Uma excelente notícia para quem gosta de Música: Rolando Castello Júnior (São Paulo, 13 de abril de 1953) está lançando sua biografia chamada de “Aventuras e desventuras de um baterista de rock da América Latina”. Pra quem ainda não sabe, ele é um renomado baterista e percussionista, considerado um dos maiores nomes do rock brasileiro. Não à toa, em 2015, foi eleito pela revista Roadie Crew como o 3º melhor baterista do Brasil de todos os tempos. Na ativa desde 1970, Rolando tocou com incontáveis músicos no Brasil, Argentina e México, fez parte da banda Made in Brazil e é fundador da Patrulha do Espaço. Também teve uma intensa participação na cena underground de Curitiba, onde morou por um longo período.
Embora não goste muito de falar sobre o assunto, Rolando teve poliomielite na infância, que deixou fortes sequelas, que decerto colaboraram com sua forma única de usar o instrumento. Rolando conta que, “certa vez, um fã me perguntou “Como você toca assim?” Eu pensei que ele ia perguntar como é que eu tocava assim tão bem. Foi quando percebi que ele também tinha um problema na mão. Respondi a ele que eu toco assim porque nunca pensei que não pudesse tocar!”
Na abertura do livro tem uma entrevista que Rolando deu a Régis Tadeu, jornalista, crítico musical, radialista, colecionador profissional de discos e youtuber, e uma das perguntas é esta: Você lembra, exatamente, do primeiro momento que você ouviu o som da bateria e disse: é isso que eu quero na vida?
“Bom, aí já teríamos que entrar num outro terreno, porque na verdade a minha paixão pela música começou com o rock, eu deveria ter uns 12 anos e fui numa festa de aniversário de um colega de minha escola, Elvira Brandão. Não me lembro do nome da maioria de meus colegas de escola mas, desse não esqueço, Fernando Rocha. Em algum momento da festinha subi ao quarto de meu amigo e havia uma vitrolinha e um compacto. Me chamou a atenção o texto do compacto que dizia “mais de hum milhão de cópias vendidas”, esse “hum” milhão me chamou a atenção pela magnitude do número, coloquei o compacto na vitrolinha e já não desci mais para brincar.
“O compacto era dos The Beatles com “I Wanna Hold Your Hand” e “She Loves You”. Nessa audição na qual fiquei horas repetindo o disco, minha vida mudou definitivamente; óbvio que toda a meninada de minha rua acabou ligada nos Beatles e depois nos Stones e mais dezenas de bandas inglesas. Mas o lance de vir a tocar rolou mesmo num domingo, vendo o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos, na TV Record. Ele anunciou uma banda argentina chamada os Beat Boys; os caras entraram com um baita visual legal e diferente das bandas nacionais, cabelão compridão, uns ternos invocados de bom corte e mandaram uma música que me pirou totalmente, mas nem ideia de que música seria.
“No dia seguinte, a caminho da escola na perua escolar, perguntei a uma amiga mais velha se havia visto o programa, ante sua afirmativa, perguntei daquela banda argentina e que música era aquela, sua resposta foi “Day Tripper” dos Beatles. Não tive dúvidas, no mesmo dia ao retornar da escola, fui a uma loja de discos que tinha na Rua Oscar Freire, entre a Consolação e a Bela Cintra, lojinha descolada de discos que era da Miriam Batucada, comprei o compacto e fiquei pirando horas e horas com “Day Tripper” e “We Can Work it Out” e soube que queria tocar um instrumento, não necessariamente a bateria. Como em casa havia um violão, tentei ver como me adaptava ao instrumento e não tive sucesso devido a minha deficiência física e também pela total falta de conhecimento e orientação. Entreguei logo os pontos, mas não desisti da música e pedi à minha mãe que me matriculasse num conservatório que havia em minha rua chamado Caio Gomes, para aprender bateria, ao que ela assentiu imediatamente achando que seria uma ótima fisioterapia para mim. Logo na primeira aula descobri um professor superlegal, baterista profissional de nome Chumbinho, que não se prendeu à minha deficiência física e me mostrou as técnicas de segurar a baqueta chamadas de “matched” e “traditional grip”. Ante minha impossibilidade de segurar a baqueta com a mão direita em ambas as posições, então, pacientemente ele me disse: “veja como você pode fazer isso”, e encontrei um jeito de segurar a baqueta entre os dedos indicador e do meio, ao que exultante o Chumbinho me disse: “viu você consegue”. Se não fosse a paciência e, até diria, bondade desse ser humano de primeira e mestre que me indicou o caminho, talvez eu não tivesse chegado aonde cheguei com o instrumento.”
