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07/02/2023



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O mito do Brasil de maioria negra

 O mito do Brasil de maioria negra

Tornou frequente depararmos com a alegação segundo a qual o Brasil é um país de maioria negra. Recorrentemente é citado o percentual de 56% de negros na população brasileira. Tal alegação é, em parte, baseada na metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no estabelecimento da cor/raça/origem dos brasileiros. Há décadas o IBGE classifica os brasileiros em apenas cinco categorias de tipos fechados. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) os brasileiros são: pardos (46,8%), brancos (42,7%), pretos (9,4%), amarelos ou indígenas (1,1%). Contudo, tal classificação se torna ainda mais restritiva e problemática com a inclusão de todos os pardos na categoria de afrodescendentes. Através de uma operação falaciosa inspirada pelo imperialismo cultural estrangeiro, a soma de todos negros e pardos – independentemente de estes terem, por exemplo, apenas ancestralidade indígena – faz do Brasil um país de “maioria” negra. Cabe rever tal metodologia no interesse da ciência e da democracia.

 

Há tempos se constata a inadequação da metodologia empregada pelo IBGE no estabelecimento da cor dos brasileiros. Embora tenha o atrativo da simplicidade, com a correspondente redução dos custos dos censos, sua incapacidade de captar a diversidade que caracteriza a população brasileira também é notória. Tal incapacidade se torna ainda mais evidente face às recentes descobertas do Projeto DNA do Brasil da Universidade de São Paulo. Em estudo publicado em 2020 foram divulgados os primeiros resultados da amostra de genomas fornecidos por voluntários. Neles se constata dois fatos que o senso comum há tempos já havia percebido: 1) que o Brasil é o país mais geneticamente diverso do mundo e 2) sua população é majoritariamente branca.

 

No que se refere à diversidade a pesquisa constatou que as combinações genéticas encontradas no Brasil são equivalentes à soma de outras 54 populações de diferentes países já pesquisados. Um percentual significativo das amostras revela combinações genéticas que só são encontradas aqui no Brasil. Por exemplo, em que outro país do mundo seria possível encontrar alguém como Madalena Santos, mãe do famoso cantor Carlinhos Brown, a qual aparenta ser totalmente de origem africana, mas que na realidade tem um DNA que inclui 8,7% de herança genética polonesa?

 

No que se refere à maioria de membros com genética europeia predominante a pesquisa também é ilustrativa. No que diz respeito à herança paterna ela engloba nada menos de 75% dos brasileiros, identificados como descendentes de pais de origem européia. Já a herança materna revela um equilíbrio quase perfeito entre as três grandes raças que formaram o Brasil em sua origem, tal qual desde 1936 defendeu Gilberto Freyre. Entre os pesquisados 36% dos indivíduos tinham herança materna de origem africana; 34% de indígenas; e os demais eram de origem europeia ou asiática.

 

A tipologia restritiva do IBGE é, pois, cientificamente insustentável. Mas há algo ainda pior. Ela é também uma afronta ao princípio do direito do indivíduo à própria identidade bem como ao método que pode garanti-lo, que é a autodeclaração da origem com resposta aberta. É um princípio basilar da democracia segundo o qual cabe apenas ao indivíduo estabelecer como entende e descreve suas origens. Ao impor um número extremamente limitado de opções o IBGE coage os indivíduos a renunciar a sua própria identidade, obrigando ao enquadramento forçado em somente uma de cinco possibilidades fechadas – ou apenas quatro, dada a manipulação ideológica importada que assimila todos os pardos à categoria de negros. Isso ocorre mesmo no caso de caiçaras, caboclos e sertanejos de regiões onde as populações de origem africana nunca foram numericamente significativas, como é o caso da Amazônia e boa parte do litoral.

 

A saída para tal impasse requer o abandono da metodologia baseada nas cinco alternativas fechadas e a adoção da autodeclaração aberta. Isso implica que as pesquisas sobre cor/raça/origem dos brasileiros devem abandonar a imposição de um número limitado de alternativas e admitir qualquer resposta, sem a imposição de condicionantes ou indução. É o indivíduo, apenas ele, que deve afirmar como se define e entende sua origem e identidade. É digno de nota que nas poucas vezes em que o IBGE adotou tal prática à título experimental surgiram mais de uma centena de tipos de respostas sobre cores/raças/origens entre os pesquisados.

 

Não se pode captar mais de uma centena de possibilidades concretas a partir de apenas umas poucas alternativas impostas aos pesquisados. Somente a autodeclaração com resposta aberta permitirá ao Brasil conhecer a si mesmo, revelando sua diversidade genética e cultural incomparável e erradicando para sempre o mito importado do país de maioria negra.


