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Perdeu Piá perdeu o rumo

30/03/2026
perdeu piá

Curitiba sempre foi uma cidade de política discreta. Não necessariamente virtuosa, porque virtude na política brasileira costuma ser artigo raro. A cidade é, digamos, discreta. O sujeito virava vereador, sentava na cadeira, aprendia o regimento, tentava parecer sério e, com sorte, passava quatro anos sem virar personagem de anedota pública.

Mas os tempos mudaram.

Agora Curitiba tem um vereador cujo próprio nome político já parece uma piada pronta: “Perdeu Piá”.

Não é apelido que os adversários inventaram, nem gozação de bar. É o nome político oficial. Estava na urna, estava no material de campanha e está na identidade eleitoral.

Convém registrar, por dever de seriedade, que o nome verdadeiro do vereador é Gustavo Silveira da Costa. Mas politicamente ele prefere ser conhecido por algo que parece slogan de vídeo de internet.

Antes da política, construiu visibilidade como influenciador digital e produtor de conteúdo nas redes sociais. Também teve passagem pela Polícia Militar do Paraná por cerca de sete anos, antes de deixar a corporação e migrar definitivamente para o universo das redes sociais e, depois, para a política municipal.

Até aqui, nada ilegal. A democracia aceita de tudo. Empresários, professores, artistas, sindicalistas e até youtubers.

O problema começa quando a conduta pública passa a se confundir com performance.

Há quem diga que a política brasileira virou espetáculo. Outros dizem que virou circo. Eu prefiro acreditar que virou uma mistura dos dois, com a diferença de que, no circo tradicional, pelo menos os artistas treinam antes de entrar em cena.

O problema, agora, não é o nome artístico do vereador. O problema é a conduta. A notícia que movimenta os bastidores da política curitibana nesta semana envolve justamente isso: conduta. E aqui o assunto deixa de ser engraçado.

O Ministério Público deve investigar o vereador após denúncias de uso da Guarda Municipal em ações que teriam servido para autopromoção política, algo que, se confirmado, ultrapassa o limite da publicidade pessoal e entra no terreno delicado do uso indevido da estrutura pública.

Porque existe uma diferença fundamental entre fazer política e usar a máquina pública como cenário para produzir conteúdo pessoal.

Vereador não é comandante de operação policial, não coordena abordagem e não conduz blitz.

Vereador legisla.

Ou pelo menos deveria.

O papel institucional de um vereador é legislar, fiscalizar o Executivo e representar o interesse público, não produzir conteúdo de ação urbana para redes sociais.

Se a investigação confirmar irregularidades, o caso deixa de ser pitoresco e passa a ser institucionalmente grave.

Quando um parlamentar começa a circular em operações de segurança como se fosse protagonista de série policial, algo está fora do lugar. A cidade já tem polícia. Já tem Guarda Municipal. Já tem autoridades responsáveis por isso. Não precisa de vereador atuando como se estivesse gravando trailer de filme de ação para rede social.

Estrutura pública não pode servir de cenário para autopromoção política. Agentes públicos não são figurantes de marketing eleitoral.

No YouTube, a audiência decide. Na política, quem decide é a lei.

Aliás, existe uma pergunta simples que costuma separar as coisas na política: o sujeito é vereador ou é policial?

Porque se quiser ser policial, há caminhos claros. Polícia Militar. Polícia Civil. Guarda Municipal.

Agora, se não é policial e insiste em agir como se fosse, o que temos é outra coisa, um pseudo policial frustrado fantasiado de vereador.

A política brasileira vive um fenômeno curioso. Uma geração inteira de parlamentares que acredita que mandato público é extensão de rede social. O sujeito não legisla, ele grava. Não fiscaliza, performa. Não debate, ele lacra.

É a chamada bancada da lacração, aquela que transforma qualquer episódio cotidiano em espetáculo político instantâneo. E a Câmara de Curitiba tem um punhado desses lacradores.

Como dizia Machado de Assis, “a ocasião faz o ladrão”. No Brasil contemporâneo, a ocasião parece fazer também o influencer parlamentar.

E Curitiba, convenhamos, merece coisa melhor.

A capital é uma cidade que construiu fama nacional por planejamento urbano, administração pública relativamente organizada e uma tradição política que, goste-se ou não, sempre teve algum grau de sobriedade institucional.

Transformar o mandato de vereador em reality show policial de internet é rebaixar o debate público a um nível que nem mesmo os piores momentos da política curitibana costumavam atingir.

A investigação do Ministério Público terá agora o papel de separar duas coisas: a liberdade de atuação política, que todo vereador possui; e o eventual uso indevido de estrutura pública, que nenhum vereador possui.

A linha é clara.

Se houve abuso, a consequência deve ser proporcional. Se não houve, o episódio ficará como mais um capítulo da política performática brasileira.

Antes do resultado final, no entanto, o episódio já revela algo preocupante. Uma compreensão extremamente superficial do que significa exercer um mandato público.

Vereador não é personagem de vídeo viral. Vereador é representante institucional da cidade.

Pode parecer uma diferença pequena para quem vive de curtidas, mas para a democracia ela é gigantesca.

Mas uma coisa é certa. Curitiba merece mais do que vereadores que confundem mandato com palco.

Porque a política municipal não é lugar para bravatas, encenações ou personagens caricatos.

Curitiba já teve figuras públicas de grande estatura institucional. Agora precisa lembrar que cidade séria exige política séria.

E isso, infelizmente, é algo que nem sempre cabe em um vídeo de internet.

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