Aliados ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a quem já chamaram de ‘ladrão’ e ‘corrupto’, Sérgio Moro, senador, e Deltan Dalagnol, ex-procurador e deputado federal cassado, dão prova de que sua obra – do verbo obrar – é digna de distinção.
A velha política, a bandidagem, os acordos fechados na calada da noite, a hipocrisia varonil, o oportunismo, o enriquecimento ilícito, o proselitismo e as táticas de Tartufo, personagem de Molière que explora a credulidade alheia, ora em diante, fazem parte do cardápio oferecido aos eleitores por aqueles que já se autodenominaram o Eliot Ness incorruptível do Ministério Público Federal (Dalagnol) e o super-homem da Justiça e da Verdade (Sérgio Moro).
Enquanto o ex-juiz lidera as pesquisas para o governo do Paraná, com a tranquilidade de quem tem, no Senado, mais quatro anos de mandato, Dallagnol, que era dirigente partidário até outro dia, com soldo de R$ 15 mil, postula uma vaga na mesma câmara alta.
Dança com o diabo
Ambos, como se viu no festerê de filiação de Moro ao PL, não parecem nem um pouco desconfortáveis em dançar a valsa do diabo, ao lado de um dos próceres do centrão, do mensalão, do petrolão e de outros ‘ãos’ que estão por vir.
Ok, eles têm um nome a zerar. Mas isso não deveria lhes dar o direito de batizar sua chapa com o nome da Lava Jato, a operação que deu luz ao maior escândalo de corrupção da história do país.
Mesmo que eles tenham sido personagens de destaque nas investigações. Até o dia em que deixaram de ser.
Deltan: penduricalho de R$ 191 mil
Deltan Dalagnol fez carreira meteórica no Ministério Público Federal. Surfou na fama até 2021. Quando as ondas viraram marola, foi exonerado a pedido, levando na sacola R$ 191 mil em penduricalhos ou verbas indenizatórias, livres de imposto.
Ao jornal Folha de S. Paulo, Dalagnol afirmou, sem qualquer constrangimento moral, que o pagamento estava dentro da legalidade.
O mesmo não se pode dizer, no entanto, do reembolso que o então procurador recebia para viagens a locais onde já residia. O caso, até onde se sabe, ainda tramita no Tribunal de Contas da União. Com aquela morosidade célebre.
Moro: auxílio-moradia como complemento salarial
Já Sérgio Moro comprovou o uso diário de óleo de peroba ao justificar, ainda como juiz, em 2018, o recebimento de auxílio-moradia mesmo possuindo imóvel próprio em Curitiba, onde trabalhava.
“O auxílio-moradia, embora discutível, compensa a falta de reajuste dos vencimentos dos magistrados”, disse.
O teto salarial do funcionalismo público não bastou para Moro. Hoje, como homem público (o equivalente da mulher pública) ele dispara críticas aos penduricalhos, mas ele próprio foi beneficiário das verbas indenizatórias que sugaram bilhões dos cofres públicos e vão sugar ainda mais se a transição anunciada pelo STF vingar.
Carreira curta e grosseira
Só a dúbia moralidade, ou a falta dela, justificam as decisões de Dallagnol, que ainda tem no currículo aquele powerpoint bizarro, e de Sérgio Moro, cuja biografia é manchada por cenas de oportunismo e desfaçatez que, não só avançam, como parecem tomar conta de sua curta e grosseira carreira política.
Se a memória não me trai, Moro recebeu R$ 3,6 milhões por um ano de contrato com o escritório Alvarez & Marsal, que administrava a recuperação de empreiteiras condenadas pelo ex-juiz, a Odebrecht entre elas. Se a memória não me trai, Moro disse que não enriqueceu com os serviços prestados ao escritório. Então tá.
Em tempo
Nas redes sociais, a esquerda arrepiou-se com a aliança selada por Moro e Dallagnol com condenados e acusados na operação Lava Jato. De fato. Os bolsonaristas decidiram comparar. Lembraram que Lula fez um pacto com Paulo Maluf na campanha fracassada de Haddad à prefeitura de São Paulo. De fato. Perceba o caro leitor: o errado não compensa o errado. O imoral não compensa o imoral. A corrupção de um não pode justificar a corrupção de outro. Deveria ser elementar. Não é.
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