Já estamos de volta ao Brasil, depois de percorrer 450 km, em uma van climatizada, refazendo o trajeto dos nossos compatriotas durante a Segunda Guerra Mundial. Nosso pai foi um deles, nos anos de 1944 e 1945, atravessando o Atlântico, assim como outros 25.334 brasileiros e brasileiras, para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB), em uma saga escrita em solo italiano com coragem, suor e sangue, especialmente nos combates que neste texto destacamos.
Refazer o caminho desses homens e mulheres é mais do que um turismo histórico. É um gesto de homenagem, de reconexão familiar e de reconhecimento. É caminhar por onde caminharam e contemplar as montanhas e os vales que contemplaram.
Voltamos com o coração mais cheio: com mais respeito, mais compreensão e um orgulho sereno por saber que eles ajudaram a devolver liberdade a um continente ferido. Essa viagem foi nossa forma de dizer: nós lembramos, nós honramos, nós reconhecemos, mesmo que o Brasil, institucionalmente, por razões políticas, tenha feito pouco e, ainda assim, tardiamente.
Recordemos que, a partir de junho de 1944, a prioridade dos Aliados passou a ser a libertação da França, sobretudo após o desembarque na Normandia, em 6 de junho daquele ano, operação que mobilizou cerca de 156 mil militares. Por essa razão, várias divisões aliadas que atuavam na Itália foram transferidas para o sul da França, reduzindo o contingente disponível naquele front.
Nesse contexto, a presença da FEB tornou‑se essencial para compensar a diminuição das tropas aliadas e manter a pressão sobre as forças alemãs na região. É justamente nesse cenário que se destacam quatro grandes feitos que permanecem entre os capítulos mais heroicos da história militar brasileira, quando homens e mulheres, longe de sua terra, lutaram não apenas pelo Brasil, mas pela liberdade de todas as nações.
Embora não tenha sido o principal teatro de operações da Segunda Guerra Mundial, a campanha da Itália é reconhecida por muitos autores como uma das mais duras e complexas de todo o conflito. O relevo montanhoso e hostil, o clima rigoroso e a notável capacidade defensiva do general alemão Albert Kesselring, somados a sucessivas falhas de planejamento e coordenação do comando aliado, retardaram significativamente a conquista da península, cuja conclusão estava originalmente prevista para meados de 1944.
Como se esses obstáculos não bastassem, soldados e civis italianos ainda enfrentaram uma guerra fratricida que dilacerou o país: o sul, sob controle do governo alinhado aos Aliados, e o norte, onde o fascismo permanecia ativo, embora submetido ao jugo militar alemão, na chamada República Social Italiana, sob a liderança limitada de Mussolini. Esse conjunto de fatores exigiu das tropas envolvidas uma extraordinária capacidade de resistência, adaptação e equilíbrio ao longo de toda a campanha.
Após o armistício de 8 de setembro de 1943, mais de 600 mil soldados italianos foram capturados pelos alemães por se recusarem a aderir à República Social Italiana. Reclassificados como Internati Militari Italiani (IMI), uma categoria criada para lhes negar o status de prisioneiros de guerra, foram submetidos à fome, aos trabalhos forçados e a altíssimas taxas de mortalidade nos campos de internamento e nas fábricas do Reich. A eles somaram-se mais de 32 mil deportados políticos e raciais, vítimas da repressão nazifascista, muitos dos quais não sobreviveram aos campos de concentração.
Nas regiões da Toscana e da Emília-Romanha, visitamos quatro cemitérios militares que guardam a memória de soldados de diversas nacionalidades: americanos, alemães, sul‑africanos e, naturalmente, o antigo Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, onde repousaram, entre 1945 e 1960, os restos mortais dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira tombados na Itália. Ao todo, recebeu 462 militares, número que varia ligeiramente nas fontes da época, mas que se consolidou oficialmente nessa contagem.
Com a decisão do governo brasileiro de repatriar seus combatentes tombados (um gesto único entre os países envolvidos no conflito), os corpos foram trasladados, em 1960, para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, espaço dedicado à memória e à reverência.
Pistoia, contudo, ficou um símbolo: em 1967, foi encontrado entre escombros de Montese, o corpo de um soldado brasileiro não identificado. Ele permanece ali até hoje, como o Soldado Desconhecido da FEB, representando todos aqueles cujos destinos se perderam na névoa da guerra.
