Há algo de quase comovente na política brasileira. A capacidade de certos personagens aparecerem exatamente quando a obra está pronta, a fita está esticada e a tesoura já foi esterilizada. É o espírito público em sua forma mais fotogênica. Desta vez, coube a Sérgio Moro protagonizar esse lamentável papel.
Antes mesmo da inauguração oficial da Ponte de Guaratuba, o senador desembarcou por lá com uma produção digna de campanha eleitoral. Enquadramento estudado, roteiro mastigado, trilha implícita e aquele texto cuidadosamente adaptado ao seu estilo de comunicação. Não era um registro, era uma peça de campanha, e das mais clássicas, recheada de marketing político com verniz institucional.
O vídeo, convenhamos, tem todas as digitais do marqueteiro. Não é conteúdo, é composição. Um exercício quase didático de como transformar uma obra alheia em ativo próprio. Mistura alhos com bugalhos com uma naturalidade impressionante. Cita feitos de antigos governadores em regiões distintas, em áreas completamente diferentes, como se estivesse montando um mosaico histórico que, por algum milagre narrativo, desemboca nele, Moro.
Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, talvez dissesse que “toda unanimidade é burra”, mas acrescentaria que certas construções argumentativas são mais ambiciosas pois querem ser unanimidade antes mesmo de fazer sentido.
O ponto é simples, e por isso mesmo incômodo. A ponte não tem relação com o senador. Nenhuma. Em três anos de mandato, não houve emenda, articulação, defesa pública consistente, mobilização institucional ou sequer presença nas batalhas mais duras do projeto. Quando o governo do Paraná enfrentava um verdadeiro contencioso, cerca de quarenta ações judiciais movidas por interesses econômicos contrariados, não se viu o ex-juiz, tão habituado aos autos, oferecer uma linha sequer em defesa da obra.
Silêncio estratégico, dizem alguns. Ausência conveniente, dirão outros.
Agora, com o concreto já lançado e a expectativa popular no auge, surge o vídeo. Um vídeo que fala muito, e diz pouco. Faltam substância e história real, mas sobram campanha e narrativa. É, no limite, aquilo que a legislação costuma olhar com alguma desconfiança: propaganda com cara de institucional, mas cheiro de eleitoral antecipada.
E aqui mora a ironia maior. O senador construiu sua trajetória denunciando a chamada “velha política”. Pois bem, dificilmente há prática mais antiga, e mais previsível, do que tentar colar a própria imagem em uma obra pronta. É o velho truque do carimbo tardio. Chegar no fim, assinar embaixo e torcer para que ninguém leia o processo inteiro.
Machado de Assis talvez resolvesse com elegância. “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Moro, ao contrário, parece disposto a transmitir a si mesmo o legado de uma obra que nunca foi sua.
E ainda há o detalhe quase folclórico. No esforço de construir uma narrativa ampla, o senador distribui elogios a figuras que outrora ocupavam o lado oposto de sua retórica, incluindo o ex-governador Roberto Requião, que em toda a carreira esteve alinhado a campos políticos que ele próprio combatia. A ponte, pelo visto, também serve para travessias ideológicas.
Mas o eleitor, especialmente o do litoral, não é personagem figurante nesse roteiro. É protagonista de uma história de quarenta anos de espera, de filas de balsa, de promessas repetidas e adiadas. E memória, ao contrário do que supõem certos estrategistas, não é um recurso tão escasso assim.
Como ensinava Abraham Lincoln, é possível enganar alguns por algum tempo. O problema é quando se subestima a experiência acumulada de quem viveu o problema na prática.
No fim, sobra uma constatação quase pedagógica. Política não é sobre quem aparece melhor no vídeo. É sobre quem aparece quando precisa. O resto, bem, o resto é edição.
E edição, como todo mundo sabe, corta exatamente aquilo que mais importa.
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