A política brasileira produziu um tipo curioso de personagem público. O vereador que acredita que fazer graça nas redes sociais substitui estudar minimamente os assuntos sobre os quais fala. Em Curitiba, um dos expoentes dessa escola do improviso ruidoso é o vereador Perdeu Piá, que resolveu transformar os hotéis sociais da Prefeitura em alvo de mais uma de suas encenações digitais.
Não vale sequer a pena entrar em detalhes sobre o conteúdo do vídeo publicado pelo parlamentar. Bastaria dizer que ele flerta perigosamente com a desinformação, mistura documentos fora de contexto, faz ilações apressadas e tenta transformar uma política pública de assistência social em espetáculo para engajamento barato. Tudo embalado naquele estilo já conhecido: fala alta, indignação performática e pouco compromisso com a realidade.
Para entender a gravidade da irresponsabilidade, é preciso explicar o que são os chamados hotéis sociais ou, como corretamente denomina a Prefeitura de Curitiba, a Rede de Acolhimento Para Pernoite.
Trata-se de uma estrutura utilizada pelo município para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade social, especialmente durante períodos de frio intenso ou em fases de reorganização da vida dessas pessoas.
Não é “hotel” no sentido caricatural que os oportunistas de plantão tentam vender nas redes sociais. É assistência social. É política pública. É obrigação legal do município.
E quem precisou fazer o trabalho que deveria ser desnecessário, de explicar o óbvio, foi o presidente da Fundação de Ação Social (FAS), Renan Rodrigues.
Curiosamente, Renan resolveu responder exatamente no terreno preferido do vereador, as redes sociais. Mas, ao contrário do barulho vazio, levou informação, dados e contexto.
Sem sequer citar nominalmente o vereador, Renan Rodrigues desmontou, ponto por ponto, a narrativa espalhada no vídeo. “Está circulando nas redes sociais um vídeo de um vereador de Curitiba sobre o hotel social, mas ele está cheio de desinformação e descontextualização”, disse ele.
Renan explicou que o documento exibido pelo parlamentar era um termo de referência de 2021, elaborado em plena pandemia, num contexto emergencial em que municípios do país inteiro precisaram estruturar rapidamente formas de acolhimento. E destacou algo fundamental, aquele contrato já não existe mais.
“No vídeo, o vereador apresenta como atual um termo de referência de 2021 da época da pandemia, quando os municípios precisavam criar estruturas emergenciais de acolhimento com a maior brevidade possível. Só que esse contrato já foi encerrado há bastante tempo. Hoje, a FAS não tem contrato com a empresa terceirizada que prestava o serviço”, salienta.
O dirigente da FAS foi cirúrgico ao lembrar que o modelo atual é outro, disponível no Portal da Transparência para qualquer cidadão, ou vereador, minimamente interessado em compreender os fatos antes de sair gravando vídeos indignados.
Também esclareceu que a atual rede de acolhimento funciona conforme a ocupação das vagas, ou seja, o custo varia de acordo com a demanda e que esse formato é significativamente mais barato do que construir e manter uma estrutura própria permanente.
Mas talvez o trecho mais importante da resposta tenha sido justamente aquele em que Renan recoloca a discussão no plano da humanidade e da legalidade.
“O acolhimento de pessoas em vulnerabilidade é obrigação legal do município”, afirmou. “Não importa a opinião pessoal de cada um sobre esse tema. De acordo com a lei e com as decisões do Supremo Tribunal Federal, tem que ser assim”, completou. Ou seja, a cidade tem que acolher essas pessoas, independentemente da opinião pessoal, do preconceito ou do cálculo eleitoral de quem tenta transformar miséria humana em meme político
Mais do que oferecer um teto temporário, a rede de acolhimento atua em processos de ressocialização. Muitas vezes, atende pessoas que já conseguiram emprego, estão tentando reorganizar a vida, mas ainda não possuem condições mínimas para caminhar sozinhas. É o poder público funcionando como ponte entre o abandono e a reconstrução da dignidade.
“Em Curitiba, a rede de acolhimento vai muito além de oferecer um local para dormir. Ela também faz parte do processo de ressocialização”, diz o dirigente da FAS.
Por isso, a tentativa de ridicularizar esse tipo de programa é baixa, beira a crueldade e revela muito sobre o caráter de quem prefere debochar de vulneráveis a compreender a complexidade social que existe por trás de cada atendimento realizado.
Existe uma diferença brutal entre fiscalizar políticas públicas, algo legítimo e necessário, e produzir vídeos inflamados sustentados por distorções, meias verdades e falácias convenientes para viralizar. A primeira atitude fortalece a democracia. A segunda apenas alimenta a ignorância.
Renan Rodrigues, sem gritaria, sem caricatura e sem precisar citar nomes, acabou enquadrando o vereador da maneira mais incômoda possível, com informação técnica, dados públicos e realidade. Em tempos de política transformada em palco de rede social, talvez isso seja mais devastador do que qualquer resposta atravessada.
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