Depois de aprender a tocar bateria, em 1966, Rolando passou a ser requisitado pelas diversas bandas de rock amadoras do seu bairro em São Paulo. Até que num belo dia de 1968 viu um show de uma banda de visual bizarro e música alucinante chamada “Made In Brazil”. Mal sabia ele, que em um futuro não tão distante, seria o baterista deste grupo no seu primeiro álbum, o famoso e conhecido “Disco da Banana”.
Uma das diversas passagens interessantes do livro trata de sua estadia no México. Em dezembro de 1969, devido ao trabalho do seu pai, Rolando foi morar naquele país, e como o idioma e os currículos eram diferentes, não pôde entrar numa escola por lá. Então se matriculou numa escola técnica chamada Columbia College, para estudar desenho pelas manhãs e publicidade e marketing à noite. Graças a esta escola e os colegas que fez, ingressou no mundo do rock mexicano. Rolando teve passagens pelas bandas “Parada Suprimida”, “Tarantula” e “Three Souls In My Mind” (hoje uma instituição do rock mexicano). Isso tudo dos dezessete aos vinte anos de idade.
Quando voltou do México, em 1973, Rolando trouxe na bagagem uma Gretsch (bateria dupla gigante, com todos os cases individuais de cada um dos nove tambores), além de pratos Zildjian e Paiste, a que os músicos brasileiros não tinham acesso. Isso lhe abriu o caminho para as conquistas que teria, sem desmerecer o seu talento no instrumento, mas o fato de ter uma bateria de primeira sempre foi um fator facilitador, também para atingir a excelência como músico.
Segundo Rolando: “Minha família e eu, voltamos do México em péssimas condições financeiras. O que poderia ser um baita baixo astral, foi a fase mais feliz que tive em família, porque nos unimos como nunca e foi muito legal esses tempos, digamos de privações.”
Sendo assim, ele não tinha tempo a perder e logo montou um power trio de rock chamado “Aço”! E por incrível que pareça, tinham empresários. Eles eram dois malucos da Moóca, o Áureo e o Lourenço, que avisaram que o “Aço” iria tocar num festival no Parque do Ibirapuera. O palco estaria montado embaixo da marquise do MAM. Naquele que seria conhecido como o Festival do Cometa, pois um tal de cometa Kohoutek iria cortar os céus do planeta e, com ele, viria uma nova consciência cósmica nos seres humanos, que até hoje ainda não rolou.
Enquanto esperava sua vez de tocar, Rolando assistiu a todas as grandes bandas de São Paulo, e por conseguinte do Brasil, pisarem naquele palco: “Som Nosso de Cada Dia”, “Rita Lee e Tutti Frutti”, “Sergio Dias” e mais um monte de nomes importantes. Quando finalmente foram tocar, depois de um dia inteiro de espera, souberam que seriam a última banda do festival. O que hoje em dia é um luxo para um artista – fechar a noite, naquele momento, era o pior, mas o “Aço” não envergou. Segundo Rolando: “Montamos nosso equipamento e mandamos um cover do Grand Funk Railroad: Got this thing on the move. Quem assistia nosso show, naquele momento, era a alta hierarquia do rock nacional: os músicos das bandas, roadies, equipes técnicas de som e luz e pouco público. Mas essa galera da música, de cara se dobrou ante o peso avassalador da banda e nossas performances ensandecidas. Emendamos com Summertime Blues, versão do Who e assim, tijolada em cima de tijolada, fizemos nosso set, curto, pesado e contundente. O grande público nos ignorou, pela ausência do mesmo, mas em uma única apresentação eu havia construído minha reputação no meio roqueiro de São Paulo, que me renderia frutos imediatos e mais longínquos. Também fiz várias amizades naquele dia e noite. Uma delas seria importantíssima em meu futuro, na figura de uma pessoa que nos foi apresentada como roadie e que iria nos ajudar naquele palco, seu nome: Kokinho.”