Além dele, a história registra ainda dois pracinhas desaparecidos: um que se afogou no Rio Pó e outro que não retornou de uma patrulha. Seus corpos jamais foram localizados e, por isso, não figuram entre os restos mortais oficialmente identificados.
Esse é o saldo de tantas batalhas, das quais buscamos retratar, neste texto, as principais, reunindo os dados mais coerentes e consistentes disponíveis, ainda que números e relatos possam variar ligeiramente conforme a fonte consultada.

Monte Castelo, a mais emblemática conquista da FEB
Símbolo maior da bravura do soldado brasileiro, Monte Castelo tornou‑se a vitória mais emblemática da FEB. Essa conquista abriu o caminho para o avanço aliado rumo ao norte da Itália e contribuiu decisivamente para acelerar o colapso das forças alemãs e fascistas na região.
Erguido na espinha dorsal da Cordilheira dos Apeninos, o monte integrava um dos trechos mais fortificados da Linha Gótica, a última grande barreira defensiva alemã na Itália. Ali funcionava um dos principais postos de observação nazifascista, o que tornava sua tomada uma missão de enorme risco e sacrifício.
Estendia‑se por cerca de 320 quilômetros, de leste a oeste da Itália, e sua complexidade impressiona até hoje. Documentos registram aproximadamente 4 mil fortificações de concreto ou escavadas na rocha ou na terra, além de cerca de 100 mil minas terrestres, um terror constante para os soldados, que temiam sobretudo as mutilações provocadas por essas armadilhas invisíveis. Foi nesse cenário brutal que os pracinhas brasileiros escreveram uma das páginas mais duras e honrosas de nossa história militar.
As quatro ofensivas realizadas entre novembro e dezembro de 1944 fracassaram, deixando centenas de mortos e feridos entre os brasileiros. Esses reveses acentuaram tensões técnicas e humanas entre o comando da FEB e o 5º Exército dos EUA, ao qual a tropa brasileira estava subordinada. Os norte‑americanos haviam subestimado tanto a capacidade defensiva alemã quanto a severidade do inverno nos Apeninos, insistindo em ataques frontais contra posições elevadas e fortificadas, sem o apoio adequado de artilharia e blindados. Mal equipados e submetidos a um clima implacável, os brasileiros passaram a pressionar por ajustes táticos e por uma melhor coordenação das operações.
O moral caiu, o medo cresceu e, para muitos pracinhas, conquistar aquele cume significava atravessar o “corredor da morte”. O general Mascarenhas de Moraes foi categórico: novos ataques só seriam realizados com apoio maciço de artilharia e com a participação de uma Divisão de Montanha norte‑americana. Sua postura firme, somada ao êxito em fevereiro de 1945, consolidou o respeito do comando americano pela capacidade e pela autonomia tática da FEB.
A vitória veio em 21 de fevereiro de 1945, após doze horas de combate intenso. Ela só foi possível graças ao esforço conjunto das forças brasileira e norte-americana e ao fato de que, naquele momento, a FEB já se encontrava mais bem treinada e experiente em operações de montanha e nas duras condições do inverno europeu.
A artilharia brasileira, sob comando do general Cordeiro de Farias, teve papel decisivo na conquista. Entre 16h e 17h, seus grupos realizaram um preciso fogo de barragem sobre o cume de Monte Castelo, neutralizando posições inimigas e abrindo caminho para o avanço das tropas. Os pilotos brasileiros, voando caças P‑47 Thunderbolt, também tiveram atuação amplamente reconhecida durante a operação.
Em combates de montanha, quando o inimigo ocupa posições elevadas, protegido por casamatas e apoiado por armamento pesado, os manuais militares são categóricos: a força atacante deve dispor de uma superioridade mínima de três para um em homens e equipamentos. As tropas aliadas, entre elas a FEB, avançaram em condições muito inferiores a esse parâmetro e, ainda assim, prevaleceram.
No maciço de Monte Castelo, com 977 metros de altitude, os brasileiros enfrentavam soldados alemães experientes, bem posicionados e profundamente entrincheirados no terreno acidentado dos Apeninos. Embora não seja uma montanha particularmente alta em termos absolutos, Monte Castelo exerce amplo domínio sobre a paisagem local, controlando vales, estradas e acessos estratégicos entre a Emilia‑Romagna e a Toscana. Foi, portanto, uma vitória tática e de grande valor operacional e simbólico para a FEB.
