ANO IV

19/06/2026

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Serjão

19/06/2026
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1989

Pediu que nos servissem água e café. Solícito, ofereceu-me uma cadeira para sentar.

— Você é natural de onde? — perguntou.— Sou de uma cidadezinha do interior paulista respondi, um pouco trêmulo.

— Diga lá, qual cidade?

Perto de Presidente Prudente. Você não vai conhecer.

Pigarreei e prossegui: — Sou um caipira do interior. Nasci em Martinópolis, vim para Curitiba estudar Arquitetura e Urbanismo na UFPR e estou por aqui tentando realizar projetos e sonhando com cinema.

Ele sorriu e perguntou: Em Martinópolis você conhece a Farmácia São Paulo e o farmacêutico Anibal Talavera? A farmácia fica na avenida em frente à Prefeitura.

Fiquei surpreso. Boquiaberto. Quase caí para trás. Pensei: “Esse sujeito é um bruxo! Está lendo minha humilde biografia!”

Respondi: — Claro que conheço! É o farmacêutico da minha família há muitos anos. E a Prefeitura foi construída pelo meu avô, ex-prefeito da cidade, nos anos 1960.

Ele caiu na gargalhada. Em seguida descreveu a estação ferroviária da antiga Sorocabana, a praça principal em frente à estação e continuou:

— Anibal Talavera é meu amigo e cliente. Conheço toda aquela região da Alta Sorocabana. Durante alguns anos fui vendedor de produtos farmacêuticos. Malinha na mão, viajando de trem e ônibus, conheci praticamente todas as cidades da região.

Então voltou ao assunto que nos reunia:— Você está pedindo ao Bamerindus que compre e doe dezesseis latas de negativo Kodak 5347 para um filme que vocês vão rodar no litoral do Paraná. Está bem. A Maria Christina falou muito bem de você e pediu que eu o atendesse. Vou comprar vinte latas. Agora que sei que você é amigo do meu amigo farmacêutico, capriche lá, garoto! Despedimo-nos com a energia de uma nova amizade.

Naquela tarde ensolarada, saí do terceiro andar do edifício do Bamerindus, na Rua XV, tomado por uma alegria vibrante. Em uma semana receberíamos as latas de negativo Kodak. Assim começava minha vida de produtor de cinema.Realizaríamos, em película, o média-metragem Os Desertos Dias, dirigido por Fernando Severo e filmado em Antonina e Morretes.

1994

A convite de Sérgio Reis e Maria Christina de Andrade Vieira, organizamos para o Bamerindus, no Palácio Avenida, o Curso de História do Cinema.

O projeto, a organização e a coordenação teórico-técnica ficaram a cargo da LAZ, de Virginia G. Moraes e de mim. Contamos ainda com a colaboração de Fernando Severo e Chico Nogueira, além do apoio de Marialice Avelar e Daniele Tavares, pelo Bamerindus.

O curso, realizado presencialmente, trouxe a Curitiba nomes como Nelson Pereira dos Santos, Sylvio Back, Lúcia Nagib, Maria Dora Mourão, Wilson Cunha, José Carlos Avellar, Rubens Ewald Filho, Celso Sabadin e Giba Assis Brasil.

Durante mais de uma semana, o auditório permaneceu lotado de estudantes, pesquisadores e apaixonados por cinema. Entre eles estava um então iniciante e já talentoso Marden Machado.Publicamos uma apostila reunindo textos dos palestrantes e professores. Foi um grande sucesso de público e crítica.

1995

Encontrei Leon Cakoff em São Paulo, no café da Livraria Cultura, então instalada no Edifício Copan. Ele relatou as dificuldades financeiras enfrentadas pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O Bamerindus encarregou-me de iniciar as negociações.

— Se você me autorizar, levarei sua proposta ao Sérgio Reis e à Maria Christina, em Curitiba — disse-lhe. Assim começou o trabalho que resultaria na vinda da 19ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para Curitiba, bem como no patrocínio do Bamerindus. Foi uma operação que exigiu grande esforço financeiro e logístico.

Tudo isso, naturalmente, sob a autorização e a condução de Sérgio Reis, Maria Christina, Reinaldo Martinazzo e suas equipes. Naquele período, o talentoso Serjão também prestava serviços ao governo de Fernando Henrique Cardoso, a Mário Covas e a outras importantes lideranças. Mais uma vez, confiou no meu taco — apesar de eu jamais ter jogado sinuca.

Quando Leon comentou que precisávamos de um projetor de cinema, fui até a famosa Boca do Lixo, em São Paulo, e trouxe o equipamento de Hugo Canteruccio, além do projecionista Novelli, trabalhadores incansáveis do cinema paulista.A Mostra aconteceu no Auditório Avelino Vieira, do Bamerindus, na Rua XV. Mais um sucesso. Leon Cakoff ficou felicíssimo. E nós, espectadores paranaenses, tivemos o privilégio de assistir à 19ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pela primeira vez fora da capital paulista, aqui mesmo, na Rua XV.

A partir de 1998, concentrei-me na realização dos longas-metragens Oriundi, Cafundó, Anita e Garibaldi , Dédalo, Aguas Selvagens e em outros trabalhos para televisão.

Sérgio Reis continuou sendo um mestre e conselheiro em diversos momentos, especialmente nos períodos de maior dificuldade. Nos anos mais recentes, visitava meu barracão de produtora em Santa Felicidade e chegamos até a prestar consultoria para o Trem Serra Verde Express. Estas são apenas algumas lembranças, pequenos flashes de uma convivência que muito me honrou. Sérgio Sibel Soares Reis foi um verdadeiro benfeitor. Incentivou profissionais, apoiou projetos e ajudou a transformar sonhos em realidade pelos Paranás, pelos Brasis e mundo afora.

Outros amigos e colegas que conviveram mais de perto com ele certamente poderão escrever melhor sobre sua grandiosa obra e sua inesgotável generosidade.

Eu, porém, não poderia deixar de registrar minha profunda gratidão.

Sérgio Sibel Soares Reis, o nosso Serjão, VIVE!

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