ANO IV

13/07/2026

HojePR

agenor

Moro e a arte de abraçar o improvável (ou: quando a coerência tira férias no Paraná)

23/03/2026
moro

A sucessão estadual no Paraná começa a ganhar contornos interessantes e, no caso específico do senador Sergio Moro, quase literários. Não por grandeza épica, mas pelo gênero tragicômico mesmo. Há algo de teatro do absurdo na filiação do ex-juiz ao PL, partido que funciona, na prática, como uma espécie de condomínio político da família Bolsonaro.

Sim, aquele mesmo Moro que deixou o governo Bolsonaro atirando, acusando o então presidente de interferência na Polícia Federal e rompendo, em cadeia nacional, com a solenidade de quem acreditava estar escrevendo o capítulo final de uma cruzada moral. Pois bem, agora ele estaciona tranquilamente na garagem do bolsonarismo raiz, tira o ticket do estacionamento e segue a vida.

Mas a coisa fica ainda mais saborosa quando se observa a figura do anfitrião, Valdemar Costa Neto, presidente do PL. O mesmo Valdemar condenado no mensalão e preso por decisão do STF. O mesmo STF onde a ministra relatora era Rosa Weber, de quem Moro foi assessor e ajudou a elaborar pareceres técnicos. Ou seja, o ex-juiz ajudou, ainda que indiretamente, a fundamentar a engrenagem institucional que levou à condenação do homem que hoje carimba sua ficha de filiação partidária.

E não para aí. Moro e Valdemar já trocaram acusações públicas. O senador acusou, no passado, o dirigente partidário de exercer influência indevida sobre o presidente Bolsonaro, algo na linha de “quem manda de verdade”. Valdemar, por sua vez, não ficou exatamente agradecido e chegou a processar Moro por declarações consideradas ofensivas.

Hoje, aparentemente, tudo superado. A política brasileira tem esse dom terapêutico. Reconcilia divergências com uma eficiência que faria inveja a qualquer sessão intensiva de psicanálise.

Para quem construiu a própria imagem como juiz intolerante a desvios de conduta, corrupção e acordos pouco republicanos, a cena soa particularmente… pedagógica. Não basta mudar de posição, é preciso reescrever a biografia em tempo real. O discurso que antes separava o mundo entre “os limpos” e “os contaminados” agora adota um pragmatismo quase ecológico e recicla antigos adversários como aliados estratégicos.

Em linguagem menos diplomática, é como se o ex-juiz estivesse fazendo aquilo que jurou a vida inteira combater, só que agora com objetivo eleitoral. Vencer a eleição para o governo do Paraná exige votos, estrutura, tempo de TV e capilaridade política. E esses itens raramente são encontrados na seção de produtos éticos premium.

A metáfora inevitável é a clássica venda da alma ao diabo, com a diferença de que, no caso paranaense, o diabo exige filiação partidária, convenção homologada e fundo eleitoral.

Aqui cabe lembrar uma frase célebre do ex-governador Roberto Requião, mestre das tiradas teatrais, que costumava dizer que, para vencer uma eleição, se aliaria até ao diabo. A diferença é que Requião dizia isso com a sinceridade desavergonhada dos políticos antigos, quase como quem confessa um pecado venial. Moro, ao contrário, construiu carreira inteira prometendo que jamais pisaria nesse tipo de terreno.

E eis que pisa. E chafurda com desenvoltura.

Mas talvez o elemento mais curioso dessa ópera bufa seja o elenco de apoio. Moro não chega sozinho. Puxa a reboque o ex-procurador Deltan Dallagnol, parceiro inseparável da Lava Jato, arquiteto de apresentações em PowerPoint e também conhecido por sua aversão visceral a políticos condenados ou associados a escândalos. A dupla que simbolizava a purificação moral da República agora divide o mesmo palco com personagens que, em tempos não tão distantes, representavam tudo o que havia de errado no sistema.

Se a política fosse um filme, seria aquele momento em que os heróis fazem aliança com o vilão para enfrentar um mal maior. Só que, neste caso, o “mal maior” atende pelo nome de eleição.

Naturalmente, haverá quem defenda a mudança como maturidade política, realismo ou necessidade de governabilidade. É o argumento padrão. Ninguém governa sozinho, é preciso compor, dialogar, construir pontes. Tudo muito civilizado, muito europeu, quase escandinavo.

O problema é que a ponte foi construída exatamente sobre os escombros do discurso anterior.

No fim das contas, a filiação de Moro ao PL não é apenas uma jogada eleitoral, é um símbolo poderoso de como a política brasileira transforma cruzados em negociadores e princípios em material reciclável. O ex-juiz que prometia limpar o sistema agora precisa sobreviver dentro dele e, para isso, aceita a companhia de quem antes apontava como parte do problema.

Talvez seja apenas o preço da ambição legítima de governar. Ou talvez seja a prova definitiva de que, na política, coerência é um luxo de quem não pretende vencer eleição.

De qualquer forma, o Paraná ganha um espetáculo interessante. Um candidato que precisa convencer o eleitor de que continua sendo o mesmo de antes, enquanto faz exatamente o oposto do que dizia.

Se Requião estivesse narrando a cena, provavelmente resumiria com uma piscadela. Na política, o importante não é não abraçar o capiroto, é abraçar com naturalidade suficiente para parecer que vocês sempre foram amigos.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

1 comentário em “Moro e a arte de abraçar o improvável (ou: quando a coerência tira férias no Paraná)”

  1. Vamos no popular: um grande traíra que pensa só nele, na esposa e faz qualquer tipo de aliança, seja com quem for, para se manter no poder!! Os paranaenses não gostam de traidores, aliás, ninguém gosta!! Moro tá mais para CAVALO PARAGUAIO e, ainda pior, QUE SE MATA SÓZINHO!!

Os comentários estão encerrado.