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19/04/2024



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As regras não escritas do futebol de rua de antigamente

 As regras não escritas do futebol de rua de antigamente

Meus Leitores já estão acostumados aos textos que evocam experiências de vida, lembranças e histórias.

 

Hoje vou lembrar do Futebol de Rua de antigamente, o esporte inventado em tempos imemoráveis e que fez parte da infância de muitos de nós e até de jogadores de futebol famosos. Nas ruas dos bairros, crianças e jovens se reuniam para jogar partidas improvisadas, criando um ambiente mágico e cheio de inocência.

 

Com variações que dependiam do lugar onde era praticado, o aspecto mais marcante era a espontaneidade e a criatividade, e nem mesmo os campos eram delimitados. Árvores serviam como traves, calçadas limitavam o campo e o espaço reduzido exigia raciocínio rápido e criatividade.

 

Em áreas que na maioria das vezes não havia outro lazer, o futebol de rua era uma atividade social. As crianças se reuniam para jogar, compartilhar risadas e competir. Jogar naquelas condições ajudava a desenvolver habilidades técnicas e isso é relatado por jogadores profissionais que se tornaram famosos; nos “campinhos improvisados” eles tabelavam com paredes e pedras e driblavam em espaços apertados, ignorando obstáculos como buracos e lixo. Cada partida era uma oportunidade de sonhar. As crianças imaginavam que um dia jogariam em grandes times e torneios, e jogadores famosos, como o inglês Wayne Rooney e o nosso Ronaldinho Gaúcho, atribuíram sua formação ao futebol de rua. Rooney disse que praticamente tudo o que sabia foi aprendido ali.

 

A principal característica desse tipo de futebol era exatamente a ausência de regras escritas. Depois começaram a aparecer coletâneas das chamadas “Regras do Futebol de Rua” (o que é uma contradição em termos…) e procurei juntá-las para que você, que praticou esse esporte, lembre, senão de todas, de algumas:

 

  • Escolher os times era importante, mas ser escolhido por último era uma grande humilhação.
  • Os dois melhores não podiam estar no mesmo time. Logo, eles tiravam par-ímpar e escolhiam em qual queriam jogar.
  • Se os mais velhos chegavam para jogar, não havia remédio, era sair para que eles jogassem.
  • Os piores de cada lado ficavam na zaga.
  • O dono da bola jogava sempre no time do melhor jogador.
  • A escolha do goleiro gerava conflitos; normalmente a escolha recaia sobre o pior jogador ou o gordinho da turma. Também acontecia de ser feito um rodízio: cada um agarrava até sofrer um gol. Quando tinha um pênalti, saía o goleiro ruim e entrava um bom só para tentar pegar a cobrança. O goleiro não usava luvas, no máximo colocava um chinelo na mão.
  • Em alguns lugares acontecia de o jogo ser “rua de baixo contra rua de cima”, valendo uma garrafa de Tubaína (em Curitiba, “Gasosa”). Acontecia de em alguns casos os jogadores do bairro vizinho serem inimigos eternos.
  • O gol não tinha altura. Como não havia travessão, o céu era o limite. Se a bola passasse entre as marcas do gol, fossem sapatos, pedras ou pedaços de madeira, o gol era válido.
  • Um time jogava sem camisa e o outro com camisa.
  • O time sem camisa saia com a bola, porque quem tinha que jogar sem camisa estava em clara desvantagem, não?
  • Não existia esse negócio de Adidas, Nike, etc. Era Kichute no máximo ou jogava-se descalço.
  • Não tinha juiz.
  • As faltas eram marcadas no grito. Se você fosse atingido, gritava como se tivesse quebrado uma perna até conseguir a falta. Os adversários só aceitavam se fossem muito claras ou se o atingido chorasse. E se o jogador simulasse? Não interessava, o time que se sentia prejudicado podia usar a mesma arma (mas todos sabiam que o bom peladeiro não admitia o cai-cai).
  • Lances polêmicos eram resolvidos no grito ou, se fosse o caso, na pancada.
  • Como não tinha juiz, ficava difícil determinar de quem era a bola em jogadas mais disputadas. Por isso alguns definiam que a bola prensada era da defesa.
  • Se você estava no lance e a bola saía pela lateral, gritava “é nossa” e pegava a bola o mais rápido possível para fazer a cobrança; essa regra também se aplicava ao escanteio.
  • Se a bola saísse pela linha de fundo não precisava ser recolocada em campo pelo goleiro. Nada era mais legal do que sair jogando com os pés e marcar um gol no contra-ataque.
  • Lesões como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras, eram normais. Para isso, existia o Merthiolate (que ardia igual inferno).
  • Quem chutava a bola para longe tinha que ir buscar.
  • A partida acabava quando todos estavam cansados, quando anoitecia, quando a mãe do dono da bola mandava ele ir para casa ou quando a vizinha chata prendia ou cortava a bola que caía na casa dela.
  • Mesmo que estivesse 15X0, a partida acabava com o famoso “quem fizer o próximo, ganha”.
  • Quando havia mais de 2 times, adotava-se o “5 vira, 10 acaba” para que todos pudessem jogar.
  • Partida combinada não era cancelada; mesmo que chovesse forte havia futebol.
    Durante a pelada alguém podia gritar o famoso “paroooou” quando vinha passando um carro, uma mulher grávida ou com criança.
  • Quando a partida era jogada em terreno muito pequeno e usava-se o “golzinho”, o goleiro não podia usar as mãos.

 

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3 Comments

  • Uma das poucas coisas q mudaram é de q sinto saudade é q nos, crianças, brincávamos livremente nas calçadas, nos espaços vazios

  • Gersinho, e quando a bola caia na casa de algum vizinho ?
    O nosso time tinha um especialista em escalar muros e fugir dos cachorros para recuperar a bola.
    Saudade do século passado.

  • Sensacional!
    Era bem assim.
    Meu irmão mais velho era craque.
    Não foi adiante pois precisava trabalhar e na epoca, jogador não era profissão.

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