Um dos frutos mais apetitosos desta apresentação no Festival do Cometa foi o convite para Rolando tocar com o “Made In Brazil”, talvez a maior banda da época. A coisa se passou assim: em 1974, o trio “Aço” foi contratado para abrir o show do Made, no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. E como já era amigo da galera, Rolando se sentia em casa, ainda mais que o ex-guitarrista do “Aço”, o Tony Babalú, estava na formação oficial do Made, como segundo guitarrista.
Nas palavras de Rolando: “Fizemos nossa abertura com as covers pesadas de sempre e com a performance habitual intensa. O público gostou, mas a galera esperava mesmo a atração principal da noite. E como mais um do público, aproveitei para ver o show e escutar o repertório da banda, pois fazia um bom tempo que eu não presenciava um show do Made. O que escutei naquela noite foi, basicamente, o repertório que estaria no primeiro disco deles. Era a primeira oportunidade que tive de assistir a um show do “Made In Brazil” só com canções autorais e achei sensacional. Gostei de cada canção. Eram boas, pesadas, com letras simples, mas eficientes em sua mensagem. A banda soava redonda. O trabalho dos dois guitarristas estava coeso, com um ritmo seguro, ‘swingado’ e forte. O baixo era um peso à parte, meio reto e sem muitas firulas, mas preciso. Somando à fortaleza do ritmo, na bateria estava o Fenilli, que cumpria com dignidade a necessidade de a banda ter uma bateria pesada, precisa e bastante simples. E no vocal estava quem para mim, desde 1968, era o melhor cantor de rock no Brasil: o Cornélio, com execução diferenciada ao interpretar canções em português e com um visual ímpar para a época.”
Após o encerramento do show, enquanto Rolando permanecia em uma das poltronas do teatro vazio, se aproximou dele o Babalú, que o questionou sobre a qualidade do show. Também comentou que o repertório faria parte do disco que gravariam e, em breve e do nada, falou que o Oswaldo tinha um convite para o Rolando tocar no Made e participar do álbum. Para eles, a banda precisava de alguém com um repertório maior de baterias e perícia em arranjar e executar o que já havia, para enriquecer a musicalidade. O Fenilli continuaria na banda na posição de percussionista.
Para Rolando: “Minha bateria deu às canções deles o condimento que lhes faltava. As canções e a estrutura profissional do Made me deram as condições ideais que eu necessitava para desenvolver minha bateria, a carreira e começar a escrever meu nome na história do rock nacional: do estilo autenticamente ”Made in Brazil””.
Mas tudo que é bom um dia acaba. Com o Made, Rolando teve sua iniciação profissional no mais alto nível que havia no show bizz para uma banda de rock brasileira. Gravaram em um ótimo estúdio (onde foram gravadas músicas do Tropicália), com toda a força possível da gravadora. Fizeram centenas de shows e aparições em TV, compraram todo um equipamento de P.A. com o faturamento. Mas, o que mais pesou na sua decisão de sair da banda foi a vontade de tocar outro tipo de rock. Ele até já conhecia e tocava várias das músicas que viriam a disco fazer parte do segundo do Made, o “Jack o Estripador” e gostava bastante das canções. Segundo ele: “Eu precisava de mais espaço para a bateria. Queria orientar meu tocar para algo mais Carl Palmer, Bill Bruford, Billy Cobham e esse tipo de rock que essa galera fazia, que seria algo mais chegado ao progressivo e ao jazz rock.”
Neste momento de ruptura, encerramos a primeira parte da resenha do livro “Aventuras e desventuras de um baterista de rock da América Latina”. No artigo de 16 de julho próximo, contaremos sobre a criação da Patrulha do Espaço, da estadia de Rolando na Argentina e em Curitiba, onde exerceu forte influência na cena do rock local. Até lá!
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