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29/01/2023



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Os fertilizantes, a Rússia e o Agro Brasileiro

 Os fertilizantes, a Rússia e o Agro Brasileiro

Por Marcos Traad –

Tem sido assim: vivemos em ondas de incertezas que nos cercam de uma hora para outra. Tais ocorrências, nos dão a certeza de que não temos tido no país “a capacidade de planejar o futuro em bases sólidas e desvinculadas de rótulos de governos que se sucedem”.

 

Mais um caso típico é a relação de dependência da nossa agricultura com os fertilizantes. Importamos 85% daquilo que demandamos para nossa produção agrícola anual, sendo que dessa demanda, cerca de 23% são provenientes da Rússia.

 

Pronto! Situação de emergência no Leste Europeu e o impacto já é grande entre nós. Corram todos atrás de alternativas para amenizar o prejuízo previsível, atrás da fórmula que não existe. Como evitar o caos, sabendo que novos mercados fornecedores não conseguem nos atender de imediato? Como um país onde 26% do PIB provém do agronegócio, e vem crescendo há bastante tempo, se mantém em tamanha relação de dependência externa de um insumo básico para produzir alimentos?

 

Diante dessas questões, nos encontramos de fato, mais uma vez, numa encruzilhada. Dados e informações de safras anteriores indicam que, mesmo com uma forte tendência de crescimento anual da nossa produção agrícola, deixamos de lado a busca pela produção nacional de fertilizantes. É o que afirma o Presidente da Embrapa, Celso Moretti, em recente entrevista à Revista Exame: “O Brasil, nos últimos 40 anos, ficou sem uma política estratégica para o setor de fertilizantes e de insumos agrícolas em geral… A cadeia de fertilizantes encolheu 33% nos últimos 20 anos, enquanto a demanda explodiu 400% nesse período. Isso fez com que a nossa dependência de importações saísse de 20% há 20 anos para os atuais mais de 80%”.

 

Este é mais um fato grave que caracteriza a inércia histórica do governo central na definição estratégica do que é importante para o país a longo prazo. De repente, todos na famigerada correria, com a exposição do mercado interno em situação de risco, gerando os mais absurdos comentários sobre de quem é a culpa.

 

Independente de culpados, uma pergunta nos vem à tona: se temos a atividade agrícola como preponderante para o PIB e para a própria balança comercial, importar fertilizantes é mais barato do que buscar opções de produção interna? Sim, pois é isso que parece ter norteado a decisão tomada anos atrás, que poderia ter sido pensada com visão de futuro e não foi.

 

Os elementos químicos mais demandados como fator de produção da nossa agricultura são o nitrogênio (N), o fósforo (P) e o potássio (K), e fazem parte de fertilizantes e formulações NPK usadas na lavoura. Sobre estes reside o maior “problema” das importações. A nossa produção de N, através da Petrobras, não se modernizou e veio sendo reduzida, enquanto que a do P e K nunca foi expressiva no Brasil por diversos motivos. Por exemplo, no caso do K, sua rocha de origem e a grande profundidade com que é encontrada aqui no Brasil, dificulta e encarece a sua extração em relação ao que é feito em outros países tais como a Rússia e o Canadá, , o que, com certeza, gera impacto no custo de produção. Neste caso, deveríamos ter fomentado investimentos em pesquisa e tecnologia, um caminho óbvio para minimizar o problema. Pelo menos, teríamos custos calculados e seríamos os responsáveis para gerar mecanismos compensatórios para mantermos a nossa competitividade no mercado.

 

Agora, está em curso uma proposta de um Plano Nacional de Fertilizantes, para que, ao longo de 30 anos, as importações sejam reduzidas à 60%. Antes tarde do que nunca diz o ditado. Contudo, há um problema de curto prazo para ser solucionado. O afogadilho de sempre como sempre gerando problemas ao setor produtivo. Mas, será que no Brasil tudo depende de governo? Por certo não. No entanto, políticas de longo prazo, em assuntos onde o poder regulatório e normativo dos governos é imperativo, devem ser tratados como questões de Estado e não são.

 

Lição de casa mal feita resulta no que temos presenciado em vários segmentos nos quais o país poderia despontar e ficamos à mercê do humor de quem governa. O caminho do improviso tem nos trazido enormes problemas e é necessário que consigamos ter instituições fortes, pensando no desenvolvimento científico e tecnológico, numa associação estreita com todos os segmentos da iniciativa privada. Temos que nos desvincular da ideia de que o poder público é um fim em si mesmo. A missão do Estado é a de servir aos cidadãos que custeiam a existência da máquina pública. O caso da dependência da agricultura brasileira aos fertilizantes importados mais uma vez evidencia esta máxima.
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MARCOS TRAAD é graduado em Zootecnia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Mestre e Doutor pela Universidade Federal do Paraná. Foi Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná e Professor Titular da PUCPR.

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