Vick Milagrosa erguia a taça de champagne como quem brindava não apenas o presente, mas a improvável coleção de tempestades que havia sobrevivido. Sentada sobre uma elegante motocicleta Vespa, estacionada à sombra de um majestoso pinheiro-do-paraná, ela aguardava o retorno do namorado, Gerardo, italiano de nascimento, cozinheiro por vocação e cavalheiro por insistência. Fora buscar a cesta do piquenique que fariam sob as araucárias de Campo Largo, onde o vento parecia soprar mais devagar e até os sabiás cantavam em italiano, ou quase isso.
A felicidade tinha endereço novo.
Depois de muitas preces a Santo Antônio — que certamente já devia reconhecer sua voz antes mesmo do primeiro “amém” — Vick finalmente encontrara um amor tranquilo, desses que chegam sem buzinar, embora conduzidos por uma Vespa.
Enquanto saboreava o espumante, as lembranças do antigo casamento surgiam como fotografias amareladas que o tempo insistia em devolver. Seu ex-marido era conhecido locutor esportivo e proprietário de um restaurante em Santa Felicidade. O estabelecimento vivia lotado de jogadores de futebol, preparadores físicos, dirigentes, empresários e atletas musculosos, donos de tatuagens que pareciam mapas rodoviários e de automóveis importados, alguns tão blindados que davam a impressão de resistirem até às críticas da sogra.
Durante anos, Vick acreditou que aquelas intermináveis viagens do marido eram simples compromissos esportivos. Futebol aqui, campeonato acolá, concentração acolá de novo… Parecia que o calendário da bola não conhecia férias.
Até que um dia a verdade entrou em campo sem pedir licença.
Descobriu que o marido mantinha um relacionamento amoroso com um conhecido técnico de futebol. Os dois viajavam juntos para acompanhar partidas do time do coração, voltando sempre carregados de lembranças: camisas autografadas, chuteiras assinadas por craques, fotografias exclusivas e uma coleção de histórias que jamais apareciam nas transmissões esportivas. Em determinado momento, o ex-marido resolveu eternizar aquela fase com diversas tatuagens em partes bastante discretas da anatomia, decisão que deixou até o tatuador intrigado quanto ao catálogo de locais disponíveis.
Vick percebeu que havia perdido o casamento, mas não o bom humor.
Vieram os advogados, naturalmente. Depois, os psicanalistas, que ouviram pacientemente capítulos suficientes para publicar uma enciclopédia sentimental. Houve meses de terapia, cafés sem açúcar, lenços de papel, caminhadas, silêncios e muitas conversas com amigas especialistas em transformar tragédias em gargalhadas.
Pouco a pouco, ela compreendeu que certas despedidas chegam fantasiadas de desastre, mas são, na verdade, um extraordinário livramento.
Nunca mais voltou ao restaurante de Santa Felicidade. Nem por curiosidade gastronômica. Preferia guardar distância das lembranças e também do cardápio, que lhe despertava mais nostalgia do que apetite.
Campo Largo ofereceu-lhe uma segunda temporada da vida.
Foi ali que conheceu Gerardo, um italiano que tratava panelas com o mesmo respeito dedicado aos grandes violinos de Cremona. Como verdadeiro Buon Chef di Cucina, conquistava clientes preparando uma polenta mexida lentamente com colher de pau, acompanhada da tradicional linguiça de Blumenau. O ritual era quase litúrgico. A colher desenhava círculos pacientes na panela enquanto o aroma invadia a pousada, atraindo hóspedes e moradores muito antes do almoço.
Quem experimentava repetia.
Quem repetia recomendava.
Quem recomendava acabava voltando.
Gerardo dizia, sorrindo, que a polenta não admitia pressa, assim como o amor verdadeiro. Vick concordava. Afinal, ambos precisavam ser mexidos com carinho, nunca com ansiedade.
Ao longe, ela viu o namorado retornar carregando a cesta do piquenique. Vinham queijos, salames, uvas, pães italianos e uma sobremesa preparada por ele em segredo. Antes de chegar, Gerardo abriu os braços e perguntou:
— Andiamo, amore?
Ela sorriu.
Olhou para a Vespa reluzente, para as araucárias desenhando o céu e para a taça quase vazia.
Pensou que Santo Antônio talvez realmente tivesse atendido às suas preces. Não lhe devolvera o passado. Fizera coisa muito melhor: entregara-lhe um futuro.
Montou na Vespa, abraçou o italiano pela cintura e partiram estrada afora.
Há quem procure a felicidade em carros importados, coleções de autógrafos ou tatuagens espalhadas pelo corpo.
Vick Milagrosa descobriu que ela cabe perfeitamente numa colher de pau, numa panela de polenta fumegante, numa Vespa italiana e, sobretudo, na paz de quem finalmente entende que certos fins não são derrotas.
São apenas o começo da melhor volta por cima.
E assim, entre araucárias, risadas e o perfume da linguiça de Blumenau, a vida seguiu acelerando… sem nunca ultrapassar o limite do bom senso.
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