Diz uma antiga sabedoria que o verdadeiro caráter de um homem é revelado quando ele se sente desafiado por quem é desprovido de poder. No teatro político brasileiro, assistimos hoje a um espetáculo deprimente onde as cortinas da democracia são puxadas para esconder o autoritarismo de quem deveria ser seu guardião. O episódio recente envolvendo o ex-governador Romeu Zema, ameaçado por exercer o direito fundamental à crítica — travestida de sátira — contra o ministro Gilmar Mendes e a postura do STF (Supremo Tribunal Federal), é o sintoma final de uma República que adoeceu de soberba.
Zema, um cidadão que pauta sua vida pela austeridade e pelo pragmatismo mineiro, tornou-se o alvo da vez não por um erro administrativo ou por fraudes, mas por um suposto “crime” de opinião. Quando a ironia e o humor passam a ser tratados como ameaças institucionais passíveis de inquéritos e punições, cruzamos o Rubicão. Deixamos de viver sob a égide da lei para vivermos sob o império da vontade de poucos. A toga, que deveria ser o símbolo da imparcialidade e da contenção, transformou-se em uma armadura medieval, usada para investir contra qualquer um que ouse apontar que o rei — ou o ministro — está nu. Nem mesmo quando o Brasil era monarquia, tivemos absurdos tão escancarados.
É imperativo separar o joio do trigo: a instituição Supremo Tribunal Federal é fundamental para o equilíbrio dos poderes – apesar de precisar de reformas. No entanto, uma instituição é feita de homens, e quando esses homens se colocam acima da Constituição que juraram defender, eles deixam de ser magistrados para se tornarem déspotas. O Brasil não está sendo prejudicado pela existência de uma Suprema Corte, mas pela conduta de quem a utiliza como um porrete ideológico. O que vemos hoje é uma inversão de valores sem precedentes: criminosos beneficiados por filigranas jurídicas enquanto cidadãos e representantes eleitos são silenciados pelo “crime” de pensar e expressar sua indignação.
A censura, que o ministro Gilmar Mendes pretende aplicar, é como uma ferrugem que começa silenciosa em um canto qualquer da estrutura e, se não for combatida, acaba por colapsar todo o edifício. Hoje é Zema; amanhã será qualquer um de nós que discorde da cartilha oficial ditada dos gabinetes de Brasília. O silêncio diante dos desmandos não é prudência, é cumplicidade. A história não costuma ser gentil com aqueles que, em tempos de crise moral, optaram pela neutralidade confortável enquanto a liberdade era asfixiada.
Precisamos, urgentemente, resgatar o senso crítico e a coragem civil. O Brasil é, e sempre será, maior do que qualquer vaidade travestida de autoridade. Mas essa grandeza só se manifestará se formos capazes de dizer um basta definitivo a esse estado de coisas. E o caminho para esse basta é pela via democrática e institucional.
O grande escudo da sociedade contra o autoritarismo judiciário deveria ser o Congresso Nacional. Contudo, o que vemos é uma paralisia decorrente do “rabo preso” e dos mesmos que se apossaram das cadeiras pensando no próprio umbigo. Muitos parlamentares, enredados em processos e favores, tornaram-se reféns das togas, trocando a prerrogativa de fiscalizar pela conveniência de evitarem perseguição.
A lição que fica para o eleitor é clara: nas próximas oportunidades é preciso preencher as cadeiras do Legislativo com homens e mulheres que tenham a ficha limpa e o espinhaço ereto, princípios e valores. Precisamos de representantes que estejam livres de favores aos tribunais e que tenham a coragem de restaurar o equilíbrio entre os poderes, utilizando os mecanismos constitucionais de freios e contrapesos que hoje estão enferrujados pela covardia.
O caso de Romeu Zema é um despertar. Que sua resistência inspire a nação a frear o cabresto. Que cada sátira, cada crítica e cada manifestação de indignação seja um lembrete aos que se julgam divindades: no Brasil, o poder ainda emana do povo, e as togas do STF, por mais luxuosas que sejam, ainda devem obediência à mesma Lei que rege o mais simples dos cidadãos. O Brasil é gigante, e sua liberdade não cabe no bolso de nenhum censor.
Zema, siga firme mostrando este castelo de privilegiados descolados da realidade e da lei.
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2 comentários em “Zema, o Brasil é maior que as togas despóticas”
Perfeito Luis Mário. Como sempre uma análise perfeita da nossa situação atual.
Bom dia Luís Mário
Como sempre certeiro em suas análises, mas confesso que está ficando difícil manter as esperanças em um Brasil que realmente dê certo.
São os errados que comandam tudo nesse país, iluministros que usurpam competências do legislativo, soltam criminosos e prendem quem tem o direito de se manifestar e de se expressar.
Estão colocando uma mordaça ou um cabresto virtual no povo para que não se manifestem mais.
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