Sempre que me vejo em pânico com o quadro político brasileiro penso em duas coisas. A primeira, mais difícil: escrever um livro de ‘autoajude-me’. Segunda: recorrer a quem possa aplacar esse ânimo beligerante e essa vontade de parar por aqui e mandar dizer, a quem perguntar, que fui por aí. Os remédios jornalísticos são dois: Clóvis Rossi, já falecido e raríssimo observador de olhos lúcidos desse país que só arranha a moldura da civilização, e João Pereira Coutinho, um colunista portuga que botou no bolso todos os outros, com exceção de Rossi (hors-concours).
São eles que, de forma enviesada ou direta, respondem à manutenção de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial e ao prestígio decaído de Lula junto ao eleitorado.
Clóvis Rossi advertia aos incautos que a direita veio para ficar. Sem véu, sem disfarce, sem o apelido de tradicional ou conservadora – o que também é. Nunca antes na história imaginou-se, nesse país de botas, coturnos e bigodões, que alguém teria a coragem de se assumir de direita com o plus de extrema direita. Eu acho que é só direita.
Ao discurso politicamente correto que campeia, bolsonaristas respondem com o tacape da intolerância. Mas não estão sozinhos. Trogloditas também habitam o outro lado, ainda que claramente insanos – vide a facada de que foi vítima Bolsonaro em 2018 e de que o caso foi tratado com dúvida e com ares de fake news.
Para quem pensou que aquela eleição, a outra e a que está por vir, seria marcada pela ausência, abstenção e rejeição recorde eis o pleito do voto útil. Útil para quem, cara pálida? De um lado e de outro, a história contada é a de que os eleitores deverão ir às urnas para deter o primeiro mandato de Bolsonaro filho ou o quarto de Lula.
Veio para ficar
Sim, a direita é um espectro que, há tempos, ronda EUA, Europa, América Latina e adjacências. Em recentes números compilados, a direita na Alemanha bateu em 12,6%, na França em 33,9%, na Itália em 17,4%, Áustria em 26%, Holanda 13%, Dinamarca 21,1%, Finlândia 17,7% e Suécia 17,6%.
Que o Brasil aprenda a lidar com a realidade posta. A corrente de opinião da qual os conservadores bolsonaristas ou não se nutrem veio para ficar.
O professor e pesquisador da FGV, Antônio Carlos Almeida, autor do livro ‘A Cabeça do Eleitor’ (Record, 2008), diz que a política não é como nuvem que muda a toda hora, ao contrário do que pensavam velhas raposas da vida pública. Ao menos no que se refere à opinião pública. A tendência é que se um presidente (ou governador ou prefeito) for bem avaliado é certo que ele será reeleito ou elegerá seu sucessor.
Esse padrão, no entanto, parece não combinar com a sequência de fatos ocorridos no país nos últimos anos: crise econômica, escândalos de corrupção, impeachment e a posse de um vice-presidente, Michel Temer, recordista em impopularidade. De certa forma, Temer serviu como escudo para garantir o retorno de Lula e do petismo, ainda que à sombra. Também garantiu que Bolsonaro, uma nulidade do baixo clero, fosse guindado a ‘mito’ por seus adeptos.
Parece um mundo de fantasia criado por fantasistas? Certamente. Estamos no mundo dos que defendem que a terra é plana, dos que negam o holocausto, apesar do zelo dos alemães em documentar tudo, dos que negam a evolução do homem e daqueles que acreditam piamente que os deuses eram astronautas. Ou seja, o buraco do coelho de Alice é o habitat desses malucos.
Donos do poder
Para viver em um mundo da fantasia é preciso aceitar algumas regras. Uma delas diz respeito às teorias da conspiração muito em voga nas redes. Outra é ser um crédulo de UTI. Há números: 64% dos brasileiros acreditam em qualquer coisa que leem, veem ou ouvem sem checar a notícia ou procurar fonte confiável.
O que João Pereira Coutinho tem a ver com isso? É ele quem nos abastece dessas informações. A palavra fundamental e inquestionável é ‘prova’, diz ele. Uma fantasia é ‘improvável’ (no sentido empírico da palavra) e muitas são contrárias a ‘provas’ irrefutáveis. Que fazer?
Coutinho, então, resolve enviar a um amigo artigo ‘provando’ que a água engarrafada que ele diz ser contaminada não o é de fato. O amigo responde: ‘Sei quem tu és. Os donos do mundo sempre tiveram os seus soldados’. Que fazer?
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