A crise que atinge o mercado livre de energia elétrica brasileiro ganhou novos contornos com o avanço das dificuldades financeiras de duas das principais comercializadoras do país, ambas sediadas no Paraná. A Tradener entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo uma dívida de R$ 1,69 bilhão, enquanto a Electra passou a renegociar contratos após registrar prejuízo líquido superior a R$ 100 milhões apenas no primeiro trimestre de 2026.
Os casos expõem um problema estrutural que se agravou nos últimos meses no setor de comercialização de energia: contratos firmados em um cenário de preços baixos passaram a se tornar economicamente inviáveis diante da forte alta do custo da energia no mercado de curto prazo.
A Tradener, considerada uma das pioneiras do mercado livre de energia no Brasil, protocolou o pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba. Na ação, a companhia atribui a deterioração financeira a mudanças regulatórias, aumento da volatilidade do mercado e dificuldades operacionais associadas ao Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), indicador que baliza o mercado de curto prazo de energia.
Na prática, o que ocorreu com parte relevante das comercializadoras foi um descasamento entre contratos antigos e a nova realidade do setor. Muitas empresas haviam firmado contratos de fornecimento de energia quando o mercado operava com referências entre R$ 100 e R$ 150 por megawatt-hora (MWh), assumindo o compromisso de entregar energia nesses patamares por períodos mais longos.
Entretanto, a forte elevação dos preços no mercado de curto prazo alterou completamente o equilíbrio econômico dessas operações. Em momentos recentes, o custo da energia passou a oscilar entre R$ 300 e R$ 400 por MWh, elevando drasticamente o custo de reposição para as comercializadoras que precisavam cumprir contratos já firmados a preços muito inferiores.
O resultado foi uma compressão severa das margens financeiras e, em muitos casos, operações deficitárias contínuas.
A própria Tradener afirma ter desembolsado cerca de R$ 180 milhões desde 2024 em decorrência das distorções operacionais e regulatórias enfrentadas no mercado livre de energia.
O cenário também atingiu a Electra Comercializadora, outra empresa paranaense relevante no setor. A companhia adotou uma estratégia diferente da recuperação judicial tradicional e iniciou notificações extrajudiciais a clientes para renegociar contratos de fornecimento de energia.
A alegação da empresa é de desequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. Na prática, trata-se de uma tentativa de reprecificar acordos firmados em outro contexto de mercado, diante de um custo de reposição de energia muito mais elevado do que o previsto originalmente.
O movimento revela que mesmo empresas consideradas estruturadas passaram a enfrentar dificuldades para sustentar contratos fechados antes da escalada dos preços da energia.
A situação financeira da Electra se deteriorou rapidamente. A companhia encerrou 2025 com prejuízo líquido de R$ 268,9 milhões e permaneceu no vermelho em 2026. Apenas no primeiro trimestre deste ano, o prejuízo líquido alcançou R$ 103,6 milhões.
Em meio à crise, a Justiça do Paraná autorizou medidas cautelares favoráveis à empresa, incluindo a suspensão de penalidades aplicadas pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a possibilidade de renegociação de contratos.
O avanço simultâneo das dificuldades envolvendo Tradener e Electra acendeu um alerta dentro do setor elétrico sobre o risco sistêmico no mercado livre de energia. O temor é que o efeito cascata provocado pela inadimplência, renegociações forçadas e quebra de contratos afete outras comercializadoras, geradores e consumidores livres.
O problema ocorre justamente em um momento de forte expansão do mercado livre de energia no Brasil, impulsionado pela abertura gradual do setor para consumidores menores e pelo crescimento do número de empresas migrando para o ambiente de contratação livre.
Especialistas do setor avaliam que a combinação entre volatilidade extrema dos preços, contratos de longo prazo firmados em cenários mais baratos e aumento das exigências financeiras na CCEE criou um ambiente de pressão inédita para parte das comercializadoras.
A crise das duas empresas paranaenses acaba simbolizando uma mudança importante no mercado livre de energia. Contratos que antes representavam previsibilidade e competitividade passaram a carregar riscos financeiros elevados em um cenário de forte oscilação dos preços da energia elétrica.



