Imunizante contra gripe estará disponível para toda a população a partir de segunda-feira. Boa oportunidade para melhorar nossa cobertura vacinal e reforçar a segurança dos imunizantes
Por Márcia Huçulak*
A partir desta segunda-feira (29/06) a vacina contra influenza (nossa conhecida gripe, que derruba tanta gente nesta época do ano) estará disponível para todos os públicos – não mais restrita aos grupos prioritários. São fases normais do cronograma vacinal, que tem por regra proteger primeiro quem precisa mais.
Novamente este ano os sistemas de saúde do Paraná e do Brasil, que são referência em campanhas de imunização, convivem com o desafio de atingir as metas de imunização.
De alguns anos para cá, a cobertura vacinal contra diversas doenças tem ficado abaixo do patamar necessário para garantir sua eficácia na população como um todo. Situação criada pelas fakenews (em bom português: mentiras) e campanhas anticiência que se espalham feito praga pelas redes sociais — em alguns momentos mais que em outros.
A cobertura vacinal necessária varia, mas costuma ficar entre 90 ou 95% da população, caso contrário os agentes patogênicos vão encontrar um bom número de indivíduos desprotegidos para causarem seus estragos e se reproduzirem entre mais pessoas, colocando em risco a proteção geral das comunidades.
Portanto, sem que haja participação de todos, os prejuízos também serão de todos. Infelizmente, os danos não recaem apenas sobre quem não se vacinou. É uma responsabilidade coletiva.
Vírus e bactérias não reconhecem fronteiras geográficas entre vizinhos, ruas, bairros ou cidades. Também não se importam pelo motivo que levou uma pessoa a não se imunizar. Ao mesmo tempo, são extremamente eficientes em encontrar brechas por onde possam se propagar e agir.
No dia a dia, a baixa cobertura vacinal se reflete em mais pessoas doentes; maior necessidade de atendimento, remédios e tratamentos nas unidades de saúde e hospitais; mais faltas ao trabalho; e, nos casos mais graves, mais mortes, entre outros transtornos.
No caso da gripe, por exemplo, com a vacina o que seria um caso grave, se torna leve; o que poderia ser uma morte (mais comum em idosos), se torna um caso tratável; o que seria um caso leve, nem se desenvolve ou causa menos efeitos.
Benefícios que fazem uma diferença enorme, como bem sabe quem já sofreu com uma gripe pesada. A cobertura, no entanto, está em 41,6% no grupo prioritário (crianças de seis meses a seis anos, idosos e gestantes), cuja vacinação está sendo feita desde março e cuja meta é 90%. Isso que o Paraná é um dos estados com melhor desempenho do Brasil.
Para quem, como eu, trabalha há tanto tempo com saúde, é assustador constatar que danos tão evidentes e graves não sejam suficientes para, por si só, levar as pessoas aos postos de vacinação – apesar das inúmeras e periódicas campanhas de divulgação.
Apesar também dos muitos e muitos anos em que o avanço da imunização vem promovendo continuamente uma melhora extraordinária na saúde e bem-estar da população.
Até os anos 1980, por exemplo, a poliomielite no Brasil matava ou deixava sequelas gravíssimas para o resto da vida. Foi eliminada pela vacina. Mas há risco de voltar se a cobertura não retornar aos 95%.
Se isso não fosse argumento suficiente, os imunizantes se provaram confiáveis ao longo do tempo. A primeira vacina, contra varíola, foi aplicada num ser humano há 230 anos e desde então eficácia dos imunizantes só se consolidou.
O que a turma das fakenews insiste em ignorar é como as vacinas são feitas e os mecanismos de controle. Não é um processo simples, mas é, sim, feito com muita responsabilidade. Até serem autorizados, os imunizantes passam por uma longa e rigorosa cadeia de testes, comprovações e checagens.
