ANO IV

28/07/2026

HojePR

rocio

Solteira, casada, viúva ou desquitada?

28/07/2026
solteira

O ano era 1986. As calouras do curso de Comunicação Social da UFPR eram alvo da curiosidade dos rapazes do segundo ano. Eles se amontoavam na porta da sala do primeiro período, só para espiar as meninas. Parecia fila de cinema. Nem todas davam bola.

Os recém-chegados à faculdade aprendiam a escrever “lead” e mergulhavam em teorias da comunicação, filosofia e história. Anotavam tudo nos cadernos grandes, além das linhas. Era só o começo e não queriam perder nada. Em meio às nuvens de fumaça de cigarro, das quais muitos reclamavam, a vida era boa e ninguém desconfiava.

Certa vez, a turma entrou em alvoroço. Uma carta passava de mão em mão, escrita à tinta, com caligrafia perfeita. Entre risadas e cochichos, chegou até a moça mais tímida da sala: páginas de poesia romântica que falavam de “um amor escondido nas paredes antigas da universidade, impregnadas de saudade.” Ela usava os óculos apenas para enxergar o quadro-negro, pois acreditava que, sem eles, ficava mais bonita – o que explicava não ver nem quem a paquerava.

Disfarçou e guardou o maço apaixonado na pasta mais disputada do ano. Logo descobriu o autor: um colega admirável, inteligente e popular. Mas ela não podia.

Sentiu-se encurralada. Para sair do prédio, teria que atravessar um corredor onde todos ficavam conversando. Ele estaria ali, inteiro e disponível.

A jovem usava calça jeans clara, jaqueta xadrez e sapatilha de verniz preta com laço, naquele dia. Saiu quase correndo, com a elegância possível e, por pouco, não perdeu o sapato. Antes que alguém percebesse, já estava na Rua Quinze, voltando para casa.

Naquele tempo de telefone fixo, o 39-1969 tocava na sala – ou no quarto da mãe, dependendo do grau de constrangimento. E tocou. Era ele. Queria saber se ela havia recebido a carta. Se gostava de poesia. Se podiam conversar. Se haveria alguma chance. Se era comprometida.

Da infância, guardava relatos de mulheres abordadas por homens objetivos: “solteira, casada, viúva ou desquitada?” Sem rodeios, sem lirismo. Ao menos aquele investira em versos. E em esperança, que costuma ser o primeiro erro.

– Você tem namorado?

– Sim, tenho.

Respondeu, com a firmeza que não sentia, e desligou.

Nunca mais tirou os óculos. Passou a ver tudo. Viu os corredores, as janelas, o tempo. Viu escolhas, silêncios. Viu a fila do xerox, os pombos da praça, a cantina lotada, o amor e sua partida. Viu a bondade e a ausência dela. Viu o medo.

Viu a si mesma. E, dentro de si uma coragem escondida, viva, inquieta, chamando-a, enfim, para um encontro sem pressa.

Apenas ela, seus óculos e a certeza de que, se algum dia voltasse a receber cartas de amor, viriam com gramática impecável e, de preferência, acompanhadas de chocolate.

Leia outras colunas da Maria do Rocio Vaz aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário