Na política existe um velho ditado não escrito. Quando um aliado escorrega numa casca de banana, o problema não é a queda. O problema é descobrir quem estava de braço dado com ele na hora do tombo.
É exatamente por isso que a pesquisa que o Instituto Veritá está realizando no Paraná ganhou um ingrediente extra de interesse. Não se trata apenas de medir intenções de voto. Trata-se de verificar se o eleitor percebeu, e como percebeu, a sucessão de notícias envolvendo o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e o banqueiro Daniel Vorcaro.
O assunto ganhou repercussão nacional depois que vieram a público informações sobre a relação entre ambos e sobre o pedido de recursos para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O caso produziu desgaste político, abriu espaço para críticas e, segundo análises publicadas pela imprensa nacional com base em levantamentos recentes, afetou a credibilidade de Flávio junto a parcelas do eleitorado.
A questão que interessa ao Paraná é outra. Até que ponto esse desgaste fica em Brasília?
Porque a política brasileira funciona como uma espécie de gripe institucional. Ninguém pega apenas o próprio vírus. Os aliados costumam compartilhar os sintomas. É aí que entra Sérgio Moro.
O senador construiu boa parte de sua trajetória pública apoiado em um discurso de combate à corrupção, defesa da ética e enfrentamento dos velhos hábitos da política nacional. Foi exatamente essa imagem que o transformou em um dos personagens mais conhecidos do país.
Quando alguém com esse histórico se aproxima de grupos políticos maiores, inevitavelmente passa a dividir também os bônus e os ônus dessas alianças.
Durante muito tempo isso funcionou a favor.
O bolsonarismo ofereceu estrutura, militância, visibilidade e uma parcela importante de eleitores identificados com pautas conservadoras. Era uma conta relativamente simples.
O problema é que toda parceria política possui cláusulas ocultas. Quando as notícias são positivas, todos aparecem na fotografia. Quando as notícias são negativas, a fotografia continua existindo. A diferença é que ninguém quer posar para ela.
É justamente por isso que a próxima pesquisa do Veritá, que deve ter seus resultados divulgados nos próximos dias, desperta curiosidade. Ela poderá oferecer uma primeira fotografia do humor do eleitor paranaense após a repercussão do caso.
Não porque uma pesquisa tenha capacidade de explicar tudo. Não tem. Mas porque ela costuma captar movimentos que os discursos políticos ainda tentam esconder.
As últimas pesquisas mostram Moro em queda. Ainda assim, se ele mantiver seus índices inalterados, o mercado político concluirá que o episódio ficou restrito a Brasília e não contaminou seu eleitorado.
No entanto, se ele continuar em viés de queda, surgirá uma segunda hipótese: a de que parte dos eleitores esteja começando a aplicar a Moro a mesma régua que tradicionalmente aplicava aos adversários.
E essa possibilidade merece atenção. Afinal, o eleitor de Moro não é um eleitor comum dentro do espectro conservador. Historicamente, trata-se de um público que costuma valorizar coerência, reputação e credibilidade institucional.
É um eleitor que frequentemente se mostra mais sensível a temas éticos do que a disputas ideológicas convencionais, e que dá muito valor às companhias do seu político preferido. E quando essas companhias se apresentam, digamos, indigestas, esse eleitorado procura outro candidato para chamar de seu.
Portanto, se esse segmento perceber contradições, a reação pode aparecer nas pesquisas. Ou pode não aparecer. E essa é justamente a graça, e a crueldade, da política.
Enquanto assessores produzem notas, aliados oferecem explicações, adversários distribuem ironias e comentaristas tentam prever o futuro, o eleitor permanece em silêncio.
Observando, anotando e julgando. Só esperando a próxima oportunidade para responder. No caso brasileiro, essa resposta normalmente vem em duas versões. A primeira aparece nas urnas. A segunda aparece antes, nas pesquisas. O Veritá está justamente procurando a segunda.
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