Há quem acredite em duendes, há quem acredite em promessas eleitorais e há quem acredite que coerência em política seja apenas um detalhe de acabamento, como rodapé de contrato que ninguém lê. O senador Sergio Moro parece ter escolhido as três opções ao mesmo tempo.
A notícia da semana é que o ex-juiz que condenou e meteu a boca em meio mundo por conluios políticos resolveu, com notável desenvoltura, ingressar justamente no partido que reúne personagens que até anteontem representavam tudo o que ele dizia combater. Não apenas ingressar. Abraçar, posar para fotos e subir no palanque como se fosse reencontro de família em churrasco de domingo.
Como observou Raquel Landim, em sua coluna no jornal O Estado de SP, “Sergio Moro e Deltan Dallagnol estão, novamente, no palanque de um Bolsonaro. Dessa vez, Flávio Bolsonaro. É um casamento de conveniência com um objetivo: derrotar o PT”.
Conveniência é uma palavra elegante. No vocabulário do cidadão comum, costuma-se usar outras menos publicáveis.
A jornalista é ainda mais ácida: “Os antigos expoentes da Operação Lava Jato querem reencontrar seus caminhos na política. Dallagnol, que saiu defenestrado, precisa voltar ao jogo. E Moro, que era a tão sonhada terceira via no pleito passado, agora teve seus planos adaptados pelo sistema que sonhava combater e deseja ser governador do Paraná”.
A verdade nua e crua é que os antigos cavaleiros da Lava Jato parecem hoje personagens de uma comédia de costumes políticos, combatentes do sistema que, ao primeiro sinal de vento contrário, decidiram instalar-se confortavelmente dentro dele, de preferência na ala VIP.
Dallagnol precisa voltar ao jogo depois de uma saída traumática. Moro precisa de um projeto viável depois que a sua tentativa de ser uma “terceira via” nacional evaporou mais rápido que promessa de campanha em pós-eleição.
E assim nasce um novo “projeto para o Paraná”, embalado em retórica de estadismo, mas com o perfume inconfundível de sobrevivência política.
Projeto para o Paraná, aliás, virou expressão multiuso. Serve para tudo. Alianças improváveis, conversões súbitas, amnésias seletivas e até para justificar aquilo que, até semana passada, era denunciado como inaceitável.
O mais curioso é o apoio do Novo a essa composição. O partido que construiu sua marca sobre coerência programática e rejeição à “velha política” resolveu, com uma elasticidade digna de ginasta olímpico, acomodar-se numa aliança que reúne justamente o que ele dizia não tolerar. Se coerência fosse moeda, teria sofrido uma hiperinflação.
Não se trata aqui de discutir ideologia e direita ou esquerda. Isso é apenas a embalagem. O conteúdo é outro: projetos pessoais travestidos de missão pública.
Porque quando alguém muda de discurso tão rapidamente, não é a realidade que se transformou, foi a conveniência.
E, no caso específico do senador, conveniência tem até cronologia partidária. Moro iniciou sua vida política filiando-se ao Podemos em 2021, como pré-candidato à Presidência. Quando a candidatura não decolou, migrou para o União Brasil, pelo qual acabou eleito senador em 2022. Agora, diante das dificuldades internas para viabilizar sua candidatura ao governo estadual, negocia a filiação ao PL, exatamente o partido do grupo político com o qual rompeu ao deixar o governo Bolsonaro.
Em pouco tempo, portanto, a trajetória partidária do ex-juiz percorreu um arco que vai do discurso de independência à acomodação em estruturas tradicionais, uma espécie de tour guiado pela política real.
O problema é que o eleitor paranaense já viu esse filme. Começa com a promessa de “fazer diferente”, passa pelo argumento de que “é preciso pragmatismo” e termina com a constatação de que o pragmatismo sempre funciona melhor para quem já está no topo da cadeia alimentar.
Moro foi eleito senador como símbolo de ruptura. Agora se apresenta como candidato a governador ancorado exatamente nas estruturas tradicionais que jurava combater. É como um ex-vegano inaugurando churrascaria e pedindo aplausos pela coerência gastronômica.
Se há um projeto para o Paraná, ele ainda não apareceu com clareza. O que se vê é um projeto para 2026, ou, mais precisamente, um projeto para não desaparecer.
Política, como a vida, permite mudanças de posição. O que não permite é a tentativa de reescrever o passado em tempo real, como se ninguém lembrasse do que foi dito ontem. A internet, infelizmente para os revisionistas de ocasião, tem memória melhor que marqueteiro de campanha.
No fim das contas, toda essa movimentação lembra a velha história do pote de ouro no fim do arco-íris. Promete-se riqueza, redenção e futuro luminoso. O eleitor caminha, caminha, caminha, e quando chega lá descobre que o pote já foi levado por alguém mais rápido.
Ou mais pragmático.
Talvez o Paraná mereça menos caçadores de arco-íris e mais gente disposta a explicar, sem metáforas, por que exatamente essa aliança improvável seria boa para o Estado e não apenas para as biografias envolvidas.
Até lá, resta ao cidadão observar o espetáculo com a prudência de quem já viu muitas eleições. Quando o discurso muda depressa demais, é sinal de que o projeto não é coletivo. É apenas pessoal com embalagem institucional.
E embalagem bonita, na política, costuma esconder produto vencido.
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