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Quando o Jaime Lerner mandou pagar o enterro do Leminski

08/09/2025

jaime lerner e paulo leminski

Já escrevi sobre a conversa que tive com Jaime Lerner quando ele me convidou para integrar a equipe que assumiria a Prefeitura de Curitiba em 1º de janeiro de 1989. Quando pedi tempo para pensar, a resposta veio rápida: “quem havia pressionado para que ele concorresse não tinha direito de pensar”.

Ele pediu que eu assumisse a presidência da Fundação de Recuperação do Indigente – FREI, uma fundação da área social, e explicou: a Constituição recém-promulgada exigia uma série de adequações nas chamadas fundações de interesse público, e ele precisava que a nova estrutura fosse capaz de executar projetos que tinha em mente.

Resumindo: no dia 2 de janeiro lá estava eu. Já na primeira semana ajudamos a desarmar uma bomba-relógio: a administração anterior havia renunciado, junto ao Governo Federal, à gerência do fundo do Mercadão Popular, o que impediria a Prefeitura de colocar em funcionamento os ônibus que levavam à população de baixa renda gêneros alimentícios a preços subsidiados.

Esses ônibus, retirados da frota do município e adaptados para a tarefa, cumpriam programa de manutenção anual e deveriam retornar ao atendimento em 20 dias. Ainda em 1989 foi inaugurada a primeira unidade do Armazém da Família, no Alto Boqueirão, o que mais tarde permitiu a desativação da frota de ônibus.

A mesma FREI teve papel preponderante na instalação da Unidade de Valorização de Recicláveis (UVR), em Campo Magro, fundamental para o sucesso da memorável campanha Lixo Que Não é Lixo. Foi, enfim, um período esplendoroso, e logo Jaime me levou para a Chefia de Gabinete.

Voltando à FREI: havia, em sua estrutura, um Conselho constituído por um representante da comunidade, um da própria municipalidade e um da Câmara Municipal, respectivamente:

– Sra. Maria Virmond Bittencourt, presidente da Liga das Senhoras Católicas;
– Osnin Nunes Soares, adjunto da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social;
– e o médico e vereador Florisvaldo Fier, conhecido como Dr. Rosinha.

O Conselho reunia-se em calendário fixado para apreciar o relatório da Diretoria, apresentar sugestões e fazer eventuais questionamentos.

No dia 7 de junho de 1989, Jaime ligou avisando que Paulo Leminski havia falecido e que acabara de combinar com o Alvaro Dias (então governador) que o Município custearia as despesas do sepultamento, enquanto o Governo do Estado pagaria a conta do hospital.

Imediatamente orientei a área financeira a providenciar o necessário e retornei ao Jaime informando que estava tudo resolvido.

Além da obrigação de cumprir a determinação do Prefeito, senti-me emocionado pela oportunidade de participar da homenagem ao Leminski, poeta, escritor e músico curitibano cujo talento projetou a cidade e nos encheu de orgulho. Poucos anos mais velho que eu, Leminski era venerado por nossa geração e ainda hoje é reverenciado. Tive a felicidade de conhecê-lo na casa dos queridos Peggy e Rogério Distéfano.

De minha parte, dava o assunto como resolvido, até que recebi, algum tempo depois, da Assessoria do Prefeito, pedido de informações vindo da Câmara Municipal e protocolado pelo vereador Dr. Rosinha, questionando exatamente o custeio do funeral.

O requerimento legislativo é regulamentar, não cabia objeção, mas pessoalmente me surpreendi. Entendia que o vereador poderia levar o assunto ao Conselho.

Naquela Legislatura o partido do Dr. Rosinha havia eleito outros dois vereadores: o também médico Sílvio Miranda e o Angelo Vanhoni, que a partir daí passou a ser um grande amigo.

Logo após o falecimento de Leminski, justamente o Sílvio Miranda apresentou projeto sugerindo a colocação de uma estátua do poeta na Praça General Osório, relacionando como justificativa suas muitas e inegáveis qualificações.

