ANO IV

13/07/2026

HojePR

Anos 70: rosas, medo e poesia

09/12/2025
criança

Quem foi criança naquela década, além das brincadeiras na rua e da liberdade vigiada, lembra-se também da educação rígida que imperava nas casas e escolas: a imposição de limites, as cobranças e os castigos como consequências. Práticas que boa parte da geração de hoje sequer conheceu. Valorizo e agradeço aos pais e mestres daquele tempo.

Porém havia os exageros: puxões de cabelo e gritos das “tias”, que não se apagam de nenhum quadro negro. Mas esse tipo de “disciplina” não recaía sobre as garotas bem comportadas, aquelas que “pagavam o pato e o mico” por serem sempre solicitadas para tarefas especiais. Naquele mundo, pais e professores não admitiam um não de “pirralhas” que nem sabiam, mesmo, dizer não.

Crescia uma menina. Aluna dedicada, sentava-se sempre nas carteiras da frente. Saia marrom de pregas, meia três-quartos brancas, sapatos marros engraxados por ela mesma, camisa branca impecável. No Jardim de Infância fizera papel de anjo – ela de beca rosa-clara, a irmã de amarelo. Também fora a Branca de Neve, com a fantasia que a avó costurava.

Logo adiante, já participava de jograis. Decorava textos sobre como ouvir estrelas. Sabia que teria saudades dos seus oito anos, da sua terra que tinha palmeiras, que no meio do caminho haveria uma pedra e que, enfim, de tudo ao seu amor seria atenta.

Apesar de seu jeito tímido, a obediência falava mais alto. E lá ia Maria, muitas vezes contra a sua vontade. Maria sinhazinha, Maria das boas notas, Maria “quatro-olhos”, três deles voltados para cuidar dos irmãos. Puxava o trenzinho, carregando uma responsabilidade grande para tão pouca idade. Nunca fora fácil ser quem gostaria de ser.

Para compensar, fazia suas peraltices: brincava de escolinha com os menores, socando-lhes conteúdos adiantados. Era o seu momento de exercer algum poder. Às vezes negava sua bicicleta verde. Ou os patins, mais tarde.

No domingo, a família ia à igreja. As filhas vestiam a melhor roupa, caras de santa, como o ambiente exigia. Tapas e beliscões, tão comuns, ficavam para depois. Certo dia, a esposa do pastor, a segunda dona da casa de Deus, precisou de alguém para recitar um poema numa comemoração. As três irmãs ficaram ali, paradas, atônitas, querendo evaporar do perfume horrível – e inesquecível – da primeira dama. Estavam à mercê da cilada. Não houve escapatória: a mais velha foi escolhida.

Mas não era apresentação de Natal, não. “Mamãe, avental todo sujo de ovo, te amo, mamãe!” Alguém ainda deve lembrar dessa música. E esse era o tema da festa. Que ironia: aqui, reclamando da homenagem, quem anos mais tarde acabaria se emocionando ao ver as filhas cantando com Toquinho e Tiago Iorc na escola, no Dia das Mães.

Do palco da pequena congregação, a garotinha surgiu com uma cesta de rosas vermelhas nos braços. Vestido de renda cor-de-rosa. O rosto corado não escondia a inquietação dos seus oito anos. Encarou a multidão. Apesar do medo, sabia o que fazer.

Os ensaios de declamação com a dona do “perfumão” deixaram claro: além de decorar, era preciso sentir com todo o seu coração e ser quase teatral. Ora, tratava-se de uma poesia! Estava na ponta da língua e ela se soltou leve no espaço. Cada palavra espalhava-se como orvalho fresco no acalorado templo de madeira. Ternura tocando em corações desprevenidos, rostos espantados. Silêncio.

– Que silêncio, Maria?

Ouvia-se uma voz, uma voz de menina. O povo aplaudiu.

Ali irrompia uma essência feminina, uma mulher em formação num universo minúsculo, como o da maioria das mulheres daquela época. Ela nunca soube exatamente o que aquele momento quis significar. Apenas que a poesia já estava lá e desde então nada mais ficaria no lugar.

Suas marcas andam por aí. Não como orações submissas, mas como provocações intimistas, sem lei.

Como se não bastasse o desafio, a pequena ainda percorreu o salão oferecendo as rosas à plateia.

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