ANO IV

17/07/2026

HojePR

zisman

Pregar para os convertidos

17/07/2026
sandro alex

Existe um fato político que ajuda a compreender o momento da sucessão paranaense e que passa quase despercebido em meio à avalanche diária de especulações.

Desde que voltou das férias com a família, Ratinho Junior concentra sua agenda muito mais na organização do próprio campo político do que na disputa com os adversários. Percorre o interior ao lado de Sandro Alex, reúne os 19 deputados estaduais do PSD, intensifica as conversas com partidos aliados e coloca integrantes centrais do governo na construção da campanha que pretende levar adiante.

Essa agenda não revela insegurança sobre a candidatura. Revela que a sucessão entra em uma nova etapa.

Durante oito anos, Ratinho Junior construiu uma das mais amplas coalizões políticas da história recente do Paraná. Reuniu partidos de diferentes origens, apoiou prefeitos, ajudou a eleger deputados, abriu espaço para aliados na administração estadual e consolidou uma base parlamentar que lhe garantiu estabilidade para governar.

Agora, o desafio muda de natureza.

Administrar uma coalizão de governo é diferente de conduzir uma coalizão de sucessão. O primeiro exercício se apoia na gestão, na distribuição de responsabilidades e na construção cotidiana de consensos. O segundo exige que cada partido, cada prefeito e cada parlamentar faça também um cálculo sobre seu próprio futuro político.

É justamente aí que ganha sentido a imagem de “pregar para os convertidos”.

Os convertidos não são aqueles que já aderiram automaticamente à candidatura de Sandro Alex. São aqueles que caminharam ao lado de Ratinho Junior durante seus dois mandatos, receberam seu apoio em campanhas eleitorais, participaram da construção política de seu governo e ajudaram a formar a maioria que sustentou sua administração.

O governador não precisa convencê-los sobre o legado de seu governo. Esse patrimônio político já está consolidado.

O que precisa demonstrar é que a coalizão construída para governar também encontra razões para caminhar unida na sucessão.

Por isso, a reunião com a bancada estadual do PSD, as agendas conjuntas com Sandro Alex, a participação de auxiliares estratégicos na organização da campanha e a retomada das conversas com partidos aliados possuem um significado que vai muito além das fotografias distribuídas à imprensa. Elas representam o esforço para transformar uma base administrativa em uma base eleitoral.

Essa talvez seja a principal novidade produzida pelo retorno do governador.

Enquanto isso, o ambiente político parece viver em um calendário próprio. Antes mesmo das convenções partidárias, multiplicam-se diagnósticos definitivos, alianças consideradas irreversíveis, candidaturas tratadas como consolidadas e pesquisas interpretadas como sentenças.

Cada almoço vira demonstração de força. Cada ausência é tratada como rompimento. Cada conversa se transforma em acordo consumado. Cada pesquisa produz novos vencedores e derrotados.

Instala-se uma curiosa corrida para antecipar o futuro.

Não apenas porque todos desejam compreender o que acontecerá nos próximos meses, mas porque muitos também desejam reservar para si o direito de repetir, quando as urnas finalmente falarem, a frase mais conhecida dos bastidores da política: “bem que eu disse”.

Esse exercício faz parte da política e continuará existindo. O que não se pode perder de vista é que o calendário também produz fatos.

As convenções ainda definirão candidaturas, chapas, alianças e estratégias. A campanha propriamente dita ainda apresentará candidatos ao eleitor. O horário eleitoral ainda reorganizará percepções. Debates, pesquisas, apoios e acontecimentos nacionais ainda interferirão no ambiente político.

É cedo demais para transformar hipóteses em certezas.

Talvez seja justamente essa a principal lição deixada pela volta de Ratinho Junior. O governador não retorna das férias para escolher um sucessor. Retorna para enfrentar a etapa mais difícil de qualquer processo sucessório: fazer com que uma coalizão construída para governar também deseje permanecer unida quando chega a hora de disputar o poder novamente.
Essa conversa acontece, por enquanto, entre os próprios convertidos.

O restante pertence ao tempo da política. E o calendário, como sempre, costuma cobrar de todos um pouco mais de paciência do que os bastidores estão dispostos a oferecer.

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