Encerrada a temporada de festas e excessos, quando o país parece suspender temporariamente suas tensões para se entregar ao ritmo do Carnaval, a rotina institucional retoma seu curso. As atenções se voltam para um terreno menos festivo e muito mais estratégico: as definições eleitorais. No Paraná, contudo, o cenário ainda é marcado por incertezas, articulações discretas e movimentos cuidadosamente calculados nos bastidores. Se há uma palavra que resume o momento político do estado, ela é mistério.
Até aqui, apenas um nome se apresenta como candidatura efetivamente consolidada ao Palácio Iguaçu: o do deputado estadual Requião Filho, que disputará o governo pelo PDT, sustentado por uma aliança com o PT.
Requião Filho afirma não ter precisado ceder ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação da vaga de vice. Ainda assim, a política raramente se resume ao que é dito publicamente. Observadores atentos notaram uma mudança relevante no discurso do deputado. As críticas frequentes ao governo federal, especialmente a Lula, deram lugar a elogios e demonstrações de alinhamento.
Nos corredores do poder, interpreta-se a inflexão como resultado de um possível “puxão de orelha” vindo de Brasília, provavelmente aplicado pela ministra Gleisi Hoffmann, candidata ao Senado pelo PT. Nada fora do script. Em política, ajustes de tom costumam preceder alianças.
Se à esquerda o tabuleiro parece relativamente organizado, o mesmo não pode ser dito das demais forças. O senador Sergio Moro, líder recorrente nas pesquisas de intenção de voto, vive o paradoxo de quem pontua bem junto ao eleitorado, mas ainda não tem garantida a própria candidatura. Seu partido, o União Brasil, integra uma federação com o Progressistas e, nesse modelo, decisões majoritárias exigem consenso interno. É justamente aí que reside o impasse.
O deputado federal Ricardo Barros, figura central do PP, resiste abertamente à hipótese de apoiar Moro e já descartou a candidatura com firmeza. Nos últimos dias, contudo, o tom parece menos rígido, sinalizando que a política, como sempre, é a arte do possível.
Moro, por sua vez, também ensaia uma metamorfose retórica. Conhecido por um estilo direto, muitas vezes interpretado como autoritário, passou a adotar uma linguagem mais conciliadora, fala em diálogo, composição e convergência. A estratégia é evidente: reduzir resistências e ampliar pontes. Resta saber se a mudança será percebida como maturidade política ou apenas como conveniência eleitoral.
Enquanto isso, no PSD do governador Ratinho Junior, o desafio não é a falta de nomes, mas o excesso deles.
Três figuras de peso disputam o posto de candidato governista: Alexandre Curi, Guto Silva e Rafael Greca. Todos querem não apenas a vaga, mas também a bênção do governador, um ativo decisivo em qualquer campanha de continuidade administrativa.
Nos bastidores da política paranaense, Guto Silva aparece como favorito pessoal do governador. O problema é que favoritismo interno nem sempre resiste ao teste das pesquisas. Caso o critério para a escolha de Ratinho Junior seja desempenho eleitoral, a disputa tende a se concentrar entre Curi e Greca, ambos com capital político relevante e pouca disposição para abrir mão do projeto.
E é justamente aí que o enredo pode ganhar novos capítulos.
Fontes próximas ao Palácio indicam que, se forem preteridos, Curi e Greca não hesitariam em buscar novas legendas. Convites não faltam. O Republicanos já teria estendido um tapete vermelho para Curi, enquanto o Progressistas alimenta o desejo de atrair Greca.
Em um ambiente tão volátil, não surpreende que analistas políticos, e nessa época aparecem mais analistas que técnicos da seleção, já especulem combinações como uma eventual chapa Curi-Greca. Não precisa ser um analista muito sofisticado para entender o alcance de uma chapa dessas e a capacidade de preocupar adversários como Moro e Requião Filho.
Por ora, porém, tudo permanece no campo das hipóteses.
O fato concreto é que, mesmo com o Carnaval já recolhido ao calendário e as fantasias guardadas, os eleitores do Paraná ainda terão de conviver com a indefinição. Até que as candidaturas sejam oficialmente lançadas, o noticiário seguirá alimentado por pesquisas que testam nomes cuja presença na urna ainda não está assegurada.
Terminada a festa pagã, a política volta a ocupar o centro do palco, mas o desfile eleitoral paranaense continua em fase de concentração. Os carros estão sendo montados, os blocos ainda se organizam e os protagonistas medem forças longe dos holofotes.
Quando a avenida finalmente abrir, talvez o maior susto não seja quem confirmou presença, mas quem resolveu entrar no cortejo na última hora. Em eleições competitivas, silêncio também é movimento.