Aquele cume, conquistado com suor, sangue e honra, permanece como um dos capítulos mais heroicos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. O custo dessa vitória foi alto: aproximadamente 400 baixas entre os brasileiros, incluindo mortos e combatentes temporariamente incapacitados para a luta, no jargão militar. Foi o preço pago pela superação de um dos mais difíceis desafios enfrentados pela FEB na Itália.
Para compreender o que significava avançar sob fogo cerrado em Monte Castelo, nenhuma análise técnica é suficiente. Apenas a voz de quem esteve lá consegue traduzir o horror, a coragem e a obstinação que impulsionavam cada passo. Segundo o professor Dennison de Oliveira, no livro Para entender a Segunda Guerra Mundial (Editora Juruá, 2020), um pracinha teria relatado que os alemães “mandavam bala” contra qualquer movimento ou cor que destoasse da terra e das pedras. Cada avanço exigir enfrentar não apenas o fogo inimigo, mas também a consciência de que aquele poderia ser o último passo.
Tudo isso acontecia em meio a tiros, morteiros, granadas e aos gritos dos companheiros feridos, muitos deles “com um pedaço de metal na boca, no olho, no meio da barriga, gemendo e chorando, gargarejando sangue até morrer”.
Nosso pai foi um dos combatentes e, por razões íntimas que talvez só ele conhecesse, raramente falava em detalhes sobre Monte Castelo. Mas, nas poucas vezes em que se permitia recordar aqueles dias, uma cena sempre retornava com absoluta nitidez. Ele contava que, ao toque da alvorada, às cinco da manhã, o tenente reuniu o grupo de soldados e proclamou, em voz firme e resoluta: “Hoje vamos tomar o Monte Castelo, nem que seja à força de baioneta.”
Ao narrar esse momento, nosso pai, com uma mistura de respeito e uma gana quase juvenil, sempre se referia aos inimigos como “tedescos” – aportuguesamento do termo italiano Tedeschi (alemães) – e às célebres metralhadoras MG‑42 como “lurdinhas”, expressão que se tornou parte marcante do folclore dos pracinhas.
Uma das versões mais difundidas conta que, devido à altíssima cadência de disparos da arma (cerca de 1.200 tiros por minuto), o som lembrava a fala acelerada da noiva ciumenta de um soldado, chamada Lurdinha, que falava sem parar quando se irritava. A anedota, repetida entre trincheiras e abrigos, ajudava a trazer um toque de humor, tão característico da cultura brasileira, a uma realidade dura e cruel.
Dedicamos um dia inteiro a conhecer o lendário Monte Castelo e seus arredores. Iniciamos a jornada com uma subida de cerca de 1h20 por trilhas íngremes, acompanhados pelo guia Mário. Ao longo do percurso, fizemos diversas paradas em antigos pontos estratégicos alemães — casamatas, ninhos de metralhadora, posições de morteiro, trincheiras e áreas que, à época, estavam coalhadas de minas. No cume, fizemos preces pela alma de nosso pai e por todos os que ali combateram.
Em seguida, visitamos um dos monumentos mais emblemáticos da participação brasileira na campanha da Itália, erguido no local do episódio conhecido como “Os 17 de Abetaia”. Em 12 de dezembro de 1944, 17 pracinhas realizavam uma patrulha de reconhecimento quando foram cercados por tropas inimigas. Travou‑se um combate intenso e desigual, no qual todos acabaram mortos. Seus corpos só seriam encontrados em fevereiro de 1945, após a conquista de Monte Castelo, dispostos em semicírculo, muitos ainda com o dedo no gatilho ou com granadas sem pino. O monumento preserva a memória de um dos episódios mais dramáticos e comoventes na participação brasileira na guerra.
Montese, o episódio mais sangrento da campanha brasileira na Itália
Dedicamos dois dias a Montese, explorando a cidade em cada detalhe. Percorremos mais de uma centena de quilômetros pelas estradas e colinas da região para conhecer antigas fortificações brasileiras e alemãs, testemunhos silenciosos dos combates que marcaram aquele trecho dos Apeninos. Visitamos todos os museus locais, cada um deles guardando fragmentos preciosos da presença da FEB na Itália.
Ao longo do caminho, conversamos com moradores que, invariavelmente, demonstram um profundo carinho e gratidão pelos brasiliani. É comovente perceber como, mesmo passadas tantas décadas, a memória dos pracinhas permanece viva ali, não apenas nos monumentos, mas, sobretudo, no coração das pessoas.
