ANO IV

25/06/2026

HojePR

POLÍTICA

O jogo volta para dentro

29/03/2026
palácio

Por João Zisman

O ambiente político no Paraná mudou de qualidade nos últimos dias, e isso começa a aparecer menos nas declarações e mais no comportamento dos atores. Ratinho Junior voltou a concentrar o processo ao seu redor e, a partir daí, a base retomou um padrão que estava se perdendo.

O alinhamento voltou a existir, mas o dado mais relevante é outro. A base voltou a ter entusiasmo. Isso altera a dinâmica do jogo. Prefeitos, deputados e lideranças deixam de atuar de forma isolada e passam a operar com uma leitura comum, o que dá consistência ao campo mesmo sem a definição imediata de um nome.

Greca, Curi e Guto permanecem colocados, mas o ambiente entre eles já não é de disputa aberta. O que se observa é uma acomodação em torno de um mesmo eixo, aguardando a decisão que virá do centro do processo. Isso reduz desgaste interno e permite que o grupo funcione de forma mais organizada.

Os partidos médios perceberam essa mudança rapidamente. MDB e União Brasil não estão mais na posição de quem observa. Passaram a integrar a construção. A chapa que começa a ser desenhada não será restrita ao PSD e vai depender da capacidade de acomodar esses atores com espaço real. Nesse contexto, Alvaro Dias aparece como nome funcional para o Senado, alguém que amplia o alcance da composição sem gerar tensão interna. Ricardo Barros também se insere nesse cenário, provavelmente mais como articulador do que como candidato, com papel relevante na construção desse arranjo.

Há ainda um ativo político que ganha relevância silenciosamente nesse desenho: Eduardo Pimentel. Prefeito de Curitiba, com legitimidade recente e baixa rejeição interna, ele reúne características que o colocam como alternativa real para a cabeça de chapa. Não carrega desgaste dentro do grupo e tem capacidade de unificar diferentes correntes. É um nome que resolve mais problemas do que cria.

Mas a entrada de Pimentel não é uma decisão isolada. Ela abre uma equação política imediata. Para disputar o governo, ele teria que deixar a prefeitura, e isso levaria Paulo Martins ao comando da cidade. Martins é do Novo, partido que hoje se alinha ao campo de Moro com a presença de Deltan Dallagnol. A pergunta deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser política: Martins permaneceria no Novo e, mesmo assim, assumiria uma prefeitura vinculada ao projeto de Ratinho, ou teria que reposicionar sua filiação para se alinhar à nova realidade?

Esse ponto ainda não está resolvido, mas já é considerado nos bastidores como uma variável concreta da equação. Não é detalhe. É parte da decisão.

Do outro lado, Moro ganhou centralidade ao assumir o PL no Paraná e consolidar sua posição como candidato ao governo. Esse movimento trouxe visibilidade, mas também gerou reação. Lideranças do União Brasil, entre deputados, prefeitos e vereadores, começaram a se afastar, incomodadas com um ambiente em que o espaço político já aparece previamente delimitado.

A escolha por Deltan Dallagnol para o Senado reforça essa linha mais fechada, mesmo diante das incertezas jurídicas. Cristina Graeml ficou fora dessa composição, mas não perdeu espaço político. Segue em circulação e já é vista como um nome que pode ser absorvido em outro arranjo, inclusive no campo do próprio governo, caso a montagem da chapa exija novos pontos de equilíbrio.

A situação do PL no estado também mudou de forma relevante. Filipe Barros assume o comando de um partido que perdeu, em poucos dias, grande parte da sua base municipal. A debandada foi expressiva e altera a natureza da estrutura disponível. O PL mantém candidatura competitiva e visibilidade, mas passa a depender mais do desempenho do candidato do que da capilaridade que antes possuía.

O cenário começa a se organizar em bases mais claras. De um lado, um campo que volta a operar com alinhamento interno e base mobilizada. Do outro, uma candidatura já estruturada, mas que ainda precisa ampliar sua capacidade de acomodação política.

A eleição entra em uma fase em que organização pesa mais do que antecipação, e em que a consistência do campo passa a ser determinante para sustentar o processo até a definição final.

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