A relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e seu secretário de Governo e Relações Institucionais, Gilberto Kassab, entrou oficialmente na fase do “não convidem para a mesma mesa”. O que antes parecia uma aliança pragmática e funcional agora tem cheiro de comida azeda esquecida no fogão.
Tudo começou quando Kassab, com a naturalidade de quem acredita estar oferecendo um conselho estratégico, só que não, afirmou que uma coisa é gratidão e outra é submissão ao comentar a relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro. A frase, que poderia ter passado como uma ponderação típica do manual do político experiente, caiu como pimenta no olho do governador.
Tarcísio não deixou barato. No dia seguinte reagiu dizendo que quem fala em submissão não entende nada sobre amizade e valores. Em política, a escolha das palavras é tudo. E quando um governador fala em valores para rebater o próprio secretário, é sinal de que o ruído já virou estrondo. Foi recado público, com endereço certo.
O episódio revela algo maior do que um mal-estar episódico. Kassab é conhecido pelo pragmatismo afiado e pela habilidade de se posicionar onde o vento sopra mais favorável. Lealdade, no seu currículo político, costuma vir acompanhada de cláusulas de revisão. Ao sugerir que Tarcísio precisava se afirmar além da sombra de Bolsonaro, o secretário mirou na autonomia estratégica, mas acertou no orgulho político.
O problema é que Tarcísio não parece disposto a digerir a insinuação. Tanto que nesta quinta-feira de ressaca carnavalesca, voltou ao assunto. “Acho interessante como as pessoas confundem lealdade com submissão. Amizade e lealdade viraram atributos raros na política. As pessoas agem por interesse próprio”, disse Tarcísio. “Quem fala em submissão não entende nada sobre amizade e valores”, completou logo em seguida.
As respostas firmes indicam que a fala de Kassab não foi encarada como análise fria, mas como tentativa de enquadramento. E político, quando se sente enquadrado, costuma reagir. O clima, que já não era exatamente tropical, azedou de vez.
Em São Paulo, as consequências podem ser imediatas. Kassab vinha sendo apontado como peça central na engenharia da candidatura à reeleição de Tarcísio, inclusive com articulações que o colocavam como possível vice na chapa. Depois do episódio, a hipótese começa a parecer menos natural e bem distante. A parceria estratégica virou constrangimento protocolar.
No plano nacional, o efeito pode ser ainda mais interessante. Como presidente do PSD, Kassab lidera um partido que abriga nomes competitivos para a Presidência da República.
O PSD sempre operou com flexibilidade, negociando espaços e alianças conforme o cenário. Para “consertar” a relação com Tarcísio, Kassab pode rifar a candidatura própria do PSD e se abraçar ao governador paulista no palanque de Flavio Bolsonaro. Principalmente se o cacique do PSD sentir que, nesse enjambre, pode reconstruir seu caminho para a vice de Tarcísio.
Nesse tabuleiro, nomes como Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite ficariam literalmente com o pincel na mão, à espera de uma definição que pode não vir.
O que era uma divergência retórica virou teste de convivência política. Kassab tentou desenhar autonomia. Tarcísio respondeu defendendo lealdade. No meio, sobrou a sensação de que a aliança entrou em zona de turbulência.
Na política, amizades costumam resistir a quase tudo, menos à suspeita pública. E quando a palavra “submissão” entra na conversa, dificilmente sai sem deixar marcas.