Entre 14 e 17 de abril de 1945, a poucos dias do fim da guerra na Europa, a FEB enfrentou pela primeira vez um combate urbano de grande intensidade, travado casa por casa e rua por rua. Foi a mais sangrenta batalha para os brasileiros em toda a campanha da Itália, com cerca de 426 baixas. Do lado alemão, as perdas foram igualmente expressivas, estimadas em aproximadamente 497.
Conquistar Montese, situada a 840 metros de altitude, significava dominar as estradas e vales da região. A pequena cidade representava o último grande reduto nazifascista antes da planície do Vale do Pó e, justamente por isso, foi defendida com ferocidade. Erguida sobre uma cadeia montanhosa estratégica, controlava os acessos que permitiriam aos Aliados romper definitivamente a Linha Gótica e avançar em direção ao coração industrial no norte da Itália.
Atualmente, com cerca de 3.300 habitantes, Montese é uma cidade tranquila, mas ainda marcada pelas cicatrizes da guerra. Ao visitá-la, é quase obrigatório registrar uma foto junto ao antigo bebedouro de pedra. Ali, ainda se podem ver as numerosas marcas de bala que atravessaram o tempo e testemunham a intensidade dos combates travados pelas pracinhas. A destruição foi profunda: a maior parte das 1.221 casas da cidade sofreu danos severos durante os enfrentamentos.
Nossos soldados foram submetidos, em Montese, a um estresse psicológico quase insuportável: cada janela, cada esquina, cada abertura nas paredes podia ocultar um atirador inimigo. O som dos tiros ricocheteando nas construções, o estrondo das granadas e o cheiro de pólvora criavam uma atmosfera permanente de tensão e perigo. As forças alemãs eram experientes e contavam com unidades de elite, combatendo em um terreno acidentado no qual as construções de pedra e a visibilidade reduzida transformavam a cidade em um verdadeiro labirinto mortal. A artilharia inimiga, instalada em posições mais elevadas, varria continuamente os acessos, enquanto atiradores ocultos retardavam dolorosamente cada metro de avanço das tropas brasileiras.
E havia algo ainda pior: corpos estendidos pelas ruas estreitas (mortos e feridos de diversas nacionalidades, sobretudo brasileiros e alemães) que ninguém conseguia alcançar. Os padioleiros tentavam avançar, mas eram repelidos pelo fogo inimigo. Muitos pracinhas tiveram de continuar lutando sabendo que seus companheiros agonizavam a poucos metros de distância, sem qualquer possibilidade de socorro.
Montese não foi apenas mais uma batalha. Foi um mergulho brutal na essência da guerra, onde cada avanço custava suor, sangue e coragem, e onde a fronteira entre a vida e a morte podia se resumir a um instante, a um único segundo.
O professor Dennison de Oliveira descreve com precisão o peso desse enfrentamento: “Segundo registros da inteligência militar do V Exército dos EUA, dos 2.800 tiros de artilharia disparados pelos nazifascistas, couberam às tropas brasileiras nada menos que 1.800 (cerca de 65%). A artilharia da FEB respondeu à altura, replicando com outros 9.600 disparos”.
Foi também nos arredores de Montese que, em 12 de abril de 1945, durante uma patrulha realizada antes do principal ataque brasileiro, o sargento Max Wolff Filho, um dos maiores heróis da FEB, foi mortalmente atingido por rajadas de metralhadora. Seu corpo só seria encontrado em dezembro daquele ano.
Visitamos o monumento erguido em homenagem a Max Wolff Filho. Nascido em Rio Negro, no Paraná, e professor de Educação Física, destacou-se pela coragem e pela extraordinária habilidade em missões de reconhecimento, recebendo dos próprios companheiros o apelido de “Rei dos Patrulheiros”.
Entre os mortos estava também Alessio Venturi, primo de meu pai, nascido em 1919, em Rodeio, Santa Catarina. Ele faleceu em 15 de abril de 1945, apenas 14 dias antes do fim das hostilidades na Itália. Essa proximidade cruel com o armistício sempre me pareceu carregada de um simbolismo trágico: caiu quando a paz já começava a se anunciar.
No Boletim Especial do Exército de 2 de dezembro de 1946, encontra‑se o relato doloroso do sargento Ary Roberto de Abreu, ferido pouco antes, que descreveu um dos momentos mais marcantes que viveu na guerra: “O meu soldado, Alessio Venturi, foi atingido por um grande estilhaço nas costelas. E ele me dizia: ‘Cuide da minha mãe; eu sou órfão de pai’. Virava‑se de um lado para o outro e repetia: ‘Sargento, cuide da minha mãe…’.”
