
Morreu recentemente, aos cem anos de idade, Eugen Gomringer o precursor da Poesia Concreta. Pela primeira vez, um movimento literário importante foi criado e difundido por poetas latino-americanos. Gomringer nasceu em 20 de janeiro de 1925, em Cachuela Esperanza, na Bolívia, filho de pai suíço e mãe boliviana. Bem mais tarde, contaria com o auxílio luxuoso dos brasileiros Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos para espalhar mundialmente a boa nova do Concretismo. Ao longo de sua longa vida, Gomringer dedicou-se à experimentação estética, ao diálogo intercultural e à busca incansável pela essência da linguagem, transformando o modo como o texto é percebido e vivenciado.
Sua infância foi marcada pela convivência entre culturas latino-americana e europeia. Crescendo na Bolívia, ele teve contato desde cedo com o espanhol, o alemão e o francês, formando uma visão de mundo permeada pela diversidade linguística. Ainda jovem, mudou-se com sua família para Berna, na Suíça, onde aprofundou seus estudos e laços com a tradição germânica. Essa vivência multicultural tornou-se uma das marcas de sua escrita, inspirando sua busca por uma linguagem universal e acessível. Foi na Europa que seguiu seus estudos, cursando Economia e História da Arte nas universidades de Berna e Roma, entre 1946 e 1950. Esta formação acadêmica foi crucial para o desenvolvimento de seu pensamento. Sua capacidade para integrar diferentes disciplinas, como a economia, a arte e a poesia, o levou a explorar novas formas de expressão artística e literária.
Durante seus anos de formação, a Europa viveu uma grande transformação cultural e política, marcada pelo Pós Guerra, pela Reconstrução e pelo auge dos movimentos de vanguarda. Ao largo de sua carreira, seria testemunho de uma série de movimentos artísticos que iam desde o surrealismo até o minimalismo, influências que, de alguma forma, marcaram sua obra e sua capacidade de jogar com as formas e os significados.
Gomringer iniciou sua trajetória literária nos anos 1940 e seus primeiros textos já revelavam inquietação com a estrutura tradicional do poema, aproximando-se da ideia de uma poesia visual, espacial e sintética. O marco fundamental da sua carreira ocorreu no início dos anos 1950, com a criação de sua “poesia concreta”. Inspirado pelo movimento construtivista, pela Bauhaus e pelo concretismo nas artes, Gomringer defendia que a linguagem poética podia ser reduzida a elementos essenciais, criando significados não apenas pelo conteúdo, mas pela forma e pela estrutura. Em seus poemas, palavras isoladas ou agrupadas se dispõem em padrões geométricos, formando uma espécie de arquitetura verbal. O poema “silêncio”, composto apenas pela palavra “silêncio” repetida em diferentes posições na página, tornou-se um ícone dessa abordagem inovadora.
Em 1953 publica seu primeiro livro de poemas “Konstellationen”, considerado por estudiosos como Emmet Williams e Milton KIonsky o marco inicial da “poesia concreta”, ainda que esse nome não tenha surgido aí, mas sim no “Manifesto da Poesia Concreta”, do sueco-brasileiro Óyvind Fahistróm, também de 1953. Os poemas de “Konstellationen” lançam mão de processos racionais de composição semelhantes aos da arte concreta do suíço Max Bill, com quem Gomringer trabalharia de 1954 a 1958. Gomringer foi secretário de Max Bill (que já fazia “pintura concreta” desde os anos 30) na Escola de Design de Ulm, uma instituição de ensino com forte influência do concretismo.
O “movimento” da poesia concreta, no entanto, parece só ter se configurado como tal com as publicações e exposições que se espalharam pelo mundo na segunda metade da década de 50, entre elas, de modo pioneiro, a Exposição Nacional de Arte Concreta (1956/57), realizada em São Paulo e Rio de Janeiro, onde é fundada a poesia concreta brasileira pelos três poetas paulistas do grupo “Noigandres” (Augusto de Campos, Décío Pignatari e Haroldo de Campos) e os três “cariocas” (Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias-Pino).

