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O recado de Borges: se vier do PT, Curitiba que se dane

18/03/2026
éder borges

Confesso que ando desatualizado. Sempre acreditei que vereador fosse eleito para defender os interesses da cidade. Ingenuidade minha. Descobri agora que a função, para alguns, é defender a própria biografia ideológica, ainda que isso custe à população, à cidade e ao bom senso uma pequena hecatombe administrativa.

O vereador de Curitiba Éder Borges resolveu prestar um serviço didático à democracia ao declarar, sem rodeios: “Eu sou contra o PT”. Normal. O nobre vereador tem todo o direito de ser contra qualquer partido. A clareza é comovente. Nada de ambiguidades, nada de sutilezas, nada de pensamento complexo. É uma posição quase geométrica, reta, dura e, sobretudo, confortável.

O que me incomoda é o fato do vereador votar contra qualquer projeto protocolado por um parlamentar desse partido, independente se ele beneficia o curitibano. Ou sumir do plenário para não votar. Isso também pode hoje em dia.

Imagino a cena. Chega um projeto que amplia creches, melhora o transporte, constrói unidades de saúde, reduz impostos ou salva um filhote de capivara preso numa boca de lobo. Mas, veja só, foi apresentado por um vereador do PT.

Nesse caso, a resposta é simples: dane-se a creche, o ônibus, o posto, o imposto e a capivara. O importante é preservar a pureza doutrinária, como um monge medieval protegendo pergaminhos enquanto o vilarejo pega fogo.

Afinal, legislar é fácil quando se decide previamente não legislar.

O episódio ganhou contornos ainda mais edificantes na terça-feira (17), quando alguns vereadores protagonizaram um espetáculo cívico digno de teatro experimental.

Abandonaram o plenário para derrubar o quórum e impedir a votação que reconheceria a utilidade pública de um terreiro de umbanda. Nada é mais gritante com a premissa “compromisso com a população” como sair do trabalho para não trabalhar.

É o parlamentarismo do desaparecimento estratégico. Não se discute, não se vota, não se enfrenta. Evapora-se. Uma técnica sofisticada, inspirada talvez nos polvos ou nos adolescentes quando a mãe pergunta quem comeu o último pedaço de bolo.

Não entendo, porém, porque o vereador Eder Borges não ficou na sessão e votou contra a utilidade pública. Seria épico. Imagine a cena. Com aquela expressão de triunfo Borges gritaria, ao estilo Caco Antibes, “eu tenho horror ao PT”, e afundaria o dedo no botão do não.

Quanta bobagem, mas vamos em frente. O curioso é que ninguém elege vereador para travar guerras ideológicas abstratas. O eleitor quer asfalto sem buraco, posto de saúde aberto, escola funcionando, cidade respirando. Quer alguém que diga “isso ajuda Curitiba” e não “isso ajuda meu adversário”.

Mas há quem entenda a política como um campeonato de torcida organizada, em que o placar vale mais que o jogo. Se o gol for do time errado, melhor furar a bola.

Nesse raciocínio, a cidade vira refém de um infantilismo institucionalizado. Projetos deixam de ser bons ou ruins e passam a ser “nossos” ou “deles”. É a política reduzida ao nível de recreio escolar, só que com orçamento bilionário e impacto real na vida das pessoas.

O mais fascinante é a sinceridade. Ao dizer que não vota em nada vindo do PT, o vereador elimina a necessidade de análise, debate, audiências públicas e, por que não, neurônios. A decisão já vem pronta, como miojo ideológico: basta adicionar água quente e ressentimento.

Talvez fosse honesto incluir isso no material de campanha.

“Vote em mim. Prometo ignorar metade das propostas da cidade por motivos partidários.”

Seria transparente, ao menos.

Curitiba, coitada, continua acreditando que seus representantes estão lá para resolver problemas concretos. Boa parte está, sejamos corretos. Enquanto isso, alguns preferem resolver apenas a própria dissonância cognitiva. A cidade pode esperar. A ideologia não.

No fundo, é uma visão profundamente filosófica da política. Se o projeto não reforça minha identidade, ele não existe. Uma espécie de solipsismo legislativo. Não sabe o que significa essa palavra? Não vou explicar, recorra ao velho dicionário, instrumento abandonado nos dias atuais. Enfim, Descartes atualizaria para “Penso como eu penso, logo veto”.

Resta saber se o contribuinte concorda em financiar esse experimento metafísico.

Porque, no fim das contas, a pergunta não é se o vereador é contra o PT, o PSD, o PL ou a conjunção astral de Mercúrio retrógrado. A pergunta é se ele é a favor de Curitiba, mesmo quando Curitiba não cabe dentro da própria bolha.

Mas isso talvez seja exigir demais. Afinal, trabalhar pela cidade inteira gera muito mais esforço do que apenas escolher inimigos.

E esforço, como se sabe, não costuma ser uma pauta consensual.

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