O sargento prossegue: “Caindo aqui e ali, com o braço na tipoia, fui procurar algum padioleiro.”
Quando finalmente encontrou um, deparou‑se com uma cena que jamais esqueceria: “Os padioleiros estavam ensanguentados como entregadores de carne em açougue.”
Segundo pesquisa de Ariosnaldo Venturi, o sobrenome Venturi talvez seja o que mais enviou combatentes para a FEB, considerando a singularidade de todos pertencerem ao mesmo tronco familiar. Além de nosso pai, Leopoldo, também lutaram na Itália Alessio, Paulino e Luís, todos nascidos no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e ligados por laços de parentesco (eram primos) de primeiro ou segundo grau.
Quando Montese finalmente caiu, em 17 de abril de 1945, a FEB havia aberto caminho para a arrancada final que, poucos dias depois, culminaria na rendição em massa das forças alemãs em Collecchio e Fornovo. A vitória em Montese, portanto, não teve apenas valor tático: foi um passo decisivo para o colapso da resistência nazista e fascista no norte da Itália.
Na Via Panoramica, nº 25, funciona uma biblioteca e um pequeno museu, onde a acolhedora Sra. Emanuela nos recebeu com exclusividade por ser um sábado. O endereço tem um significado especial: durante a guerra, o edifício (um pequeno castelo medieval conhecido como Rocca di Montese, situado no coração da cidade) foi utilizado pelos alemães como posto de observação, graças à sua posição elevada e ao amplo domínio visual sobre o vale.
Mas presença brasileira em Montese vai muito além do museu. A cidade abriga diversos marcos que evocam a participação da FEB. Entre eles, destaca-se um grande mural em uma das vias principais, retratando um soldado brasileiro uniformizado, com o dedo apontando para o emblema da FEB (a cobra fumando). Esses monumentos deixam evidente que o sacrifício dos febianos permanece vivo na memória local e que Montese preserva, com orgulho, os laços históricos que unem a cidade ao Brasil.
A 22 km de Montese, visitamos também o memorial dedicado aos “Três Bravos Brasileiros”, em Vergato (não confundir com uma lenda homônima, situada em outro local e associada a personagens diferentes). Os três homenageados (José Graciliano, Clóvis da Cunha e Aristides da Silva) avançaram à frente de seu grupo e acabaram cercados por tropas alemãs. Ao perceberem que enfrentavam apenas três homens, os alemães tentaram forçá‑los à rendição.
A resposta dos brasileiros foi categórica: recusaram‑se a se render e abriram fogo, mesmo diante de forças muito superiores. Seguiu-se um combate feroz e desigual. Quando finalmente tombaram, os soldados alemães, impressionados com a coragem daqueles pracinhas, decidiram sepultá‑los com honras militares, um gesto raríssimo em plena guerra. Sobre a sepultura improvisada, ergueram uma cruz de madeira com a inscrição em alemão: “Drei brasilianische Helden” (“Três heróis brasileiros”).
Assim, entre trilhas, memórias e monumentos, revisitamos episódios que revelam a dimensão do sacrifício e da bravura dos soldados brasileiros que lutaram na Itália.

Collecchio e Fornovo, o capítulo final da vitória brasileira na Segunda Guerra Mundial
As últimas batalhas da FEB ocorreram entre 26 e 29 de abril de 1945, quando a guerra na Europa já se aproximava do fim, mas ainda exigia coragem, estratégia e resistência. Nos dias 26 e 27, em Collecchio, os combatentes brasileiros enfrentaram tropas da Wehrmacht (exército alemão) e da República Social Italiana, que tentavam romper o cerco para fugir rumo ao norte. Mesmo em inferioridade numérica, os brasileiros manobraram com rapidez, pressionaram o inimigo e bloquearam todas as rotas de fuga.
O desfecho ocorreu em 28 de abril de 1945, nas imediações de Fornovo di Taro. Ali, as tropas alemãs e fascistas, completamente cercadas e privadas de qualquer possibilidade de retirada ou reorganização, iniciaram negociações que culminaram em uma das mais expressivas capitulações obtidas por forças aliadas durante a campanha da Itália.
