O sentimento de distância entre a Corte e o país real só fez crescer nos últimos anos.
Em janeiro de 2018, publiquei no meu blog um texto de autoria de Marcelo Rates Quaranta, que nos deixou recentemente. Suas palavras, escritas há quase oito anos, expressavam a indignação de milhões de brasileiros diante do comportamento do Supremo Tribunal Federal. Hoje, ao reler o texto, constato que aquele sentimento não só permanece – como se ampliou.
Marcelo escreveu: “O STF fez de nós pessoas melhores. Obrigado, ministros! Quando olhávamos aqueles Ministros sob suas togas, altivos, queixos erguidos e vozes impostadas, nos sentíamos pequenos diante de uma Corte que parecia sublime. Mas eles não são deuses. São pessoas pequenas e venais. Tudo aquilo é teatro – nós é que somos reais.”
A atualidade dessas palavras impressiona. De lá para cá, o que mudou? Para muitos brasileiros, o protagonismo do STF cresceu a ponto de gerar uma pergunta incômoda: afinal, quem governa o país?
Não discuto aqui questões jurídicas; refiro-me ao que sente o cidadão comum. A percepção é de que a Corte expandiu sua influência muito além do que a população considera razoável – decidindo rumos inteiros da vida nacional, às vezes sem a devida conexão com o Brasil real.
E existe o abismo simbólico. Enquanto milhões lutam para pagar o básico, o Supremo já chamou a atenção por episódios como licitação para refeições com lagosta, medalhões de cordeiro, camarões e vinhos com quatro premiações internacionais. Tudo dentro da lei, claro – mas completamente fora do alcance de quem pega ônibus lotado às seis da manhã.
Era disso que Marcelo falava: da distância entre os que julgam e os que são julgados. Entre a pompa de Brasília e o esforço diário de quem sustenta o país. Entre a toga impecável, a lagosta e o auxiliar que segura o guarda-chuva para proteger do sol a careca do Ministro e o trabalhador que acorda cedo para produzir aquilo que, no fim das contas, paga esse luxo.
Fica aqui a homenagem póstuma ao Marcelo Rates Quaranta, cuja coragem ao escrever o que muitos sentiam continua atual e necessária.
Que sua reflexão permaneça como alerta: nenhuma instituição está acima do povo que a sustenta.
E que, na primeira edição impressa do HojePR, o leitor encontre aqui exatamente isso: a voz de quem ainda acredita que o Brasil merece respeito – inclusive daqueles que deveriam ser seu exemplo maior.
(Imagem gerada por I.A.)
Leia outras colunas do Gerson Guelmann aqui.




3 comentários em “O STF cada vez mais distante do Brasil”
Grande parte da grita contra o STF não nasceu de pessoas que desejam melhorar a justiça, mas daqueles que não a querem ver aplicada aos ricos e poderosos. É sempre bom lembrar que a atual corte foi a primeira na história a julgar e condenar militares golpistas. E representa hoje uma das poucas barragens institucionais a nos protegerem da onda neo direitista de extração fascista que ameaça o país. Tem falhas o STF? Sim, mas percebo claramente que a enorme campanha contra ele se dá em razão do que faz de correto e não dos erros que possa conhecer.
Pois é, caro Gerson. E à cada desmando, à cada decisão monocrática, à cada voo de ministro em jatinho de propriedade de advogado que defende processo afeto ao ministro embarcado, a gente fica sem entender bem o que é e para que e a quem servem aqueles 10 sujeitos que cobrem suas vestes com capas pretas e uma mulher que os imita.
E a pergunta vai além: de que e para que servem os “capinhas”, aqueles subservientes puxadores e empurradores de cadeiras e carregadores de pastas para suas excrescências, e que vão buscá-las na entrada do portentoso palácio da justiça, que mais se assemelha a um “palhaço da justissa”, uma vez que justiça nenhuma sai dali?
Aliás, para que serve o supremo tribunal federal? Até agora, só observamos decisões em proveito próprio – e nenhuma em prol do interesse do povo.
Mas deve ser assim mesmo, nas democracias de araque existentes nas republiquetas de banana…
Gerson…sem dúvidas é super atualizado! na mesma esteira relembro Rui Barbosa, “de tanto ver crescer a injustiça…o homem passa a ter vergonha de ser honesto”.
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