ANO IV

04/06/2026

HojePR

Um tal de Márcio

09/08/2022
livro

Meu primeiro livro de crônicas saiu em 1987. Cidades e Chuteiras trazia um volume pequeno de textos, nenhum deles destinado a constar de antologia. O que fazia a diferença era o projeto gráfico, obra de arte criada pelo Miran.

A edição de 500 exemplares foi oferecida aos amigos e não mereceu lançamento com sessão de autógrafos. Algumas resenhas elogiaram o conteúdo, como a de Nilson Monteiro, que encerrava com uma etílica determinação: “Desce redondo feito cachaça”. Jaguar gostou tanto que publicou duas daquelas crônicas no Pasquim.

A questão é que não sobrou nenhum livro na minha estante: até a reserva técnica foi consumida pelos ataques de liberalidade do cronista. A solução veio com os sites de busca, a descobrir exemplares nos recantos mais variados do Brasil, todos a preços escorchantes.

Certo dia, recebo a ligação do Irajá, dono do sebo da Emiliano Perneta, dizendo que estava com um exemplar de Cidades e Chuteiras, autografado, e o venderia a mim por valor razoável. O livro estava em bom estado, pude comprovar – e saciar minha vontade de saber a quem tinha sido autografado.

Pois se tratava de alguém chamado Márcio. A dedicatória era um lugar-comum nesse tipo de escrita, algo como “Ao Márcio, com o apreço e o abraço do Ernani”. Mas embatuquei sobre quem seria o mal educado Márcio. Algumas hipóteses seriam possíveis. Por exemplo, um colega de trabalho, um ex-aluno, ex-funcionário, alguém com quem cruzei em alguma entidade. Descartei os Márcios do Paraná Clube, Nóbrega e Correia, que não fariam tal desfeita.

Não sei se continua vivo o destinatário da dedicatória. Caso esteja, peço com o fervor da minha indignação que não se apresente. O sujeito que fique sossegado no seu canto. A mim não interessa saber quais restrições me fazia a ponto de vender uma obra autografada que lhe foi dada de graça.

Fica o arrependimento de não haver escrito um texto diferente para ele. Algo como “Ao Márcio, com o meu profundo desprezo e a esperança de que se recolha à própria insignificância”.

Talvez isso soe muito radical ou passe um recibo desnecessário. Sei lá. Por ora, vou deixar por isso mesmo.

Para mais noticias acesse HojePR.com

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.