As tratativas foram conduzidas por oficiais da FEB com representantes do general alemão Otto Fretter‑Pico, mediados pelo pároco local, Don Alessandro Cavalli. Foram horas de tensão até que, finalmente, o documento de rendição foi firmado. A capitulação consolidou a vitória brasileira no setor e contribuiu de maneira decisiva para o colapso final das forças nazifascistas na região do Vale do Pó.
No conjunto da operação em Collecchio e Fornovo di Taro, a FEB capturou aproximadamente 15 mil prisioneiros, entre eles cerca de 800 oficiais e dois generais. Também apreendeu mais de 4 mil animais de carga, cerca de 1.500 viaturas e um expressivo volume de armamentos e equipamentos militares. O feito foi oficialmente reconhecido pelo 5º Exército dos Estados Unidos, que destacou o Brasil como o único país sul‑americano a enviar tropas de combate para o teatro europeu da Segunda Guerra Mundial.
Nos combates travados entre 26 e 29 de abril de 1945, a Força Expedicionária Brasileira registrou cerca de 45 baixas, entre mortos e feridos, enquanto as forças alemãs sofreram aproximadamente 500. Embora os números variem ligeiramente conforme a fonte consultada, a disparidade evidencia a eficácia da operação. Poucos dias após esses confrontos, em 2 de maio de 1945, todas as forças do Eixo na Itália capitularam, encerrando a campanha no país e consolidando a participação da FEB como um dos capítulos mais relevantes da contribuição brasileira ao esforço aliado.
Enquanto isso, em Berlim, o destino do regime nazista já estava selado. Poucos dias antes, Hitler soubera que Benito Mussolini fora capturado por partisans italianos, executado e exposto de cabeça para baixo em um posto de gasolina em Milão, juntamente com sua amante, Clara Petacci, e dois líderes fascistas. A cena atraiu uma multidão tomada pela fúria, que insultava e cuspia nos cadáveres do antigo ditador e de seus companheiros.
O local escolhido não foi aleatório, pois ficava nas proximidades da Praça Loreto, onde, em agosto de 1944, 15 partigiani haviam sido executados por forças fascistas, em uma ação atribuída ao regime de Mussolini. Para muitos italianos, a exposição dos corpos representava uma forma simbólica de ajuste de contas com anos de opressão e violência.
A imagem brutal do aliado derrotado e humilhado reforçou em Hitler a convicção de que jamais permitiria destino semelhante para si. Assim, na tarde de 30 de abril de 1945, suicidou‑se com um tiro, enquanto Eva Braun, com quem se casara no dia anterior, morreu ao seu lado ao ingerir cianeto. Conforme instruções deixadas por Hitler, os corpos foram imediatamente levados para o jardim da Chancelaria e queimados, numa tentativa de impedir que fossem exibidos como troféus pelos vencedores.
Entre o improviso e a coragem: o retrato da FEB no front italiano
Dos 25.334 brasileiros enviados à Itália, cerca de 15 mil combateram diretamente na linha de frente. O restante do contingente – aproximadamente 10 mil expedicionários e 73 enfermeiras, incluindo as seis que serviram na FAB – desempenhou funções indispensáveis nas áreas de logística, transporte, saúde, intendência, manutenção, administração, polícia do Exército e serviços gerais.
Segundo o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, os três primeiros escalões chegaram à Itália com treinamento incompleto e inadequado, enquanto os dois últimos, embarcados às pressas em novembro de 1944 e fevereiro de 1945, partiram do Brasil praticamente sem instrução. Essa deficiência, contudo, não significou que tenham sido lançados ao combate despreparados. Já no teatro de operações, passaram por um intenso período de adestramento sob supervisão norte‑americana, recebendo instrução de armamento, táticas de infantaria, combate em montanha e adaptação ao inverno italiano. Dessa forma, completaram em campo a formação que não haviam recebido plenamente em solo brasileiro.
Uma das principais referências sobre a FEB é o livro As vitórias da FEB, dos historiadores militares e oficiais Cláudio e Edson Rosty. Na página 160, a obra registra 457 mortos da Força Expedicionária Brasileira (13 oficiais e 444 praças), aos quais se somam 8 oficiais aviadores da FAB. As estatísticas do Exército brasileiro acrescentam ainda 2.722 feridos, compondo o quadro das baixas brasileiras na campanha da Itália.
