Robert Crumb é um artista gráfico e ilustrador, reconhecido como um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos americanos e por seu comportamento assaz polêmico. Seu ponto de partida foi a revista em quadrinhos artesanal Zap Comix, que surgiu publicada artesanalmente em 1968. O primeiro número, desenhado inteiramente por Crumb, foi vendido nas ruas de San Francisco por ele mesmo, sua mulher grávida e um carrinho de bebê, onde deixava as revistas. A Zap Comix literalmente revirou a linguagem do quadrinho americano, expondo as paranoias e taras mais sujas de Crumb, além de satirizar a sociedade de consumo sem piedade.
Estes princípios são reafirmados cinquenta e oito anos depois, como mostram os desenhos de “Tempos Modernos”, coletânea recém-lançada por Crumb pela editora Veneta no Brasil. Estes trabalhos mais recentes, dos últimos dez anos, exibem ainda um pincel mais atento ao grotesco das coisas como elas são, tamanho o detalhismo, por exemplo, do topete do presidente Donald Trump numa história de título autoexplicativo: “Alimentação ruim e penteado ruim destroem a civilização humana”. Para alguns, Crumb é o artista mais influente de sua geração, o mestre que soube traduzir viagens de LSD, fantasias, neuroses e tabus da América em HQs estreladas por personagens como o gato Fritz, o guru Mr. Natural e, muitas vezes, pelo próprio autor.
Robert Crumb nasceu em 1943, na Filadélfia, numa família pobre, disfuncional e religiosa: seu pai ex-marinheiro tocava hinos militares em casa, além de não saber por que Robert e o irmão, em vez de brincar, ficavam desenhando quadrinhos tendo o gato da casa como personagem. Robert foi tema de um documentário intitulado Crumb, lançado em 1994 pelo diretor Terry Zwigoff. O filme foca-se nele e em seus dois irmãos, os três com um certo grau de sociofobia, frutos da criação de um pai severo e uma mãe superprotetora. Há, sobretudo, bastante destaque no irmão mais velho, Charles, e sua influência sobre seu irmão Robert. É narrado, em certo momento, que Charles obrigava seus irmãos a desenharem quadrinhos, na infância.
Crumb começou sua carreira num período marcado por intensas mudanças sociais e culturais, em meio aos anos 60. A Zap Comix influenciou toda uma geração de novos autores, que nos anos posteriores culminou no que hoje é conhecido por Small Press do mercado de quadrinhos norte-americano. Ele se destacou por criar personagens icônicos como Mr. Natural (que pode ser lido como uma sátira de Maharishi Mahesh Yogi e semelhantes, numa época em que era moda gurus espirituais) e Fritz The Cat, um gato boa vida que usa muitas drogas e tem uma vida sexual bastante ativa.
Fechado em seu estúdio, ele consegue, ainda hoje, se autoanalisar e expurgar suas angústias no papel, num desenho tão hachurado e realista quanto cartunesco, conciliando Walt Disney, o estilo de um “Popeye” e as nojeiras da revista “Mad”. Não tem rede social, não usa internet, não vai com frequência a grandes eventos —quando veio à Flip, em 2010, mal saía do hotel— nem dá muitas entrevistas. “Não frequento bares ou cafés. Não vou a ‘baladas’. Não gosto de multidões. Não suporto música pop alta”, ele afirma, completando a lista. Para outros, é um inimigo do feminismo, pervertido, reacionário (recusa-se por exemplo a tomar vacinas) e passadista, só porque poderia passar o resto da vida ouvindo sua coleção de blues com milhares de 78 rpm dos anos 1920 e 1930, uma das poucas coisas que desperta nele algum amor pela humanidade.
Organizada pelo editor Rogério de Campos com a ajuda de Crumb e de sua agente, Lora Fountain, “Tempos Modernos” reúne exemplares desses diferentes períodos, incluindo colaborações com jornais ecologistas e anticapitalistas. Em comum, os trabalhos abordam sua desconfiança da tecnologia, das modas e do sucesso. Algumas delas são assinadas ao lado da mulher, Aline Kominsky-Crumb —uma artista underground pioneira— ou da filha do casal, Sophie, também quadrinista.
Ao comentar as bizarrices hoje produzidas por inteligência artificial, ele adota um tom alarmista. “Estamos construindo enormes ‘data centers’ que exigem vastas quantidades de energia e água para evitar que esses cérebros mecânicos superaqueçam e derretam!”
Muito do volume foi tirado também da revista “Weirdo”. Criada pelo artista em 1981, a publicação refletiu o clima punk da época e foi o lar de Mode O’Day, uma mulher obstinada a fazer parte da panelinha artística de Nova York. Diferente de outras criações do autor, Mode O’Day é bem menos conhecida do público brasileiro, daí seu destaque em “Tempos Modernos”. Ela faz uma dupla inusitada com Doggo, um cão antropomórfico hippie, descrito como um “delinquente sexual” —um título não raro dado ao próprio Crumb. Seu apetite sexual já foi tema de álbuns como “Meus Problemas com as Mulheres” e “A Mente Suja de Robert Crumb”, mas, no novo volume, ele aparece com uma dose de autocrítica —sobretudo nos trabalhos assinados com a esposa. Os cartuns resumem bem uma relação que durou de 1978 até a morte de Aline, há pouco mais de três anos, mostrando um casal com o mesmo humor autodepreciativo e a mesma liberdade sexual, ainda que Crumb, mais velho, agora condene seus impulsos libidinosos do passado. Não à toa, é Aline quem tira sarro dos leitores numa cena em que ele, hipnotizado pela “bunda musculosa” da mulher, monta nela e brinca de cavalinho.
Desde 1991, o casal e a filha mudaram para a comuna medieval de Sauve, no sul da França, a cerca de 750 km de Paris. Lá morreu Aline.
Numa matéria para a Folha de São Paulo, de 21 de abril de 2026, o jornalista Henrique Artuni escreve que: “Não por acaso, a história que encerra “Tempos Modernos” fala da dificuldade do casal com o dinheiro, após a galeria de Crumb vender uma arte original de sua HQ “Gênesis”, de 2009 —uma adaptação fiel ao texto bíblico— por US$ 2,9 milhões. Assustados com o montante, eles vão atrás de um consultor financeiro, que recomenda, curiosamente, investir em gigantes do agronegócio, farmacêuticas e afins. “E os anos 1960, o LSD e tudo o que vivemos? Foi para nada?”, questiona Aline. No fim da mesma página, marido e mulher sobem ao terraço da casa para observar os pássaros. “As melhores coisas da vida são de graça. Não há solução!”, conclui Crumb nessa HQ de raras tintas coloridas.”
“”Ok, eu tiro sarro de mim mesmo, da minha paranoia, mas acredito nas coisas que digo. Minhas preocupações são totalmente genuínas. Mas, sabe, ao fazer quadrinhos, você tem que manter o entretenimento, tem que ver o absurdo, a tolice essencial de tudo isso. ‘Tudo é vaidade’, como diz tão sabiamente o livro de Eclesiastes no Antigo Testamento. Amém, irmão.””
Tempos Modernos
- Preço R$ 99,90 (128 págs.)
- Autoria Robert Crumb, Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb
- Editora Veneta
- Tradução Cris Siqueira e Rogério de Campos
- Organização Rogério de Campos, Lora Fountain e Robert Crumb
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