Ah, a política! Esse ecossistema fascinante onde a lógica desafia a gravidade e a memória curta do eleitor é tratada como recurso natural renovável. Na última segunda-feira (29), assistimos a um espetáculo de pura mágica ilusionista, digno dos palcos mais mambembes do nosso subdesenvolvimento ético. O deputado estadual Fábio Oliveira, abrigado sob a legenda do Partido Novo, aquele partido que nasceu prometendo o frescor da ética imaculada, mas que parece ter aprendido os velhos truques de salão com uma velocidade que faria inveja aos mais carcomidos caciques do século passado, fez uma afirmação sem qualquer respaldo na realidade ao falar da duplicação da BR-277 em Guarapuava.
Durante entrevista concedida na segunda-feira (29) ao portal Rede Sul de Notícias, ao lado de seu colega partido, o deputado cassado Deltan Dallagnol, Oliveira decidiu que as leis da contabilidade pública são meras sugestões. Sem um mísero tremor na voz, sem um rubor sequer na face, o parlamentar, que apoia a pré-candidatura do senador Sergio Moro ao Governo do Paraná, operou o milagre e afirmou, categoricamente, que a obra teria sido realizada com recursos recuperados pela Operação Lava Jato.
O único e trágico detalhe que teima em estragar essa ficção hollywoodiana chama-se “realidade”. E os registros oficiais, essa chatice burocrática, desmentem o herói do Novo sem qualquer pudor.
A verdade, esse conceito tão fora de moda nos gabinetes que flertam com as fake news, é que a obra de R$ 123,5 milhões foi inteiramente bancada pelo Tesouro Estadual, fruto de uma articulação direta e puramente executiva do governador Ratinho Junior e de seu então secretário de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex. Embora a rodovia seja federal e a União estivesse bem confortável em sua inércia de décadas, foi o Governo do Paraná que puxou para si a responsabilidade e o talão de cheques para entregar, em abril de 2024, os 6,2 quilômetros de pistas duplicadas, vias marginais e passarelas que aliviaram a vida de Guarapuava.
Aparentemente, o que vale para o deputado Fábio Oliveira é o verniz e o homem precisava reaparecer. Se puxarmos um pouquinho a memória lembraremos que o deputado passou uma longa temporada habitando as sombras densas do limbo parlamentar. E não foi por acaso. Ele sumiu dos holofotes após o fiasco de tentar emplacar na Assembleia Legislativa um projeto verdadeiramente estapafúrdio, desenhado com o primoroso requinte de prejudicar o consumidor paranaense. Ele pretendia reduzir de 30 dias para míseros cinco dias o prazo de negativação de consumidores inadimplentes. O projeto, obviamente, não passou. Levou uma surra de 44 votos contrários contra apenas um a favor (o dele próprio), deixando apenas o rastro do mico e o recolhimento estratégico do autor à insignificância do plenário.
Após esse sumiço digno de quem tenta fazer com que o eleitor esqueça as bobagens cometidas, Oliveira ressurge endossado pela conivência sorridente de Dallagnol. A tática é velha, já que não há legado próprio para apresentar, sequestra-se o protagonismo alheio. Tenta-se apagar o mérito do governo estadual para carimbar no asfalto alheio um selo falso de “herança da República de Curitiba”.
É um espetáculo triste e lamentável, mas tragicamente pedagógico. Serve para nos lembrar que o oportunismo político não tem ideologia, não respeita as cores partidárias originais e adora um asfalto quente pago pelo erário para desfilar suas falácias. Ao deputado Fábio Oliveira, amigo de fé irmão camarada de Moro, meus sinceros parabéns pelo cinismo de alta octanagem. O Paraná agradece a comédia, mas ainda prefere a verdade dos fatos.
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