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25/06/2026

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A política selfie ou o vereador que aparece muito, mas resolve pouco

12/03/2026
kilter sorrindo

Caros leitores, a política contemporânea descobriu uma fórmula simples de produtividade simbólica. Aparecer equivale a agir. Não resolve, mas rende.

Nesta semana, Curitiba exportou mais um episódio desse gênero. Um vereador irrompeu a Praça Nossa Senhora de Salette para fiscalizar a Assembleia Legislativa do Paraná, instituição à qual não pertence, em relação a um processo que não conduz e sobre o qual não tem qualquer atribuição formal.

Não foi uma visita institucional. Foi criação de conteúdo.

Diante das câmeras, o vereador Guilherme Kilter (Novo) resolveu cobrar o Conselho de Ética da Casa e provocar diretamente deputados, especialmente Renato Freitas, cujo caso estava em pauta.

O gesto produziu algo raro na política paranaense: uniu esquerda e direita em torno de um consenso. Não sobre o mérito do processo, mas sobre o constrangimento e indignação causado pela intervenção do jovem e inexperiente vereador.

Deputados de espectros ideológicos opostos reagiram com igual irritação. Não por corporativismo, como se poderia supor, mas por uma razão mais simples: a postura de Kilter é intolerável.

O episódio foi classificado, nos bastidores, como papelão. E papelão, ao contrário do aço, não sustenta instituições.

O mais curioso é que a cena não teve consequência prática alguma. Nenhum rito foi acelerado, nenhuma decisão foi alterada, nenhum procedimento foi revisto. Produziu apenas aquilo que já nascia destinado a produzir: visibilidade.

Não se trata, infelizmente, de um evento isolado. O vereador em questão é useiro e vezeiro nesse tipo de performance itinerante. Onde há conflito potencial, há deslocamento. Onde há plateia possível, há pronunciamento. Onde há câmera, há indignação pronta.

Kilter, assim como outros vereadores de Curitiba, ainda não entendeu a função e os deveres de um vereador. Um parlamentar mais experiente atribui as mancadas de Kilter à tenra idade. “É um menino ainda”, esclarece paternalmente.

Menino, de fato, no sentido político do termo, aquela fase em que se confunde mandato com palco e fiscalização com performance. A adolescência institucional é um período curioso. Acredita-se que toda indignação é histórica, todo gesto é revolucionário e toda câmera é necessária.

O problema é que a Câmara Municipal não é um centro de treinamento para influenciadores cívicos. É um órgão legislativo. Espera-se que seus membros, independentemente da idade cronológica, saibam distinguir entre produzir conteúdo e produzir resultados.

A política brasileira já teve jovens brilhantes e idosos desastrosos, portanto a certidão de nascimento não explica tudo. O que distingue um novato promissor de um novato barulhento é a compreensão de que mandato não é estágio probatório em visibilidade.

Há jovens que chegam para aprender o funcionamento da máquina pública. Outros chegam convencidos de que vieram consertá-la com um celular na mão e uma indignação portátil no bolso.

Talvez seja apenas uma fase. Alguns superam quando descobrem que leis não são aprovadas por engajamento e que contratos não são fiscalizados por stories. Outros persistem até o fim do mandato, na esperança de que o algoritmo os reeleja.

Curitiba, por tradição, sempre produziu políticos de perfil técnico e discreto. A cidade agora experimenta um modelo alternativo: o vereador em modo beta permanente, com muita atualização e pouca estabilidade.

A cidade que elegeu Kilter, por outro lado, segue com seus problemas menos cinematográficos. Transporte coletivo pressionado, saúde sob demanda crescente, planejamento urbano exigindo acompanhamento constante, contratos públicos complexos. Nada disso oferece antagonistas claros nem cortes dramáticos de 30 segundos.

Fiscalizar o Executivo municipal exige leitura de documentos. Produzir leis exige articulação. Ambas são atividades incompatíveis com o ritmo da política selfie.

Há também um histórico revelador. Em episódio anterior, ao tentar protagonizar outra intervenção performática em ambiente universitário federal, o vereador acabou envolvido em confusão física. Uma cena que, embora lamentável, ilustra bem o padrão do parlamentar. Deslocamento até um espaço alheio, provocação, tensão e, claro, registro audiovisual.

Não parece aprendizado institucional. Parece roteiro.

O problema não é a discordância política. Ela é saudável e necessária. O problema é quando o mandato se transforma em instrumento de autopromoção permanente, como se a função pública fosse um canal pessoal de transmissão ao vivo.

Vereadores são eleitos para legislar sobre a cidade e fiscalizar o prefeito, não para auditar, constranger ou protagonizar episódios em outras esferas de poder. A Constituição, nesse ponto, é menos flexível do que o algoritmo.

Mas talvez estejamos exigindo demais do menino. Exercer o mandato que o eleitor lhe conferiu é algo monótono, lento, técnico e invisível. Lacrar é instantâneo, emocional e altamente compartilhável. É bacana! E entre os projetos de lei e o reels, a escolha parece óbvia.

No fim das contas, o vereador influencer cumpre uma função moderna: produzir sensação de atividade política contínua, mesmo quando nada efetivamente muda. É uma espécie de iluminação pública simbólica, não resolve o problema estrutural, mas cria a impressão de movimento.

Curitiba, cidade acostumada a planejamento e discrição administrativa, agora convive com representantes que preferem o enquadramento perfeito ao resultado imperfeito.

A política selfie tem essa vantagem: aparece muito.

Resolver, legislar e fiscalizar o Executivo municipal, que é para isso que Kilter foi eleito, como se sabe, dá bem mais trabalho.

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