ANO IV

22/07/2026

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O direito de rir. Dos outros e de si mesmo

22/07/2026
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Não é Donald Trump. O mundo ficou chato. Moralista ao cubo, avesso a qualquer humor — ainda mais àquele travestido de insinuação racial ou sexual, que ousa recusar a cartilha do politicamente correto e tudo o mais que pareça contrário a uma boa e sonora gargalhada. E rir é filosófico, não?

Lembro de Apu, o indiano de Os Simpsons, cuja imagem estereotipada provocou protestos tardios. Um personagem pai de óctuplos, de linguajar estranho — ainda que fale inglês — e de hábitos exóticos. Matt Groening, o criador da série — que concebeu Homer Simpson supondo que seria um débil mental disposto a apertar o botão vermelho do apocalipse —, ficou inconsolável. Súbito, o humor tornou-se intolerável. E humor não é só aquilo que enxergamos nos outros, mas também, e principalmente, em nós mesmos.

Nas redes sociais, o post de um professor de direito foi excluído porque ele ousou compartilhar um vídeo educacional da Noruega — a terra de Haaland — que explica a puberdade a estudantes. Em oito episódios muito bem-humorados, eles são apresentados aos cravos, às espinhas, aos hormônios e aos pelos pubianos. Sem qualquer pudor. É a anatomia humana. Por que os seios crescem nas meninas? Ora, porque um dia elas precisarão amamentar. Homer diria: “D’oh!”

Mas as redes sociais são implacáveis quanto ao sexo, à nudez e ao que consideram pornográfico. Em ordem inversamente proporcional às fake news e aos mexericos da Candinha, venham de onde vierem.

Não se trata mais de defender apenas a liberdade de expressão, esta diuturnamente solapada, mas também o direito ao humor, o direito de rir, a livre expressão e o direito de pensar.

Não creio que reduzir a participação de Apu tenha sido uma vitória dos virtuosos digitais. Ao fim e ao cabo, eles só querem atirar à fogueira tudo aquilo que consideram infringir danos à nova ordem mundial. E todo mundo sabe onde isso vai dar.

É o caso também da genitália desnuda que, a essa altura do campeonato, já deveria parecer tal como se apresenta. Ora, um charuto às vezes é somente um charuto. Do ponto de vista do erotismo que habita a cabeça do ser humano, até uma árvore nua ou frondosa pode parecer sedutora e convidativa. Que a malícia esteja no observador, é natural, mas isso não é motivo para criar um index daquilo que é permitido e do que não é. Pensar o contrário é pensar como o inquisidor. E ele está à direita e à esquerda, acima e abaixo, nas redes virtuais e reais.

Não é Donald Trump.

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