ANO IV

03/07/2026

HojePR

gennaro

O vestido da noiva

03/07/2026
noiva

Na pequena cidade do interior, onde os sinos da igreja anunciavam as horas e os moradores anunciavam as notícias antes deles, Dona Mariquinha era a costureira mais respeitada da região. Viúva, sustentava a casa com sua velha máquina de pedal, que parecia conhecer mais segredos do que o padre e o delegado juntos.

Cada vestido costurado financiava os estudos da única filha, Vanete, excelente aluna do melhor colégio da cidade.

Ali também estudava Leosmar, filho do poderoso deputado estadual da região. Bonito, simpático e convencido de que o mundo existia para a sua diversão, passava mais tempo ensaiando charme do que estudando. Vanete, inteligente e dedicada, apaixonou-se. Ele também… embora tivesse o curioso hábito de se apaixonar sempre pela próxima novidade.

O namoro floresceu e o casamento foi anunciado.

Dona Mariquinha confeccionou o vestido da filha como quem bordava uma oração. As tias prepararam um enxoval tão completo que, diziam, resistiria a três gerações e a duas sogras exigentes.

A igreja foi ornamentada. O coral ensaiou. O fotógrafo limpou a lente. As beatas prometeram comentar apenas a decoração. Cumpriram a promessa durante exatos quarenta segundos.

Na noite anterior ao casamento, Leosmar fugiu para o Rio de Janeiro com uma carioca conhecida nos carnavais.

No altar, Vanete esperou.

Esperou mais um pouco.

Até que a notícia chegou.

O silêncio tomou conta da igreja. Logo depois, como sempre acontece nas cidades pequenas, vieram os comentários, as versões e até quem atribuísse a fuga a Mercúrio retrógrado, embora ninguém soubesse exatamente quem era esse cidadão.

Vanete mergulhou na tristeza. Guardou cuidadosamente o vestido numa caixa de madeira e decidiu que jamais permitiria que outra pessoa conduzisse seu destino.

Ingressou na Faculdade de Direito.

Descobriu que as leis eram muito mais confiáveis que certas promessas de amor.

Estudou com obstinação, foi aprovada em concurso e tornou-se Juíza Federal.

Dona Mariquinha viveu para vê-la vestir a toga e comentou com discreto orgulho:

— Esta roupa caiu melhor do que a outra.

Os anos passaram.

Enquanto Vanete conquistava respeito pela competência e pela serenidade, Leosmar prosperava em negócios cada vez menos transparentes. Descobriu extraordinária vocação para licitações criativas, privatizações nebulosas e contratos tão elásticos quanto promessas de campanha.

A fortuna cresceu.

Depois vieram a investigação, as provas, a operação policial e as manchetes.

Quando entrou na sala de audiências, escoltado por agentes e acompanhado por advogados que falavam um latim impecável para justificar honorários ainda melhores, levantou os olhos.

Na cadeira da magistratura estava Vanete. Ela o reconheceu imediatamente.

Não demonstrou mágoa.

Também não demonstrou complacência.

O processo falava por si. As provas eram irrefutáveis.

A sentença foi condenatória. Leosmar compreendeu, naquele instante, que perdera duas vezes: primeiro a mulher que verdadeiramente o amava; depois, a própria liberdade.

Dias mais tarde, já recolhido ao presídio, recebeu um embrulho sem identificação.

Abriu-o lentamente.

Dentro havia apenas o antigo vestido de noiva.

As rendas permaneciam intactas. O branco transformara-se em delicado tom marfim, mas cada costura ainda guardava o carinho das mãos de Dona Mariquinha.

Nenhum bilhete.

Nenhuma explicação.

Nenhuma palavra.

Apenas o vestido.

Leosmar permaneceu longo tempo contemplando aquela peça de tecido.

Percebeu que existiam sentenças que começavam muito antes dos tribunais.

E compreendeu que a Justiça possuía um curioso senso de humor: permitira que a noiva abandonada finalmente conduzisse o casamento que ele tentara evitar. Não diante do altar, mas diante da lei.

Na pequena cidade, onde as notícias continuavam viajando mais depressa que os sinos, um velho frequentador da venda encerrou o assunto com a filosofia própria dos interioranos:

— No fim das contas, ela casou, sim…

— Casou com quem?

O velho sorriu, ajeitou o chapéu e respondeu:

— Casou-se com a Justiça. E foi o único casamento em que o noivo apareceu… algemado.

Leia outras colunas do Gennaro aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário