo. Me vali deste livro e de suas diversas fontes para escrever esta matéria, reproduzindo alguns trechos desta novela histórica.
Originária de uma família operária, Miss Cyclone não apenas marcou a vida de Oswald de Andrade, mas também deixou vestígios na literatura e na arte modernista, especialmente por sua postura transgressora e seu estilo de vida cosmopolita. O relacionamento entre ambos, permeado por escândalos e paixões, exemplifica o ambiente de ruptura com os padrões tradicionais que caracterizaria o modernismo brasileiro. Muitos estudiosos afirmam que a presença de Miss Cyclone foi fundamental para a consolidação de uma nova visão sobre a mulher e a liberdade de expressão na literatura da época.
Em 1917, aos 27 anos, Oswald de Andrade acabara de alugar um pequeno apartamento, de 42 metros quadrados, com sala, banheiro e dormitório, no terceiro andar de um prédio de quatro pisos, no número 67 (atual 452) da rua Líbero Badaró, em pleno centro de São Paulo. O lugar foi convertido em garçonnière, local para encontros amorosos. No apartamento, afora garotas, Oswald recebia parceiros de luta pela literatura. Entre os frequentadores mais assíduos estavam Guilherme de Almeida, Vicente Rao, Menotti Del Pichia e até Monteiro Lobato! A maioria dos amigos era oriunda da Faculdade de Direito, onde Oswald voltara a estudar, reabrindo a matrícula depois do abandono anterior a uma de suas prolongadas viagens à Europa.
O decano dessa confraria de bacharéis, Monteiro Lobato — aos 35 anos, casado, pai de quatro filhos, editorialista d’O Estado de S. Paulo e prestes a publicar o primeiro livro, Urupês —, era visitante bissexto. Acabara de vender a fazenda onde morava, em Buquira (atual município de Monteiro Lobato), e se mudara para a capital paulista. Mais assíduo e já com obra publicada, mas também recém-chegado do interior, era Menotti del Picchia, 25 anos, então autor de três volumes de poesia: “Poemas do vício e da virtude”, “Moisés” e “Juca Mulato”. Morava no Hotel Migliori, na Líbero Badaró, próximo à garçonnière. Oswald o procurara para dizer que Daisy gostara bastante do “Juca Mulato”.
“Oswald era um extrovertido despachado. Gordo, aloirado, olhos nos quais eu sempre via uma névoa de sonho. Tinha a faculdade quase mágica de fascinar qualquer pessoa logo no primeiro encontro”, diria Menotti.
Além da passagem pela Faculdade de Direito e do gosto pelas letras, logo surgiria nova convergência de interesses entre todos eles: a presença da única mulher do grupo, Daisy, apelidada por Oswald de Miss Cyclone em alusão ao título do filme que estivera em cartaz no final do ano anterior, “Miss Cyclone e os sete pecados mortais”. Em seu Diário confessional, Oswald de Andrade cita Cyclone como “uma normalista de dezessete anos por quem se apaixonou em 1917”. Diz-se que ao vê-la pela primeira vez, Oswald convidou a amá-lo, em tom de brincadeira. E ela lhe respondeu: “Sim, mas sem premeditação.”
Voltando ao filme, tratava-se de uma produção italiana dirigida por Augusto Genina e estrelada por uma das maiores divas do cinema mudo, a francesa Suzanne d’Armelle. Contava a história de uma mulher graciosa e independente, que era disputada por sete homens, cada um deles a representação de um dos pecados capitais. No final, a heroína acabava por se apaixonar por um escritor sensível e blasé, com quem se unia feliz.
O visual de Miss Cyclone, por sua vez, era inspirado na figura de Fluffy Ruffles, protagonista de uma história em quadrinhos publicada pelo New York Herald entre 1907 e 1909 e que se tornara um ícone da cultura popular nos Estados Unidos. A Broadway estrelara um musical sobre ela e o Herald chegara a promover um concurso para escolher a melhor representante, entre as leitoras, do estilo “it girl” de Fluffy. Características, aliás, que Oswald considerava se enquadrarem perfeitamente no perfil de Daisy: “Miss Cyclone é a ianque girl”. Os habitués da garçonnière concordavam, unânimes. Como no filme, todos babavam por ela, disputando-Ihe sorrisos e atenções. “Miss Cyclone existe e é bem bonita, excessivamente moça, esguia, sorrindo sempre e dizendo doidices”, derretia-se Oswald de Andrade, que completava guloso: “Daisy é o pirão deste menu”.
Para encarnar Miss Cyclone, Daisy tirava a boina, trocava a camisa branca e a saia azul-marinho de normalista por um roupão lilás, reservado para ela na última gaveta da cômoda do quarto. Quando a via assim, Oswald a comparava às gravuras dos livros do francês Pierre Louÿs, autor de clássicos do erotismo, como “Afrodite” e “La femme et le pantin”. Aos poucos, amiudaram-se as aparições de Daisy no pequeno apartamento da Líbero Badaró, e ampliaram-se as consequentes ausências dela à Escola Normal. Tanto assim que Miss Cyclone passou a ser o mote principal das páginas de uma espécie de diário coletivo que os convivas da garçonnière começaram a produzir, depois que Pedro de Almeida levara para lá um caderno grande, pautado, com duzentas páginas numeradas, do tipo que firmas comerciais usavam para o registro contábil dos fluxos de caixa.