Como a proposição foi publicada em vários jornais, para responder à Assessoria do Gabinete do Prefeito transcrevi toda a argumentação do vereador, citando-o.

Na primeira reunião do Conselho após o episódio, ao comentar o assunto, disse que, em minha opinião, na qualidade de conselheiro, o vereador poderia aguardar e inquirir a Diretoria da Fundação naquele colegiado. O assunto encerrou-se ali, sem ressentimentos.

O Jaime não esqueceu o amigo. Em 1990 fez com que o local de onde, até uma década antes, saíam pedras para a construção da cidade fosse transformado na Pedreira Paulo Leminski.

Ela se tornou o maior espaço para espetáculos ao ar livre da América Latina, com capacidade para até 30 mil pessoas e uma acústica privilegiada, proporcionada pelo palco entre paredões de rocha. Um dos principais cartões-postais culturais de Curitiba, desde sua inauguração recebe grandes shows e consolidou-se como patrimônio da cidade.

Recentemente, o complexo – que passou a se chamar Parque das Pedreiras Jaime Lerner – recebeu também a Rua da Música, com seis bares e restaurantes.

Ah, é bom dizer: a estátua de Leminski sugerida pelo vereador Sílvio Miranda não vingou na Praça Osório, mas acabou saindo. Em 24/8/2025, dia em que ele completaria 81 anos, o prefeito Eduardo Pimentel inaugurou, na recém-criada Rua da Música, no Parque das Pedreiras, uma escultura em bronze desse notável curitibano, obra do artista Rafael Sartori.

Antes que esqueça: fora da administração, voltei a encontrar o Dr. Rosinha muitos anos depois, em evento de campanha política na qual ambos estávamos empenhados. Nossa conversa foi cordial, como convém aos que não confundem diferenças políticas com respeito humano.

(Foto: Busão Curitibano)

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4 comentários em “Quando o Jaime Lerner mandou pagar o enterro do Leminski”

  1. Respeito e relevância a memória cultural dos grandes mestres da arquitetura e música paranaense.
    Tive o privilégio de conhecê-los na simplicidade, na arte e sem embates de outras ordens.
    Eram grandes, pois sabiam viver a verdade pela simplicidade.
    Linda sua postagem meu valoroso amigo.

  2. Convivi com tchurma do PT….uma vez fui no Forró do KALAMENGAU, me pregaram um adesivo no peito do PT ou Candidato, não lembro. Retirei em seguida, mas convivia com os esquerdistas jovens. É O JEITO né. rs rs. ABRAÇOS e vamos que vamos………..
    PITA BRAGA

  3. Prezado Gerson , foi uma épocade oportunidades fantásticas que tivemos no nosso trabalho na 3ª administração do Jaime Lerner , foi e será sempre inesquecível ! Na época além da legislação municipal , atuava como um elo de ligação entre o executivo e o legislativo. Os três vereadores do PT, Rosinha que estudante morava em uma república na Dr. Murici com amigos meus de Jacarezinho e sempre nos demos bem , Silvio sempre foi um gentleman e nós entendíamos bem, Vanhoni já o conhecia porque trabalhava como advogado da Caixa e o irmãos dele Joaquim Vamhoni sempre foi um grande amigo. Rosinha era empenhado na sua postura ideológica ( nada contra) , mas no primeiro mês houve uma greve capitaneadas com ele e tivemos uma reunião no gabinete do Prefeito, lá ele decidiu apoiar nossa proposta e logo fomos para a Câmara , pois bem,… lá ele votou contra , já viu né ! Eu fui para cima dele e perguntei porque ele mudou o voto , ele respondeu : – Lá na reunião eu votei como político , aqui na Câmara como sindicalista ? A partir daí embora eu o respeite como meu conhecido seria tratado como todo adversário político aliás com os outros foi a mesma atuação, tínhamos 30 votos a favor de Curitiba logo os três , não fizeram falta
    Mas gosto de todos eles já que a politica é a convivência entre contrários . Lá se foram 25 anos saudades do Jaime, Fani e de tanta gente que fiquei amigo até hoje com com muito orgulho

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