O título desta coluna é deliberadamente provocativo. Evidentemente, municípios elegem deputados. O que o sistema proporcional brasileiro não assegura é que cada cidade construa uma representação política vinculada prioritariamente ao seu próprio eleitorado. A disputa ocorre em escala estadual, permitindo que qualquer candidato busque votos em qualquer município. Essa liberdade é uma das características do modelo e amplia as opções do eleitor. Ao mesmo tempo, produz efeitos que nem sempre recebem a atenção devida.
Foi justamente um desses efeitos que motivou um interessante estudo elaborado pelo professor Kossar sobre o comportamento do voto em Foz do Iguaçu. Ao comparar as votações nominais para deputado estadual e deputado federal nas seis últimas eleições, o levantamento identifica uma mudança gradual na composição desse eleitorado, com crescimento da participação de candidatos oriundos de outras regiões do Paraná. Mais do que um diagnóstico local, o trabalho oferece um ponto de partida para refletir sobre a forma como o sistema proporcional organiza a representação política.
A explicação mais simples seria atribuir essa transformação às redes sociais. Elas, sem dúvida, ampliaram o alcance das campanhas e reduziram custos de comunicação. Mas o fenômeno é anterior à internet. Muito antes do ambiente digital, municípios de grande relevância econômica, institucional ou estratégica já despertavam o interesse de lideranças políticas estabelecidas em diferentes regiões do Estado.
Foz do Iguaçu talvez seja um dos melhores exemplos dessa dinâmica. A presença de Itaipu, a condição de cidade de fronteira, o turismo internacional, a logística, o comércio exterior e os temas permanentes ligados à segurança pública fazem do município uma pauta estadual antes mesmo de ser apenas uma pauta local. É natural, portanto, que parlamentares de diferentes regiões procurem construir presença política na cidade e busquem legitimamente a confiança de seu eleitorado.

Essa constatação não representa uma crítica aos candidatos que disputam votos em Foz do Iguaçu, nem ao próprio sistema eleitoral. Ambos exercem exatamente o papel que lhes foi atribuído pela legislação. A questão proposta pelo estudo é outra: compreender como essa dinâmica influencia a formação da representação política dos municípios.
Em algumas cidades, lideranças locais conseguem consolidar bancadas fortemente identificadas com a realidade regional. Em outras, a própria importância econômica, institucional ou estratégica amplia a competição eleitoral e atrai candidaturas de diferentes partes do Estado. Foz parece enquadrar-se nessa segunda condição. Não porque lhe faltem lideranças políticas, mas porque sua relevância faz com que o município desperte interesse permanente de atores políticos muito além de suas fronteiras geográficas.
É justamente nesse ponto que o debate institucional reaparece.
O sistema proporcional foi concebido para assegurar pluralidade política e ampla liberdade de escolha ao eleitor. Não estabelece fronteiras municipais para a atuação dos candidatos, nem deveria fazê-lo. Ao mesmo tempo, faz com que a representação territorial dependa menos da origem geográfica da candidatura e mais da sua capacidade de construir competitividade em escala estadual.
Não por acaso, periodicamente ressurge no Congresso Nacional a discussão sobre modelos alternativos de representação, como o voto distrital ou o distrital misto. Seus defensores sustentam que esses sistemas fortalecem o vínculo entre eleitores e representantes. Seus críticos alertam para possíveis perdas de proporcionalidade e pluralismo. Esta coluna não pretende arbitrar esse debate. Apenas registra que ele continua atual porque decorre das próprias características do modelo vigente.
Talvez esse seja o maior mérito do estudo do professor Kossar. Em vez de oferecer respostas prontas, ele provoca uma pergunta que extrapola Foz do Iguaçu e alcança qualquer município brasileiro: de que maneira o sistema proporcional influencia a construção da representação política das cidades e qual é o ponto de equilíbrio entre uma legítima disputa estadual e a capacidade de cada município fazer emergir lideranças comprometidas com suas agendas locais?
Responder a essa pergunta talvez seja mais importante do que contabilizar quantos votos pertencem a candidatos locais ou a candidatos de outras regiões. Afinal, a representação política não se mede apenas pela origem dos votos, mas, sobretudo, pela capacidade de transformar esses votos em compromisso efetivo com a comunidade que ajudou a elegê-los.
Nota de rodapé
Sobre o autor do estudo: O professor Kossar desenvolve, há décadas, pesquisas sobre o comportamento eleitoral e a representação política em Foz do Iguaçu. Com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, seus levantamentos procuram identificar tendências e transformações no voto do eleitor iguaçuense, contribuindo para o debate sobre a dinâmica política do município e da região Oeste do Paraná. O estudo citado nesta análise examina as votações nominais para deputado estadual e deputado federal em Foz do Iguaçu nas seis últimas eleições.
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