O Brasil descobriu uma forma muito própria de tratar dinheiro público. Quando falta para o cidadão, é contingenciamento; quando falta para partido político, é planejamento eleitoral.
O famigerado fundo eleitoral está aí de novo. Sorridente, robusto e bem alimentado. Para as eleições de 2026, serão quase R$ 5 bilhões destinados aos partidos políticos. Dinheiro público. Dinheiro do contribuinte. Dinheiro que sai do mesmo país que ainda convive com hospital lotado, escola caindo aos pedaços, estrada esburacada, fila de exame, segurança pública em frangalhos e gente fazendo vaquinha para comprar remédio.
Mas, na democracia brasileira, parece que santinho, jingle, marqueteiro, bandeira, adesivo e carreata têm prioridade orçamentária.
O nome técnico é Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O nome popular é fundão. O nome sincero talvez fosse outro: mesada eleitoral.
E o mais impressionante não é apenas o tamanho da conta. O mais impressionante é que, mesmo diante de quase R$ 5 bilhões, ainda tem gente reclamando que é pouco.
É o caso de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL e, agora, amigo de fé, irmão camarada do senador Sergio Moro. O partido de Valdemar ficará com a maior fatia do bolo, cerca de R$ 881,6 milhões. Quase R$ 900 milhões. Dinheiro suficiente para causar tontura em qualquer brasileiro que ainda cometa a ingenuidade de trabalhar, pagar imposto e acreditar que o Estado tem alguma vergonha.
Pois Valdemar olhou para esse caminhão de dinheiro e concluiu que não dá.
Não dá para bancar todo mundo. Não dá para fazer todas as campanhas. Não dá para cumprir todos os acertos. Não dá para alimentar todas as bocas abertas em volta da mesa. Segundo ele, será preciso buscar mais R$ 300 milhões em doações de pessoas físicas para completar o caixa.
É uma cena bonita. Quase comovente. O partido recebe R$ 881,6 milhões de dinheiro público e ainda sai com o chapéu na mão.
Trocando em miúdos, Valdemar está dizendo o seguinte: o fundão é grande, mas a fila é maior e o apetite é insaciável.
E aí começa a parte mais divertida para quem observa a política sem precisar pedir benção a cacique partidário. Se não tem dinheiro para todo mundo dentro do PL, alguém vai ficar com menos do que ouviu que receberia. E na política brasileira existe uma regra não escrita, mas respeitadíssima. Promessa de campanha pode ser esquecida depois da eleição; promessa de dinheiro antes da eleição vira cláusula pétrea.
O problema de Valdemar não é apenas financeiro. É aritmético, psicológico e paroquial. A conta precisa fechar em Brasília, mas o chiado aparece nos estados. Cada deputado acha que merece mais. Cada candidato novo acredita que foi convidado para um projeto, não para passar fome eleitoral. Cada aliado ouviu uma promessa diferente e cada grupo regional fez sua própria matemática. E todo mundo sabe que, quando o dinheiro chega, a fidelidade ideológica costuma ser medida em parcelas.
No Paraná, essa conta interessa diretamente à turma de Sergio Moro.
Moro entrou no PL como quem chega a uma festa já em andamento e tenta descobrir onde fica a mesa principal. O problema é que, em partido grande, a mesa principal quase sempre já tem dono, senha, reserva e guardanapo marcado.
A chegada do ex-juiz reorganizou o tabuleiro paranaense, atraiu aliados, incomodou antigos ocupantes da casa e criou uma expectativa simples: se o projeto é grande, o financiamento precisa acompanhar.
Só que a fala de Valdemar acende aquela luz amarela no painel.
Se o PL nacional já avisa que quase R$ 900 milhões não bastam, o que vai sobrar para os acordos estaduais? Quem terá prioridade? Os atuais parlamentares? Os novatos? Os candidatos majoritários? As chapas proporcionais? Os aliados do Novo? Os recém-chegados? Os antigos donos do diretório? Os mais barulhentos? Os mais obedientes?
Valdemar já deu uma pista. Deputados federais que tentarão a reeleição devem receber tratamento privilegiado. O cálculo gira em torno de R$ 3,6 milhões para quem já tem mandato. No Paraná, isso interessa a nomes como Vermelho, deputado federal do PL. Para quem chega agora, a conversa deve ser outra. Talvez venha com cafezinho, tapinha nas costas e uma frase clássica da política nacional: “vamos ver mais para frente”.
O problema é que “mais para frente” está logo ali.
Faltam cerca de três meses para as eleições. E os próximos três meses prometem mais calculadora do que discurso. Deputados estaduais do PL e do Novo já fizeram circular cobrança de que cada um deve receber aquilo que foi prometido.
Ideologia? Bobagem, o que vale é o fluxo de caixa. Projeto de país, como Moro adora falar? Capaz, o que interessa é a planilha de gastos. Patriotismo? Ora, não me faça rir.
O fundão, no fundo, revela uma das maiores hipocrisias da política brasileira. O discurso público fala em missão, democracia, povo, valores, renovação e futuro. A conversa privada pergunta quanto vem, quando vem e para quem vem.
E nisso Valdemar talvez tenha prestado um serviço involuntário ao país. Ao reclamar que R$ 881,6 milhões não bastam, ele tirou a fantasia da festa. Mostrou que a eleição brasileira virou um condomínio caríssimo, onde o contribuinte paga a taxa, os partidos escolhem a decoração e o eleitor ainda é convidado a aplaudir a entrada dos síndicos.
Quase R$ 5 bilhões para financiar campanhas em um país desigual não é apenas um escândalo moral. É um retrato nítido, bem iluminado e sem filtro de uma democracia que custa caro demais para entregar tão pouco.
E quando quase R$ 900 milhões não bastam para um partido, talvez o problema não esteja no tamanho do fundo. Talvez esteja no tamanho da fome.
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