ANO IV

04/06/2026

HojePR

OPINIÃO

A matemática silenciosa da eleição de 2026

12/03/2026
candidatos

João Zisman

Pesquisas eleitorais costumam ser lidas como fotografias do momento. Quem lidera, quem cresce, quem cai alguns pontos. O debate político gira em torno desses movimentos de superfície. No entanto, às vezes o que realmente importa está um pouco mais fundo. Não no ranking dos candidatos, mas na estrutura do eleitorado.

A mais recente pesquisa nacional Genial/Quaest oferece um bom exemplo disso. Mais do que medir preferências imediatas, ela ajuda a entender como o país está organizado politicamente neste momento. E quando se olha para essa estrutura, surge um dado que merece atenção.

O Brasil continua polarizado, mas os polos são menores do que parecem.

Segundo o levantamento, cerca de 19% dos eleitores se identificam como lulistas e aproximadamente 12% como bolsonaristas. Entre esses dois campos, há ainda 14% de eleitores que se declaram de esquerda sem identificação direta com o lulismo e 21% que se situam na direita sem vínculo com o bolsonarismo.

O grupo mais numeroso, no entanto, está em outro lugar. São os independentes, que representam cerca de 32% do eleitorado.

Esse dado ajuda a entender o que realmente está em jogo na próxima eleição presidencial. Os polos ideológicos dominam o debate público, mobilizam militâncias e ocupam grande parte do espaço nas redes sociais. Mas quando se observa o país real, percebe-se que a maior parcela do eleitorado não se encontra nas trincheiras.

Isso não significa que a polarização tenha desaparecido. Lula mantém uma base política sólida e reconhecível, sustentada principalmente pelo lulismo e por parte da esquerda. Do outro lado, o bolsonarismo continua sendo um campo político organizado, com núcleo fiel e mobilizado.

O problema para ambos é que nenhum desses polos é majoritário por si só.

Para vencer uma eleição presidencial é necessário atravessar o território intermediário da política brasileira. É ali que se encontram os eleitores que não votam por identidade ideológica rígida, mas por avaliação de cenário, percepção de estabilidade ou expectativa de gestão.

Esse eleitor existe em número significativo. E costuma ser decisivo.

A própria pesquisa sugere isso ao testar nomes alternativos ao atual presidente. Cada candidatura aparece com capacidade de crescimento em espaços distintos do eleitorado. Há candidatos com maior aderência no campo liberal, outros mais fortes no eleitorado conservador tradicional e alguns com melhor trânsito entre segmentos urbanos moderados.

Entre os nomes avaliados, Ratinho Jr. aparece com um dado interessante. Sua candidatura demonstra potencial simultâneo em três territórios eleitorais que raramente se sobrepõem com facilidade. A direita não bolsonarista, parte do bolsonarismo pragmático e o eleitorado independente.

Essa combinação explica por que ele surge, entre os nomes alternativos testados, como aquele que apresenta menor diferença em relação a Lula em cenários simulados de segundo turno.

Outros candidatos apresentam forças específicas. Romeu Zema encontra maior receptividade entre eleitores liberais e setores urbanos do Sudeste, com Minas Gerais como base importante. Ronaldo Caiado possui forte identificação com o conservadorismo tradicional e com o eleitorado do interior ligado ao agronegócio. Eduardo Leite dialoga melhor com independentes urbanos e com segmentos da esquerda não lulista que demonstram rejeição à polarização.

Cada um ocupa um pedaço do tabuleiro.

Mas a pesquisa sugere algo mais importante do que o desempenho individual de cada candidatura. Ela revela que o espaço decisivo da eleição continua sendo ocupado por eleitores menos alinhados ideologicamente.

A história recente das eleições brasileiras mostra que esse eleitor não costuma aparecer como protagonista no início do processo. Ele observa, compara e muitas vezes decide o voto apenas nas últimas semanas.

É por isso que a matemática eleitoral raramente coincide com o entusiasmo das militâncias.

A eleição presidencial não é vencida apenas com convicção ideológica. É vencida quando uma candidatura consegue manter seu campo político mobilizado e, ao mesmo tempo, atravessar a fronteira que separa as trincheiras do eleitorado intermediário.

Esse movimento exige algo que a política nem sempre valoriza. Menos ruído e mais capacidade de diálogo com o país que não vive permanentemente em guerra política.

A pesquisa Genial/Quaest não responde quem vencerá a eleição de 2026. Ainda é cedo para isso. O que ela mostra é algo mais simples e ao mesmo tempo mais importante.

No meio do barulho da polarização, existe uma matemática silenciosa. E é ela que costuma decidir as eleições.

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