Quando o HojePR passou a denunciar, ainda no início da explosão das apostas esportivas, o papel cada vez mais agressivo da publicidade das bets, muita gente tratou o assunto como exagero. Afinal, diziam, tratava-se apenas de propaganda. Apenas de um patrocinador. Apenas de um novo modelo de negócios.
Não era.
A abertura de uma investigação pelo Ministério da Justiça contra a CazéTV, para apurar a forma como casas de apostas foram promovidas pelo canal durante as transmissões da Copa do Mundo, demonstra que o debate finalmente começa a alcançar o lugar onde sempre deveria estar: o interesse público.
Segundo os documentos revelados nesta semana, o que está sob investigação não é simplesmente a exibição de anúncios comerciais.
O foco está na utilização de mensagens capazes de estimular o público a apostar imediatamente, reforçando promoções, aumentando artificialmente a atratividade das odds (valor do multiplicador de recompensa em caso de acerto de aposta), oferecendo “segunda chance”, vinculando a aposta à paixão pelo futebol e incentivando o acesso instantâneo às plataformas por meio de QR Codes durante as partidas.
O Ministério da Justiça cita três episódios para justificar a abertura do procedimento de averiguação. Todos, diz a pasta, vão além da mera veiculação de propaganda e apontam abuso na divulgação com mensagens que estimulam os espectadores a fazer apostas estimulados por promessas de maiores ganhos.
Uma reportagem do Estadão cita os episódios. O primeiro deles teria ocorrido na partida entre Argentina e Áustria, nesta segunda-feira (22). “Houve a divulgação de odds majoradas de R$ 3 para R$ 4”. Segundo o jornal, “comentaristas da CazéTV destacaram que a Betnacional ofereceria ao apostador uma ‘segunda chance’, ‘reforçando a atratividade da oferta e incentivando a adesão imediata à promoção anunciada’.
O segundo episódio teria ocorrido durante pausa de hidratação na partida entre Inglaterra e Gana, nesta terça-feira (23). O ofício, diz o Estadão, “destaca a publicidade da Betnacional em que narrador Galvão Bueno incentiva os espectadores a ‘colocar a paixão em jogo’, pedindo que acessem o site da operadora ou entrem via QR Code na tela. Na ação, ele também divulga uma oportunidade promocional exclusiva relacionada à partida”.
O terceiro episódio relatado na manifestação ocorreu no jogo entre Uruguai e Cabo Verde, no domingo (21), com incentivo para espectadores apostarem usando a plataforma KTO.
São justamente esses limites que esta coluna e o HojePR já defendiam que precisavam ser estabelecidos.
Publicidade é uma coisa. Transformar uma transmissão esportiva em um balcão permanente de incentivo ao jogo é outra completamente diferente. E essa diferença importa.
Importa porque o Brasil vive uma epidemia silenciosa de endividamento provocado pelas apostas. Milhões de brasileiros têm comprometido renda, patrimônio e relações familiares alimentados por uma máquina publicitária que vende uma fantasia de dinheiro fácil enquanto esconde os riscos reais da atividade.
Nesse contexto, é lamentável, e também perigoso, assistir a tantos jogadores, ex-jogadores, narradores, comentaristas, influenciadores, empresários e outras figuras de enorme influência emprestando credibilidade para uma prática que já produz enormes danos sociais.
O esporte sempre foi um espaço de inspiração.
Hoje, muitas vezes, tornou-se um enorme painel publicitário das apostas.
Ainda mais preocupante foi a reação do próprio Casimiro Miguel às críticas recebidas pela quantidade de publicidade de bets nas transmissões da CazéTV.
Em uma live, afirmou que “é o que mais paga hoje” e que “é o que faz girar o negócio”, minimizando os questionamentos sobre o excesso de propaganda. Em seguida, questionou: “Prejudicou o quê?”
É uma declaração profundamente decepcionante.
Não porque uma empresa precise gerar receita. Isso é evidente. Mas porque ela reduz um problema social gravíssimo a uma simples questão comercial.
Quando alguém com dezenas de milhões de seguidores afirma, em essência, que receber dinheiro das bets faz parte do jogo porque é isso que financia o negócio, está deixando claro qual interesse prevalece nessa equação.
Não é o interesse do consumidor, nem tampouco o interesse das famílias. Não é a preocupação com os milhares de brasileiros que desenvolvem comportamento compulsivo, acumulam dívidas ou comprometem o orçamento doméstico estimulados por campanhas publicitárias cuidadosamente planejadas para aumentar o engajamento e a impulsividade.
O que prevalece é apenas o interesse econômico de quem recebe esses recursos. E isso precisa ser dito.
Ninguém questiona o direito de uma empresa buscar financiamento para suas operações.
O que se questiona é quando esse financiamento passa a depender da normalização de uma atividade que vem produzindo consequências sociais cada vez mais evidentes.
Durante décadas, aprendemos que publicidade de cigarros precisava ter limites. Depois compreendemos que bebidas alcoólicas também exigiam regras específicas.
Agora chegou a vez das apostas.
Não faz sentido permitir que narradores, comentaristas e transmissões esportivas transformem cada lance, cada intervalo e cada emoção do futebol em um convite permanente para apostar.
O esporte não pode servir de porta de entrada para o vício.
A investigação do Ministério da Justiça ainda produzirá suas conclusões. O devido processo deve ser respeitado.
Mas uma coisa já está evidente.
Se até o poder público começou a enxergar que existem excessos na forma como as bets vêm sendo promovidas, talvez seja hora de parte do mercado também reconhecer aquilo que há muito tempo muitos brasileiros já perceberam.
Na guerra contra os efeitos devastadores das apostas, estabelecer limites para a propaganda deixou de ser censura. Passou a ser responsabilidade.
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