A longa espera: fé, silêncio e esperança no lar de um pracinha
Nosso pai retornou ao Brasil em 17 de setembro de 1945, então com 25 anos. Havia embarcado no porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944 e permaneceu praticamente um ano longe de sua pátria.
Oriundo de uma família de agricultores, ficou órfão com apenas dois anos de idade. Naquele ambiente, o trabalho era um valor fundamental, pois a subsistência dependia da lavoura e da criação de animais. Desde a infância, ouvi dele uma frase inúmeras vezes: “Chi non lavora non mangia” (“Quem não trabalha não come.”).
Anos mais tarde, já de volta ao Brasil, os expedicionários de Rodeio que haviam estado no front costumavam se reencontrar, e as conversas invariavelmente retornavam àqueles dias de medo e bravura. Um deles, Paulinho Venturi, recordava em dialeto vêneto que coragem eles tinham, sim, mas que, no nos momentos mais intensos dos combates, “a boca se mexia sozinha de tanto rezar”. Sua frase, dita com simplicidade e sinceridade, revelava o que muitos sentiam: a coragem vinha da fé: “Si… si! Gavevem ben coraggio, ma però la boca la neva en sin de so posta de tant pregar!”
Em muitos momentos daquele conflito, a fé fora o único abrigo possível. Os capelães eram muito mais do que celebrantes: eram presença, consolo e coragem. Carregavam consigo uma pequena maleta que se transformava em altar improvisado, em uma época em que a missa ainda era celebrada em latim. Também distribuíam terços enviados do Brasil, que os soldados guardavam no bolso da farda ou penduravam no pescoço como quem se agarra a um último fio de proteção.
E enquanto nosso pai combatia os tedescos sob as temperaturas gélidas dos Apeninos, sua família, aqui no Brasil, travava outra batalha, silenciosa, cotidiana, mas não menos dura. Nossa queridíssima Nona Linda, viúva e mulher de fé inabalável, reunia todos os dias os filhos ao redor da mesa simples da casa de madeira. Ali, com o terço entre os dedos, rezavam pela saúde e pela vida do filho que lutava do outro lado do oceano. Era um ritual diário, quase sagrado, que mantinha a família unida e alimentava a esperança quando o coração ameaçava fraquejar.
Da casa, construída em um ponto mais elevado que a estrada, via‑se ao longe o caminho de chão batido que, nos dias de sol, levantava uma fina nuvem de poeira. E era justamente essa poeira que fazia o coração disparar. Naqueles tempos, sem telefone e com pouquíssimos automóveis circulando, a aproximação de um carro quase sempre era motivo de apreensão.
Quando um veículo surgia na curva distante, levantando seu rastro de poeira, a família inteira interrompia o que estava fazendo. Ninguém respirava. O silêncio tomava conta da casa e o temor era sempre o mesmo: que fosse um representante do Exército trazendo a notícia que nenhuma mãe deveria receber.
Aquela estrada tornou‑se um símbolo de angústia. Cada carro que se aproximava representava uma ameaça; cada ronco de motor ao longe fazia a alma estremecer. E, no entanto, todos os dias, depois que a poeira baixava e o silêncio voltava a ocupar seu lugar, Nona Linda retomava o terço com a mesma firmeza. Rezava confiante, como quem compreende que a fé também é uma forma de amor, carinho e proteção.
Jacir J. Venturi, filho do expedicionário Leopoldo Venturi. No dia 13 de maio de 2026, embarcamos para a Itália e, ao longo de 19 dias, percorremos a trajetória dos pracinhas brasileiros. Na companhia de um guia experiente, Mário Pereira, seguimos de van pelos caminhos trilhados por nossos soldados desde Pisa, e na sequência Lucca, Vale do Serchio, Pistoia, Porreta Terme, Castelnuovo, Monte Castelo, Montese, Collecchio, Fornovo di Taro e outros pontos marcantes da campanha da FEB. Como ninguém é de ferro, também turistamos por Roma, Florença, Milão e Lago Como. Reunindo três filhos do expedicionário (Jamil, Neri e Jacir), o sobrinho Ariosnaldo, os netos Fábio, Eduardo, Rennan e Jaline, além da nora Regina, foi uma viagem de memória e gratidão. Para quem tiver interesse no 1º ou 2º artigo, o acesso está disponível nos links a seguir:
1) https://www.geometriaanalitica.com.br/como-o-brasil-entrou-na-2a-guerra-mundial-jacir-venturi
2) https://www.geometriaanalitica.com.br/nospassosdafeb



