ANO IV

26/06/2026

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Os ladrilhos das estrelas

26/06/2026
ladrilhos

Nos anos 1960, numa pequena cidade do interior, havia uma fábrica de ladrilhos hidráulicos que, para os adultos, era apenas um local de trabalho. Para um menino curioso, porém, aquele galpão era uma espécie de observatório do universo.

Ele gostava de permanecer em silêncio, encostado junto à porta, observando o ritual diário dos operários. As mãos experientes, protegidas por luvas gastas pelo cimento, movimentavam-se com a precisão de relojoeiros. Primeiro vinham os moldes metálicos, divididos em delicados compartimentos geométricos. Depois surgiam as tintas coloridas, despejadas cuidadosamente em cada detalhe do desenho. Vermelhos, azuis, verdes, amarelos e ocres ocupavam seus lugares como se obedecessem a uma misteriosa ordem cósmica.

O menino acompanhava cada etapa fascinado.

Quando os espaços dos moldes estavam preenchidos, uma camada de cimento era adicionada sobre as cores. Em seguida, o conjunto era levado à grande prensa manual. O operador girava uma longa haste. A rotação fazia avançar um pino robusto que descia lentamente, comprimindo o molde com força e paciência. Não havia pressa. Cada ladrilho nascia individualmente, como se possuísse uma identidade própria.

Aos olhos infantis, aquilo parecia magia.

Do encontro entre o pó, a água, os pigmentos e a pressão surgiam desenhos perfeitos, capazes de atravessar décadas. Terminada a prensagem, os ladrilhos eram retirados com cuidado e mergulhados em grandes reservatórios cheios de água. Ali permaneciam por três ou quatro dias, em silêncio, cumprindo o processo de cura.

O menino gostava daquela palavra.

Cura.

Parecia algo mais profundo do que endurecer cimento. Era como se as peças precisassem de um tempo para compreender quem eram antes de seguir seu destino.

Depois vinham as grades de secagem. Alinhados lado a lado, os ladrilhos pareciam soldados coloridos aguardando embarque para novas aventuras. Logo seriam assentados em casas, varandas, igrejas, praças e corredores. Tornar-se-iam parte da vida das pessoas sem jamais chamar atenção para si mesmos.

Foi observando aquela rotina que a imaginação do menino começou a viajar para muito além da fábrica.

À noite, quando olhava o céu do interior, livre das luzes das grandes cidades, via a Via Láctea atravessando a escuridão como um imenso rio de estrelas. Então lhe ocorria um pensamento estranho e maravilhoso.

E se os seres humanos fossem parecidos com aqueles ladrilhos?

Os cientistas dizem que os elementos que formam nossos corpos nasceram no interior das estrelas. O cálcio dos ossos, o ferro do sangue, o carbono dos tecidos — tudo foi forjado em antigas explosões cósmicas, muito antes de existirem planetas, mares ou árvores.

Talvez, pensava ele, cada pessoa também seja um molde preenchido por cores diferentes.

Uns recebem mais coragem. Outros, mais sensibilidade. Alguns carregam doses generosas de humor. Outros exibem traços de persistência, ternura ou sabedoria. Depois, a vida acrescenta sua camada de experiências e nos leva à sua imensa prensa invisível.

As alegrias comprimem.

As dificuldades comprimem.

O amor comprime.

O tempo comprime.

E é justamente essa pressão que revela o desenho que carregamos por dentro.

Como os ladrilhos da fábrica, também passamos por nossos reservatórios de cura. Há períodos em que precisamos permanecer quietos, amadurecendo, aprendendo e fortalecendo nossa estrutura. Nem sempre entendemos o motivo dessas pausas. Somente depois percebemos que eram necessárias.

Por fim, seguimos para nosso lugar no grande pavimento da existência.

Nenhum ladrilho sustenta sozinho uma casa inteira. Nenhuma estrela ilumina sozinha uma galáxia. Nenhuma pessoa constrói sozinha o mundo.

Somos peças diferentes compondo um desenho maior.

Décadas depois, aquele menino já adulto ainda guarda na memória o som metálico dos moldes, o ranger da prensa manual e o brilho das tintas coloridas. A pequena fábrica talvez tenha desaparecido. Muitos dos antigos operários já partiram. Entretanto, a lição silenciosa daqueles ladrilhos permanece viva.

Somos, afinal, matéria das estrelas.

Fomos moldados pelo tempo, coloridos pelas experiências, prensados pelos desafios e curados pela própria vida.

E, como os antigos ladrilhos hidráulicos, seguimos deixando nossos desenhos espalhados pelos caminhos do mundo.

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