Em vez de assinalar colunas de créditos e débitos financeiros, cada frequentador rabiscava ali o que bem entendia: anotações rápidas, versos, trocadilhos, aforismos, pastiches, desenhos, recados, charadas, ferroadas mútuas. Manchas de batom, grampos de cabelo, cartões de visita, pedaços de cartas, pequenos bilhetes, fotografias, charges, caricaturas e ilustrações recortadas de jornais e revistas — com legendas galhofeiras, recriadas à mão — completavam a miscelânea caótica, escrita em diferentes caligrafias, com lápis de cor ou canetas de tintas incomuns, verde, vermelha e roxa. O título do diário, “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo”, também foi ideia de Pedro. “Na fórmula breve e exótica deste está a promessa, que praza a Deus não seja mentirosa, do livro mais útil, mais prático e mais moderno deste século de grandes torturados” ele fez constar, com letra caprichada, na anotação da primeira página.
A exemplo do que os demais fariam ao longo das duas centenas de páginas do caderno que prometia variedade de “temperos de arte e paradoxos”, Pedro assinou o termo de abertura, datado de 30 de maio de 1918, com pseudônimo: “João de Barros”. Logo abaixo, vinha a “primeira receita” d’O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, “Xarope de dinamite”, elaborada por Oswald: “Nos casos de amor, à Dulcinéia prefira-se a Dulce nua”. Abusava-se dos trocadilhos como exercício lúdico de metalinguagem, criando-se novas palavras e subvertendo-se sentidos, para dar “cambalhotas na arena do espírito”, segundo a definição de Edmundo Amaral.
E aí começa a curta e brilhante carreira literária de Miss Cyclone como autora de cartas, postais e bilhetes poéticos, os quais foram incorporados ao diário coletivo modernista. Sua escrita expressava uma sensibilidade única, sendo reconhecida por sua contribuição artística em um ambiente predominantemente masculino. Nas anotações relativas a 3 de junho, Pedro exaltou a musa suprema da garçonnière, com letra sempre bem torneada: “A Cyclone, ela sozinha, basta para encher um ambiente intelectual de homens do quanto ele precisa do feminino, para sua alegria e para seu encanto. Ela é multiforme e variável, na sua interessante unidade de mulher moderna”. Três linhas abaixo, acrescentou: “A Cyclone é um desenho moderno do Sexo, feito nervosamente a carvão, de um interesse empolgante, capaz de satisfazer a todos os espíritos de homem, os mais diversos e exigentes”.
“É o pecado imortal!”, contrapôs Oswald, assinando-se como Miramar. “Se a Cyclone estivesse entre os ventos da tempestade clássica de Virgílio, Enéas não escapava.”
“A Cyclone é o grande vício desta vida…”, sintetizou a própria Daisy, em letras graúdas, vaidosa por ser o centro das atenções dos “gravatas”, como a eles se referia. Afinal, até mesmo Monteiro Lobato, casado e pai de família, parecia inebriado por ela. No dia em que esqueceu as provas de Urupês entre as almofadas verdes do sofá onde a normalista costumava se recostar, alguém anotou: “A Cyclone, muito pimpona, atribuiu à sua influência desnorteadora esse gesto do nosso homem do dia. Lobato, defenda-se ou confesse que tomou Cyclomol”.
Oswald de Andrade e Pedro de Almeida pareciam disputar, a sério, as preferências da “mecha fatal”, das “mãos reais de unhas perfeitas”, como Daisy por vezes era mencionada no diário. “A Cyclone é misteriosamente leal”, anotava Pedro, um tanto quanto frustrado pela evidente primazia de Oswald, dono da garçonnière. “E o Pedro é grosseiramente leal”, rebatia Daisy, enigmática. “Ambos são desleais”, retrucava Oswald de Andrade. Daisy parecia não ceder a nenhum dos vértices do polígono amoroso. Até ali, dera mostras de querer seguir livre, dona de si, acenando a um e outro, com evasivas, indiretas e promessas: “Não se encoste em mim, senão sai faísca”.
Em 7 de julho, Miss Cyclone surpreendeu a todos com inesperada revelação: “Arranjei um namorado japonês, que possui o lindo nome de Harrussam”. A notícia de que Daisy estaria namorando um suposto sobrinho do cônsul do Japão em São Paulo provocou uma insurreição no apartamento da Líbero Badaró. Pedro de Almeida preencheu uma página quase inteira do caderno para manifestar a revolta, em tom racista:
“Uma coisa, Cyclone, eu lhe peço, seja boa, atenda-me, nunca me mostre você, futuramente, nos dias do seu fausto, orientalmente consular, os rebentos amarelos e oleosos desse amor desastrado. Aspirar às carícias descoradas, anêmicas, inconvenientes e exóticas de um japonês é imperdoável.”
N’O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, o namorado japonês de Daisy, além de desenhado com aparência satânica, de olhos ameaçadores, bigode fino e orelhas pontiagudas, era alvo constante de piadas de gosto duvidoso: “A Cyclone escreveu que ela é a Esfinge do deserto do Brás; o japonês é a oitava praga daquele Egito”.
Uma biografia tão movimentada merece uma segunda matéria, que publicarei em quatro de junho próximo. Só advirto, que, a partir daqui foi só ladeira abaixo; acompanhe no próximo capítulo.
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