“Posso dormir com você? Tem um bicho no meu quarto.”
Ela chega, com seu jeito de gata. “Claro, filha!” Eu não perco a chance: ternura e felicidade andam de mãos dadas.
E, se felicidade é um instante ou uma coleção deles, vou agarrá-la. Quero aninhar no peito esse estado de graça suprema, em que faltam os verbos, os tempos e principalmente os modos. Afinal, é sempre uma fração do agora que nos faz perder o chão (a cama), o fôlego, a rima.
Em outras épocas, eu levantaria e iria atrás da pobre lagartixa. Mas, não existe nada mais gostoso que dividir a cama com os filhos, quando eles já começam, inevitavelmente, a dispensar os pais. O meu mundo para e nesse respiro só nosso, somos donas de ambos os universos.
O rostinho dela encosta no travesseiro ao meu lado. A pele quente toca a minha e espanta qualquer frio com um beijo meio dormido. O olhar lânguido me desarma. As pestanas longas quase se rendem. E o sorriso, esse derrete qualquer coração. À meia luz, deslizo a mão sobre sua silhueta miúda, querendo cobri-la de carinho. Não rompo o silêncio da cena. Só rezo baixinho. Agradeço.
Em poucos segundos ela se abandona no sono de um anjo. A brancura dos lençóis apaga qualquer desilusão que ainda restava em mim. Sinto-me afortunada.
A humanidade inteira corre atrás de recompensas para as madrugadas escuras, como crianças perseguindo bolhas de sabão. Existe uma esperança ancestral. Desde o Éden, a alma não se conforma com brevidades: busca a eternidade, o milagre da vida sobre a morte.
Brindamos inícios sem notar as estações, as rugas, os amores que se vão. No entanto, o tempo escorre, como os cabelos fininhos que, sobre os ombros inocentes de menina, insistem em escapar das minhas mãos.
Um amor aconchegante toma conta do quarto. E toma conta dela também, fazendo-a crescer, levando-a para longe aos poucos. Eu quero ficar aqui, até que a infância canse. Uma força em mim se ergue para segurar esse momento raro. Mas pela fresta da cortina um fiozinho de sol se insinua. Será que ele passa?
A única coisa que eu sei é que sou parte de tudo que coube dentro deste instante: um beijo, um “eu te amo”, uma batida de coração.
Leia outras colunas da Maria do Rocio aqui.




1 comentário em “Um instante do coração”
Amei! Que benção para um filho ou filha ter uma mãe carinhosa e compreensiva, que reconhece e coloca em palavras o valor de um momento! 👏👏👏👏🙏
Os comentários estão encerrado.