O vereador Eder Borges, do Partido Liberal, voltou ao Conselho de Ética da Câmara Municipal de Curitiba. Convenhamos, já não parece exatamente uma novidade.
Desta vez, o processo surgiu após o episódio em que o parlamentar simulou uma arma de fogo durante uma sessão plenária marcada por tensão e confusão. E vale registrar um detalhe importante, a iniciativa para que o caso fosse analisado formalmente partiu do presidente da Câmara, Tico Kuzma, que encaminhou a situação para apuração da Corregedoria. Ou seja, o entendimento dentro da própria Câmara foi de que o espetáculo ultrapassou os limites mínimos do aceitável. E isso diz muito.
Porque a política brasileira entrou numa fase curiosa em que determinados parlamentares passaram a acreditar que mandato eletivo é licença para performance permanente. O plenário deixou de ser espaço de debate e virou cenário de vídeo curto para rede social. Não importa mais discutir orçamento, mobilidade urbana, saúde pública ou educação. O importante é produzir corte para internet, gerar indignação, viralizar entre seguidores e alimentar a máquina da polarização.
Nesse ambiente, Eder Borges virou praticamente um personagem profissional da chamada política da lacração, onde tudo precisa ser exagerado, precisa virar confronto moral absoluto, parecer uma batalha épica entre “o bem” e “o mal”, ainda que o assunto seja uma simples discussão administrativa dentro da Câmara Municipal.
E o problema é que isso não acontece pela primeira vez. O vereador já acumula um histórico suficientemente longo de polêmicas, confrontos e episódios incompatíveis com a liturgia mínima do cargo. Inclusive, já chegou a ser cassado pelos próprios colegas parlamentares após condenação relacionada à divulgação de conteúdo falso envolvendo professores e sindicatos.
E aqui talvez esteja um dos pontos mais preocupantes dessa história toda. A cassação foi revertida posteriormente pela Justiça. E é evidente que todo parlamentar tem direito à ampla defesa, ao contraditório e às garantias constitucionais. Mas o Brasil parece ter criado uma distorção institucional perigosa. Praticamente nenhuma punição política consegue permanecer de pé.
Tudo acaba transformado em recurso, liminar, embargo, interpretação processual ou revisão técnica. A sensação transmitida à sociedade é simples, independentemente do que aconteça, sempre existirá uma saída jurídica capaz de desfazer qualquer consequência política mais séria. Isso gera um incentivo perverso. Porque se o sujeito percebe que dificilmente sofrerá consequências reais, o comportamento naturalmente tende a piorar. A impunidade institucional vai criando figuras cada vez mais performáticas, mais agressivas e mais irresponsáveis. Eder Borges parece encaixar-se exatamente nesse modelo contemporâneo de político que confunde representação popular com militância digital permanente.
Uma das performances mais grotescas de Borges talvez tenha sido sua declaração de que votaria contra qualquer projeto apresentado por vereadores do PT, mesmo que a proposta fosse positiva para Curitiba. É difícil imaginar definição mais precisa de imaturidade política.
O parlamentar não está ali para avaliar quem escreveu um projeto. Está ali para analisar se a proposta beneficia ou prejudica a cidade. Mas na lógica da lacração permanente, mérito deixou de importar. O que vale é o teatro ideológico. Se o projeto melhora a vida da população, pouco importa. Se veio “do lado errado”, vira inimigo automático. A ironia é que a própria realidade costuma desmoralizar esse tipo de discurso radical rapidamente.
O próprio PL se aproximou politicamente do PT na Assembleia Legislativa do Paraná, em episódio que narrei na semana passada (veja aqui). Porque na política real, até os radicais descobrem rapidamente que princípios absolutos costumam ser bastante flexíveis quando aparece conveniência.
O problema é que figuras como Eder Borges ajudam a transformar a política em caricatura. O plenário vira palco, o mandato vira performance e a cidade, que deveria ser o centro do debate, desaparece atrás da fumaça da lacração contínua.
É aí que a democracia vai se deteriorando, justamente quando a política deixa de ser instrumento de construção coletiva e vira apenas entretenimento radicalizado para torcida organizada.
E talvez seja exatamente isso que explique o desgaste crescente da imagem dos parlamentos brasileiros. Boa parte da população já não olha para Câmaras Municipais, Assembleias e Congresso como espaços de formulação política séria. Olha como reality show institucional. Em parte porque alguns parlamentares fazem questão de reforçar essa percepção diariamente.
No caso de Eder Borges, o novo processo no Conselho de Ética talvez seja apenas mais um capítulo de uma trajetória marcada muito mais por confrontos e polêmicas do que por produção legislativa relevante. E isso deveria preocupar inclusive os eleitores que simpatizam ideologicamente com ele.
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