“Unidade Tripartida” do artista suíço Max Bill (1908 – 1994)
Esta obra recebeu o primeiro prêmio de escultura na Primeira Bienal de São Paulo, em 1951. A unidade tripartida é produto das experiências que iriam se consolidar no trabalho de Max Bill. Nela se vê explorado o conceito matemático de Moebius, isto é, a famosa fita de Moebius que em seu desdobrar mostra a capacidade de infinitude na finitude da fita. Dessa fita, Bill propõe um desenvolvimento geométrico da forma no espaço. Naturalmente, os irmãos Campos e Décio Pignatari viram esta obra ao vivo, o que os influenciaria para aderir ao Concretismo alguns anos depois.
A partir dos anos 1950, Gomringer iniciou diálogo intenso com artistas, escritores e teóricos do mundo todo, viajando frequentemente e participando de encontros, conferências e publicações. Sua obra foi traduzida para dezenas de idiomas, consolidando sua importância como um dos pais da poesia concreta internacional. Além do Brasil, o movimento se expandiu para países como Alemanha, Inglaterra, Itália, Rússia e Japão, influenciando tanto a literatura quanto as artes visuais. Gomringer colaborou com revistas literárias, instituições culturais e exposições, promovendo o intercâmbio de ideias inovadoras e estimulando novas gerações de poetas e artistas experimentais.
Em 2002, três pioneiros da poesia concreta (os brasileiros Décio Pignatari e Augusto de Campos e o boliviano Eugen Gomringer) reuniram-se no pavilhão do Brasil no Salão do Livro de Genebra. Augusto de Campos não conhecia Gomringer pessoalmente, que lhe explicou que a poesia concreta foi uma revolução estética na Suíça. Décio Pignatari, que manteve contatos com artistas franceses e alemães nos anos 50, lembrou que a poesia concreta teve conotações políticas no Brasil porque era vista como subversiva. Augusto de Campos continuava entusiasmado com o concretismo e lembrava que pelo menos duas gerações de artistas brasileiros já foram influenciadas pelo movimento. Augusto negou-se a julgar a importância da poesia concreta na poesia brasileira mas disse que a linguagem virtual atual adota os mesmos princípios, cinquenta anos depois.
Ao longo de sua carreira, Eugen Gomringer publicou dezenas de livros, ensaios e antologias dedicados à poesia concreta, além de obras de crítica literária, filosofia da linguagem e reflexões sobre a arte contemporânea. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os poemas “silêncio”, “avenida”, “constelações”, “fenômeno”, “branco sobre branco” e “poema para ler de cabeça para baixo”. Em cada um deles, observa-se a busca pela clareza, pela simplicidade e pela potência do mínimo. Sua produção é marcada pelo rigor formal, pela atenção ao espaço em branco, pelo uso de repetições, variações e deslocamentos. Seus poemas funcionam como exercícios de percepção, convidando o leitor a construir sentidos a partir do próprio ato de leitura. A visualidade é elemento central, transformando o papel e a página em campo de experimentação.
Além de poeta, Gomringer também se destacou como professor, pesquisador e ativista cultural. Lecionou em universidades da Alemanha e da Suíça, onde ministrou cursos sobre literatura contemporânea, teoria da linguagem e estética experimental. Fundou e dirigiu o Instituto de Poesia Concreta na Suíça, promovendo encontros, debates e publicações dedicados à inovação poética. Participou de bienais, simpósios e eventos internacionais, sendo reconhecido por sua capacidade de articular diferentes tradições artísticas e estimular o pensamento crítico. Sua atuação institucional foi fundamental para legitimar a poesia concreta como campo de pesquisa e experimentação estética.
O impacto de sua obra é sentido até hoje, tanto na literatura quanto nas artes visuais, na arquitetura e no design gráfico. Seu trabalho inspirou não apenas poetas, mas também artistas plásticos, tipógrafos, cineastas e músicos interessados nas relações entre palavra, imagem e som. Recebeu inúmeros prêmios, homenagens e distinções, como o título de doutor honoris causa por universidades europeias e latino-americanas. O legado de Gomringer está associado à valorização do pensamento experimental, à defesa da liberdade criativa e à abertura para o diálogo intercultural. Seus poemas continuam sendo estudados, recriados e interpretados em exposições, performances e oficinas literárias ao redor do mundo.
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1 comentário em “Eugen Gomringer”
Maravilha reveladora! Parabéns!
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