Apenas no desenvolvimento da vacina, são três fases, além da etapa pré-clínica, que evoluem na medida em que os resultados são aferidos em cada uma delas. Contemplam incialmente testes em animais, passando para pequenos grupos de voluntários humanos, que crescem até que seja testada em milhares ou dezenas de milhares de pessoas. Mede-se a eficácia do produto, monitora-se os eventos adversos.
Depois disso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) verifica com rigor os estudos envolvidos e o produto em si, antes de conceder o registro ao imunizante. Para entrar no cronograma vacinal do SUS (Sistema Único de Saúde), o Ministério da Saúde ainda promove um novo escrutínio, analisando o impacto sobre a doença a ser tratada, sua incidência na população, a logística, custos etc.
A farmacovigilância, entretanto, não termina aí. Mesmo após a liberação, profissionais de saúde, fabricantes e cidadãos podem relatar eventos adversos raros e/ou graves; e é mantido o acompanhamento da segurança vacinal por parte das autoridades sanitárias.
É preciso ser enfático com quem usa argumentos como “Ah, mas um conhecido da minha tia teve um ataque cardíaco depois que tomou a vacina X”: pode-se afirmar cabalmente que não há relação entre causa (vacina X) e efeito (ataque cardíaco).
O que pode existir é uma coincidência temporal: a pessoa iria enfartar com ou sem vacina. O que precisa ser analisado do ponto de vista da saúde são as condições gerais da pessoa (pré-disposição, obesidade, alimentação, sedentarismo e muitos outros fatores que passam longe da vacina).
Aliás, neste ponto vale a pena destacar que estudos recentes demonstraram que a vacina contra os vírus da influenza reduz em cerca de 20% a 30% a incidência de eventos cardiovasculares graves e protege contra a mortalidade cardiovascular.
Em caso recente aqui no Brasil, o Ministério da Saúde suspendeu a aplicação de uma das vacinas contra a dengue, a Butantan DV, um imunizante novo e que já vem melhorando enormemente o combate à doença – houve redução de 97% no número de mortes pela doença!
Ao contrário do que possa parecer, trata-se de uma medida que reforça ainda mais a segurança de longo prazo do imunizante. Vejam: foram aplicadas 500 mil doses no público prioritário e ocorreram 42 casos com sinais de alerta (ou seja, 0,008%), como fortes dores abdominais, sendo duas mortes suspeitas (ou 0,0004%). A suspensão temporária foi feita por absoluta precaução, para que se investigue com ainda mais rigor a possibilidade de relação entre os problemas relatados e a vacina.
Trata-se, portanto, de um exemplo de que os mecanismos de segurança e avaliação estão funcionando. Precaução e transparência, de um imunizante que ajudou a reduzir drasticamente as mortes por dengue.
Construído ao longo de muitos e muitos anos de um trabalhoso processo baseado em ciência e ardorosos estudos, o robusto sistema que rege as vacinas ao redor do mundo, todavia, não resistiu às campanhas de difamação, que vimos com mais vigor, principalmente, a partir da pandemia de covid-19. A irresponsabilidade de muita gente grassou solta — e matou gente.
Estamos diante de um desafio como sociedade, que é retomar nossos índices históricos de vacinação e fazer com que o Brasil –e particularmente o Paraná e Curitiba – continuem sendo exemplo planetário de imunização.
Temos muitos problemas sérios para enfrentar em diversas áreas. Poderíamos estar empenhados em avançar ao invés de ter de lutar para evitar um retrocesso naquilo que funciona, que é a vacinação no SUS.
Que a virada comece nesta segunda-feira, com todo mundo se imunizando contra a influenza.
Viva a saúde, as vacinas e a ciência!
* Márcia Huçulak é deputada estadual (PSD-PR) e ex-secretária de Saúde de Curitiba, onde liderou o combate à pandemia de covid-19. Foi gestora de saúde por 36 anos. Tem mestrado em Planejamento de Saúde pela Universidade de Londres e especialização em Saúde Pública pela Fiocruz.



