ANO IV

03/07/2026

HojePR

zisman

O barco e o compasso

03/07/2026
barco

Nunca imaginei que uma torcida de futebol pudesse oferecer uma das melhores metáforas da política brasileira. Quando vi pela primeira vez milhares de noruegueses transformando as arquibancadas em um gigantesco barco viking, imaginei que estivesse diante de mais uma dessas coreografias criadas para conquistar as redes sociais. Bastaram alguns minutos para perceber que havia ali uma lição muito mais interessante do que qualquer manual de liderança costuma oferecer.

Os torcedores se inclinam ao mesmo tempo, avançam remos invisíveis na mesma cadência e repetem um coro que parece mover uma embarcação inteira. A beleza da cena não está apenas no espetáculo. Está no sincronismo. Nenhum braço tenta acelerar para aparecer mais do que o outro, ninguém acredita que conseguirá atravessar o fiorde remando sozinho e todos parecem compreender que um barco não se move pela soma das forças individuais, mas pela capacidade de transformá-las em um único movimento.

Talvez seja justamente essa a razão de a Noruega ter deixado de ser apenas a seleção de Erling Haaland para se transformar em um time que transmite confiança antes mesmo de a bola rolar. Existe uma sintonia que salta aos olhos. O talento continua sendo indispensável, mas ele só produz encanto quando encontra um compasso comum.

Enquanto os vikings conquistavam o mundo com essa imagem, a política brasileira parecia oferecer o exercício exatamente oposto.

O projeto presidencial do entorno de Jair Bolsonaro atravessou os últimos dias como quem entra em um trecho de mar revolto sem conseguir combinar o ritmo da tripulação. As revelações envolvendo Daniel Vorcaro, o desconforto provocado pelo financiamento do filme Dark Horse, as versões que precisaram ser ajustadas ao longo da travessia e a crescente inquietação produzida dentro do próprio campo conservador passaram a transmitir uma sensação que nenhuma campanha deseja despertar: a de que alguns remadores deixaram de olhar para o horizonte e passaram a observar apenas o remo do companheiro.

Nem a tentativa de reorganizar o barco produziu o efeito esperado. A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher, somada aos ruídos que continuaram ecoando dentro do próprio campo conservador, reforçou a impressão de que o projeto presidencial ainda procura reencontrar o seu compasso. Em política, algumas ausências pesam mais do que muitos discursos, sobretudo quando dizem respeito a lideranças capazes de manter unidas correntes diferentes de um mesmo projeto. O problema, portanto, deixou de ser apenas uma divergência interna. Passou a alimentar a percepção de que o barco ainda busca restabelecer o ritmo da travessia.

As redes sociais fizeram o restante, como quase sempre acontece. Elas possuem um talento especial para ampliar desencontros, transformar dúvidas em certezas provisórias e converter pequenas diferenças de ritmo em tempestades de grandes proporções. Durante anos, esse ambiente funcionou como o grande oceano favorável ao bolsonarismo. Nos últimos dias, porém, parte das ondas passou a nascer dentro da própria embarcação, reforçando uma percepção que nenhuma campanha deseja transmitir: a de que os remadores continuam fortes, mas já não parecem ouvir o mesmo comando.

É curioso como futebol e política insistem em se encontrar. Nenhuma seleção perde porque um jogador deixa de correr durante noventa minutos, assim como nenhum projeto político começa a naufragar por causa de um episódio isolado. O desgaste costuma aparecer muito antes, quando cada integrante passa a interpretar um jogo diferente daquele que o companheiro acredita estar disputando e o comando deixa de produzir o mesmo movimento em toda a equipe. Afinal, barcos não naufragam porque o mar ficou revolto. Naufragam quando os remadores deixam de confiar que todos continuam ouvindo o mesmo comando. Essa talvez seja a diferença entre enfrentar uma tempestade e fabricá-la.

Domingo haverá Brasil e Noruega. Os vikings certamente voltarão a transformar as arquibancadas em um imenso drakkar ao som do ritual que conquistou a Copa e ajudou a transformar uma seleção disciplinada em uma das grandes histórias do torneio. Deste lado do Atlântico, porém, mora uma esperança que não nasceu dos fiordes nem dos manuais de navegação. Ela nasceu da velha capacidade brasileira de transformar talento em entendimento coletivo, de fazer a bola correr na mesma velocidade da confiança e de lembrar que a ginga nunca foi sinônimo de desorganização.

Se isso acontecer, o Brasil talvez ofereça ao mundo uma resposta diferente da remada viking. Não porque remar seja menos importante, mas porque existe um instante em que o futebol deixa de ser uma disputa de força e passa a ser um exercício de sintonia. Quando onze jogadores enxergam o mesmo jogo, a criatividade encontra disciplina, o improviso ganha direção e até os barcos mais organizados descobrem que também existem correntes impossíveis de controlar.

Rôô… bum…

Rôô… bum…

Rôô… bum… bum…

Rôô… bum… bum… bum…

RÔÔÔÔ!… BUM! BUM! BUM! BUM! BUM!…

Que os amigos noruegueses não levem a mal. Se no domingo o Brasil reencontrar o compasso que tantas vezes transformou talento individual em inteligência coletiva, talvez os vikings descubram que existe uma forma diferente de atravessar o mar. Ela não dispensa disciplina nem desafia o ritmo dos remos. Apenas acrescenta uma força que nenhum barco consegue fabricar sozinho. Ela nasce quando a confiança encontra o mesmo compasso. No futebol brasileiro, há muito tempo, ela ganhou outro nome: ginga.

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