Dennison de Oliveira é professor de História na UFPR e autor com Cesar Campiani Maximiano de “Raça e forças armadas: o caso da Campanha da Itália (1944/45)” (Estudos de História, 2001)

4 Comentários

  • Não li nesse artigo nenhum argumento realmente relevante para justificar a adoção de um critério aberto, como proposto pelo autor. Ao contrário, no próprio artigo é apresentado um argumento muito forte para não se adotar o critério aberto: apareceram mais de cem definições de cores. Para quem trabalha com estatística nos seus estudos nas diversas ciências, isto seria o caos. Imagine o Econometrista! Ficaria louco. E a comparabilidade entre censos? Seria perdida. Só podia estar no Estadão…

  • Parabéns pelo texto alertando essa falácia de somar mestiços como sendo unicamente afro descendente, sendo assim eu por exemplo tambem sou indígena e eurodescendente e nunca me indentifiquei como branca ou indigena e sim parda, porque sou uma mistura dessas etnias e não somente uma delas, usar o mesmo critério americano do tempo da segregação racista do pingo de sangue preto te fazia preto, remete tambem ao ideologia nazistas de raça pura, onde se negaria qualquer forma de miscigenação. O Brasil tem uma historia completamente diferente da americana e querer inplantar isso em um país mestiço e plural como o Brasil é uma afronta a nossa identidade e etnia brasileira, verdadeiro etnocídio.

  • Olá,

    Interessante esse artigo. Tenho um livro, “Pardos: A visão das pessoas pardas pelo Estado brasileiro”, que aborda sobre as questões relacionadas à população parda no Brasil. Também abordo essa questão de, apesar dos pardos e os negros constituírem dois grupos raciais diferentes, eles são classificados como “população negra” pela legislação vigente no Brasil, o que não leva em consideração ao fato dos pardos possuírem múltiplas ascendências, além da africana, e, também, da existência de pardos de ascendência indígena e europeia. A editora é a Appris, que fica no próprio estado do Paraná: https://editoraappris.com.br/produto/5821-pardos-a-viso-das-pessoas-pardas-pelo-estado-brasileiro

  • Texto mais do q necessário! Vale lembrar q a mentira de q “os pardos compõem a população negra” está amparada em Lei, o q torna essa violência cometida contra os auto-declarados pardos algo ainda mais grave. O Estado permite q os dados dos pardos sejam desviados para a suposta “maioria negra”, mas a todo momento pessoas auto-declaradas pardas estão sendo excluídas de cotas em vestibular e concursos públicos. As “comissões de heteroidentificação” (tribunais raciais; compostos, em grande parte das vezes, por estudantes militantes) analisam cabelo, nariz, boca, cor, etc e dizem se aquele pardo pode ou não ser incluído na categoria “negra”. Mas na hora da divulgação dos dados gerais, aí não há “análise”, o q importa é q a maioria da população brasileira, os pardos, sejam usados para inflar (falsamente) as estatísticas de “população negra”… E tudo isso ocorre pq os pardos não têm militância. Esse roubo dos nossos dados ocorreu por pressão da militância negra no Estado, desde os anos 70, por coalizão entre essa militância e a elite intelectual (“99%” formada por brancos) com consciência culpada pelas boas condições sociais em q vivem em comparação ao povão, q vive na sarjeta. Eu faria apenas uma ressalva ao texto: não existe abordagem estatística estatal q dê conta da variação de categoria no nível individual. É preciso q se tenha, no mínimo, ao lado de perguntas abertas, tbm opções fechadas de categoria. Espalhou-se o mito da confusão de categorização em nossa população pelo fato de pesquisas terem identificado mais de 100 categorias indicadas. O q esse mito não revela é q a maioria das pessoas q não responderam branca, preta ou amarela responderam morena (ou parda). Ou seja, as q responderam coisas como jambo, chocolate, cor de burro qnd foge, etc, era uma minoria. O termo moreno tem sido aquele q popularmente a maioria dos mestiços fenotípicos tem usado para si, desde a segunda metade do século XX, para definir sua exclusão de branco, negro, indígena ou oriental, ou seja, para definir sua predominância mestiça. Mas toda a pressão foi feita para se passar a imagem de q vivíamos num “caos de categorização racial”, o q não é verdade. Manter a categoria parda como algo autônomo, como ocorre há séculos em nosso país, é a solução contra o simulacro dos “pardos negros” q nosso Estado adotou desde, principalmente, 2010. Nossa história registra irmandades religiosas pardas, milícias pardas, o termo está registrado há séculos como categoria identitária dos mestiços. Atualmente, entretanto, nós, pardos, somos vítimas de um simulacro q diz q “mestiço não existe”, “pardo é papel”, “mulato vem de mula”, “mestiçagem veio do esturpo”, “mestiçagem é genocídio dos negros” e outras sandices mais, todas com foco em roubar as estatísticas dos pardos para o grupo q a militância q mais se organizou DIZ q representa (e eu tenho lá minhas dúvidas disso…). E os donos do poder deram os pardos de presente a essa militância, para acalmar os ânimos deles… Q o povo mestiço reaja contra tudo isso e voltemos a ter o nosso lugar! Obrigado pelo texto!

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